Casas abarracadas e muito pó no caminho da praia da Fonte da Telha

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Casas abarracadas, maus acessos, estacionamento caótico e muito pó é o cenário encontrado pelos milhares de veraneantes que se deslocam diariamente às praias da Fonte da Telha, Almada, há largos anos à espera de obras.

As praias, rodeadas por casario degradado construído na frente de mar e junto a uma falésia, têm como único acesso uma estrada íngreme que se enche de filas de carros durante a época balnear.

As poucas ruas da povoação não estão alcatroadas nem têm passeios e o estacionamento automóvel, desordenado, faz-se em cima da areia. Há quem coma nas esplanadas de cafés debaixo de pó, venda peixe e fruta nas ruas sem as mínimas condições higiénicas e improvise parques de campismo nas traseiras de construções abarracadas.

Como não há saneamento básico, os esgotos domésticos são despejados para fossas. "Estamos neste impasse, é hoje, é amanhã, é este ano, é noutro ano e nada se faz", lamenta o presidente da Associação de Moradores da Fonte da Telha, António Amorim, que ergueu a sua casa ilegalmente numa área limitada por mata protegida, numa altura em que "toda a gente fazia o mesmo".

A Fonte da Telha, onde vivem 300 famílias, começou por ser uma comunidade piscatória, mas a partir da década de 1960 tornou-se num bairro habitacional clandestino, perante a inércia das autoridades marítimas, ambientais e do município de Almada. Em finais dos anos 80, a maioria das construções foram demolidas, tendo permanecido as de primeira habitação, com a promessa de os seus moradores serem realojados posteriormente noutra zona, o que acabou por não acontecer.

Desde essa altura, em que apenas foi calcetada e iluminada parcialmente a rua principal da localidade, mais nenhuma obra foi feita na Fonte da Telha.

O Plano Director Municipal de Almada, aprovado em 1997, já determinava que a recuperação urbanística da Fonte da Telha seria regulada por um plano de pormenor, que continua por fazer.

Em 2003, é anunciado um novo plano, desta vez de Ordenamento da Orla Costeira Sintra/Sado, da responsabilidade do Governo, que prevê para aquela zona a demolição de habitações ilegais, a criação de áreas de animação e lazer, estacionamento e um meio de transporte colectivo alternativo aos autocarros que habitualmente fazem o trajecto para a povoação.

Confrontada pela Lusa com tantos atrasos, a autarquia justificou- se com a falta de "consonância de acções" entre diferentes entidades, enquanto o Ministério do Ambiente limitou- se a defender que a iniciativa de elaboração do plano terá de partir do município.

Enquanto persiste o impasse, moradores, comerciantes, pescadores e utentes das praias queixam-se do estado de abandono da Fonte da Telha, da falta de acessos, estacionamento e pó. "Os clientes chegam para jantar, passa um carro ou uma mota e é uma poeirada", reclama Artur Tavares, proprietário há mais de 20 anos de um restaurante.

"Os acessos são horríveis, já cheguei a estar parada uma hora no trânsito para sair da praia", comenta Anabela Almeida, frequentadora há vários anos da Fonte da Telha.

Carlos Pereira, emigrante no Canadá a passar uns dias de férias com familiares, considera que as praias "são boas", comparativamente com as da Costa de Caparica, que "estão a perder areia". "Mas o resto está um bocado abandalhado", reconhece.

*Jornalista da agência Lusa

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