CDS terá mais deputados do que justificam votos de 2022

Descalabro nas últimas legislativas só daria um lugar elegível em Lisboa aos centristas. Histórico de alianças e efeito de juntar votos para ganhar mandatos põe PSD mais generoso.
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O resultado desastroso do CDS-PP nas legislativas de 2022 - nas quais ficou pela primeira vez sem representação na Assembleia da República, com apenas 1,6% dos votos - levaria a que os centristas não pudessem ambicionar a eleger mais do que um deputado nas listas da Aliança Democrática, se o PSD fizesse apenas contas ao que sucedeu a 30 de janeiro de 2022. Tal não deverá suceder, pois a negociação entre os dois partidos, ainda não fechada, aponta para que no mínimo haja um grupo parlamentar centrista. Isso implicaria dois eleitos, embora se possa assistir à tomada de posse de quatro, em caso de forte sucesso eleitoral.

Fatores como o histórico do CDS nas coligações pré-eleitorais e nos entendimentos pós-eleitorais que sustentaram os Executivos de Durão Barroso, Santana Lopes e Passos Coelho, e o aumento de "eficiência eleitoral" com a soma dos votos dos partidos - evitando o fenómeno de 89 mil votos nos centristas não terem servido para eleger ninguém há menos de dois anos -, estão a ser apontados pelos dois parceiros para justificar um acordo mais vantajoso para o elo mais fraco da nova Aliança Democrática.

O único deputado centrista que seria elegível caso se espelhasse a relação de forças entre os dois partidos nas anteriores legislativas - como tende a suceder nestas negociações -, integraria a lista da coligação de centro-direita por Lisboa. E mesmo assim ficaria apenas em 16.º lugar, no limite dos 17 deputados eleitos em 2015 pela coligação Portugal à Frente na capital. Nos outros principais círculos, a proporção entre os partidos - que irão juntos às urnas a 10 de março de 2024, tendo ao lado personalidades independentes - deixaria os representantes do CDS longe de qualquer hipótese de chegarem ao hemiciclo, relegados para 24.º no Porto (onde Passos Coelho e Paulo Portas só conseguiram fazer eleger 17), 16.º em Aveiro e 22.º em Braga. Isso implicaria que a Aliança Democrática elegesse todos os deputados do círculo aveirense, o que não se afigura possível, mas em Braga nem tal coisa bastaria, pois o círculo minhoto só tem 19 mandatos, pelo que ao CDS caberia apenas o terceiro suplente.

DestaquedestaqueMesmo a votação historicamente fraca do CDS em 2022, com Rodrigues dos Santos e grupo parlamentar em guerra, impediria a maioria absoluta de António Costa.

Para os conselheiros nacionais do PSD não questionarem uma maior "generosidade" contribui a subida da fasquia por parte de Luís Montenegro, pois este deixou claro que não será primeiro-ministro se não for o mais votado nas legislativas. Num cenário de disputa próxima com o PS de Pedro Nuno Santos, o contributo do CDS pode ser decisivo. As sondagens mais recentes dão aos centristas intenções de voto em torno dos 2%, o que faria do regresso ao Parlamento em listas próprias algo bem mais incerto do que impossível.

Outro argumento é o da eficiência eleitoral, na medida em que mesmo a votação historicamente fraca do CDS em 2022, com o então líder Francisco Rodrigues dos Santos e o antigo grupo parlamentar em guerra, teria impedido a maioria absoluta de António Costa caso se somassem os seus votos aos do PSD. Ao todo, partindo do princípio que nenhum eleitor deixaria de votar por o seu partido estar coligado com o outro, cinco dos 120 deputados socialistas ficariam à porta de São Bento. Isso permitiria ao centro-direita ter mais um mandato nos círculos de Leiria, Vila Real e Bragança, onde o PS deixaria de ser o mais votado. Também ganhariam um deputado aos socialistas em Coimbra e Portalegre, e um ao Chega no Porto.

Entretanto, o PPM anunciou ter recusado "condições humilhantes" para integrar a Aliança Democrática. Por seu lado, o líder da Iniciativa Liberal, Rui Rocha, reiterou que o seu partido irá sozinho a votos, e André Ventura criticou "um certo desespero" do PSD para tentar bloquear o crescimento do Chega, o que garantiu não ser possível com "partidos que estão mortos".

leonardo.ralha@dn.pt

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