Já vai na 5ª edição e continua a celebrar, de uma forma especial, o cinema no feminino. Isto é: um cinema que se define pelo trabalho da mulher atrás da câmara, no lado do processo de produção, enquanto força criativa. Mais particular ainda: um cinema que é feito nos países do Mediterrâneo, e que de outra maneira, muito provavelmente, não chegaria ao público português. Aqui está um Festival que, na sua aparente pequena dimensão, arrisca um programa que merece ser descoberto - não só, mas também - pela riqueza dos ângulos sociais e culturais, temas da atualidade e fomento de uma consciência do real. Um Festival acolhedor que está de volta a Lisboa e pode ser acompanhado no Cinema São Jorge, a partir de amanhã e até ao dia 30 de setembro, com realizadoras convidadas e outras propostas para além dos filmes: debates, workshops, música e exposições..O Olhares do Mediterrâneo vai abrir com Figlia Mia, o novo título da italiana Laura Bispuri (realizadora de Virgem Prometida), mais uma vez com as atenções voltadas para a atriz Alba Rohrwacher, aqui no papel de uma mãe que, num verão, surge na vida da sua filha de 10 anos, perturbando a paz familiar em que até aí ela vivia com os pais adotivos. Também de maternidade nos fala o documentário Ninna Nanna Prigioniera, centrado numa jovem prisioneira que vive com dois filhos na cadeia, ou Barke Lyom, curta-metragem libanesa sobre uma mulher de 60 anos que todas as semanas prepara o prato preferido do filho na esperança do seu regresso. Estas são apenas algumas das narrativas "no feminino", mas nem só de retratos voltados para a mulher se faz o Festival..Num total de 51 filmes - de diferentes formatos, e entre o registo documental, a ficção e a animação -, há ainda histórias rurais (Les champs de la colère, El Color de La Sed), outras sobre a identidade de género (Laissez moi danser, Mr Gay Syria), os refugiados (Layla Hasar Shahar, My Kaaba is Human, Birds), e muito mais. É desta diversidade, assente em crónicas individuais e coletivas, que se faz o Olhares do Mediterrâneo..Deixamos-lhe cinco sugestões da programação:.Figlia Mia, de Laura Bispuri (27 set. 21.30).É a segunda longa-metragem de Laura Bispuri e o filme que assinala a abertura do Festival, com uma história de verão tão bonita quanto violenta. De câmara agitada, a realizadora italiana filma o turbilhão psicológico de uma menina dividida entre a mãe biológica e a adotiva. E neste retrato de uma crise familiar em ambiente rural, Alba Rohrwacher (que interpreta a mãe biológica) é o verdadeiro caos humano, que desperta a poesia e o risco latente na figura tímida e bem-comportada da filha que não criou. Aqui, o olhar de Bispuri é terno e selvagem, em sintonia com as duas mulheres..Análisis de Sangre Azul, de Blanca Torres e Gabriel Velázquez (27 set. 14.30).Talvez a ficção mais experimental da competição, Análisis de Sangre Azul é um curiosíssimo exercício de cinema mudo, apresentado como um diário clínico. Simulando um registo documental de 1933, este é, supostamente, o filme de um psiquiatra intrigado com o seu novo paciente, no Sanatório Casa Tardán, em Espanha. Ele foi encontrado com amnésia no Monte Perdido e, pelos modos requintados, é visto como um possível aristocrata, cujo sangue azul pode impulsionar um caso científico na região. "El Inglés", assim lhe chamam, é então a figura misteriosa desta falsa investigação médica, a qual surpreende pela capacidade de contar uma história bucólica pela via menos tradicional..Irioweniasi. El hilo de la Luna, de Esperanza Jorge e Inmaculada Antolínez (27 set. 16.30).Este é um projeto de duas antropólogas espanholas sobre a questão do tráfico humano. Aqui temos uma série de depoimentos de profissionais atualmente empenhados na luta contra esse crime generalizado, mas o que faz do documentário um objeto com alma é o relato individual da longa travessia de uma jovem nigeriana para a Europa. Os detalhes dolorosos da sua história cruzam-se com um coro de vozes de outras vítimas, e o resultado é a sensação de uma viagem noturna a esta realidade camuflada no quotidiano europeu..Mr Gay Syria, de Ayse Toprak (29 set. 16.30).Um olhar comovente sobre a vida "invisível" de refugiados sírios homossexuais, que abre uma janela para o drama de quem se atreve a sonhar com uma expressão livre da sexualidade. Como o título sugere, o ponto de partida de Mr Gay Syria é esse concurso de beleza internacional, cujo vencedor, Husein, barbeiro em Istambul, se dá a conhecer na sua experiência angustiante dentro de uma família conservadora. A par disso, também se acompanha aqui o trabalho do fundador do movimento LGBTI na Síria, refugiado em Berlim, que faz tudo o que pode para dignificar a vida de pessoas como Husein..Razão Entre Dois Volumes, de Catarina Sobral (30 set. 14.30).É uma das curta-metragens de animação que integram o programa e que vale a pena conhecer. Tem selo português, e um conceito inteligente: esta é a história do Sr. Cheio e do Sr. Vazio. A história de uma antítese perfeita. O Sr. Cheio vive empanturrado de pensamentos, memórias e emoções; o Sr. Vazio, claro está, não retém nada dentro dele, por mais que tente. Mas a questão é mais do que física... Com um traço dinâmico que escolta a habilidade narrativa, a ilustradora Catarina Sobral deixa assim uma bela impressão da sua arte no cinema animado.