Líderes de pequenos e grandes países inspiraram-se ao longo dos séculos nos imperadores romanos para encontrar formas de exercer o poder. Claro que isso foi, e é, tanto mais evidente quanto mais poderoso seja o governante, dos Estados Unidos à Rússia, basta lembrar que nos tempos imperiais esta era liderada por um czar, palavra que deriva de César. Uma extraordinária reflexão sobre a persistência desse modelo de poder, da Antiguidade até hoje, é assinada por Mary Beard, que publicou Doze Césares, editado em Portugal pela Presença, e merece uma leitura tanto pelo que nos ensina do passado, como sobre aquilo que nos ajuda a perceber dos nossos tempos..Professora em Cambridge, também conhecida pela divulgação que faz da História através de documentários televisivos, Beard é autora de uma série de livros sobre Roma, com destaque para S.P.Q.R., mas desta vez vai muito além da mera descrição dos acontecimentos de há dois mil anos. E desengane-se quem olhar para o título deste recente livro e pensar que se trata de uma sequência de biografias dos imperadores, mesmo que haja uma piscadela de olho ao As Vidas dos 12 Césares escrito por Suetónio, no século II..Beard analisa dois mil anos de arte para destacar como a pintura e a escultura estão recheadas de referências aos césares, nomeadamente na Europa e nas Américas. Como a própria diz, foram décadas e décadas da sua vida a estudar figuras como Júlio César, Augusto, Calígula ou Nero e, ao mesmo tempo, a reencontrar-se com elas, ao passear por um palácio ou ao visitar um museu. Mas mais ainda: sempre que num país percebia que as moedas traziam a imagem do líder recordava-se de imediato de que era uma tradição política criada em grande medida por Júlio César, essa, de os governados trazerem nos bolsos o retrato do governante..Júlio César, que viveu no século I a.C, nunca usou o título de imperador. Isso só aconteceu com o seu filho adotivo e sucessor Augusto, que pouco a pouco foi substituindo a república pela monarquia, mas mantendo as aparências. Contudo, Júlio César é uma personalidade incontornável quando se pensa em Roma e na verdade uma figura da cultura popular. Por alguma estranha razão não inspirou sucessos de venda intimistas do género Eu, Cláudio, de Robert Graves, ou Memórias de Adriano, de Marguerite Yourcenar (livro que Beard, em entrevistas, desvalorizou do ponto de vista da verdade histórica, por fazer de um megalomaníaco um imperador místico), mas o seu "Vim, Vi e Venci" (Veni, Vidi, Vici, em latim) está subjacente na atitude de muitos políticos até hoje, inclusive os democratas que chegam ao poder pelo voto e esquecem o quanto efémero é o apoio das massas. E mesmo os que conquistam o poder pela força deviam lembrar-se sempre de que Júlio César, tal como Calígula, foi assassinado, e Nero forçado ao suicídio..Uma busca na internet encontrará facilmente alusões a Putin ou Bolsonaro relacionados com os temas dos livros de Beard e a própria, desafiada por jornalistas, já por mais de uma vez fez comparações entre os vícios dos imperadores romanos e líderes atuais, como quando criticou o machismo de Trump, Putin e Berlusconi. Mas como uma fotografia em Doze Césares mostra, até o presidente americano Franklin Roosevelt, líder do mundo livre na luta contra o nazismo, celebrou um aniversário vestido de toga romana, e já estava na Casa Branca..Não posso deixar de destacar que este de Beard está ilustrado com algumas belíssimas imagens de pinturas e esculturas alusivas à temática romana, mas também revela muitas das coisas feias que o cesarismo implica. Devemos muito, e de tudo, aos romanos, como cheios de humor os Monty Phyton nos relembram no filme A Vida de Brian, e é curioso como no dia a dia usamos tantas vezes frases como "Dai a César o que é de César, e a Deus, o que é de Deus" ou "À mulher de César não basta ser honesta, é preciso parecer honesta" (Beard não esquece nem Lívia, mulher de Augusto, nem as Agripinas). E a nós portugueses, que tanto gostamos de reivindicar os lusitanos como antepassados, também é pertinente que ao conquistador da Gália, seja atribuída a frase "Há, nos confins da Ibéria, um povo que não se governa nem se deixa governar"..Diretor adjunto do Diário de Notícias