"Isto é um trapiche" ou "estás a precisar de ir para o trapiche" são duas frases bem conhecidas dos madeirenses para chamar alguém de louco. A Casa de Saúde de São João de Deus, edificada no sítio do Trapiche (Funchal) em 1923, não é mais do que um hospital psiquiátrico. Mas a catástrofe de há duas semanas que caiu sobre a ilha e causou 42 mortes, 8 desaparecidos e mais de 600 desalojados, pode ajudar a desmistificar o lugar, depois de ter sido o primeiro centro de acolhimento espontâneo para quem fugia do medo. Neste momento, ainda há 21 famílias que aguardam pelo regresso a casa. .Eduardo Lemos, presidente da Casa de Saúde São João de Deus, garante que a instituição vai continuar a dar apoio psicológico à população, apesar de as pessoas que ali trabalham "estarem todas esgotadas". Na conversa, relata a aflição das primeiras horas, quando, de repente, 150 pessoas, adultos e crianças, embrulhadas em cobertores, enlameadas, descalças, a tremer de frio e assustadas, lhe bateram à porta. Ofereceu banho, roupa, alimentação e palavras de conforto. "Quem chegava tinha de ter apoio e nunca pensámos que podíamos ajudar tanto." .De início, "não sabíamos a dimensão do problema. Nem percebíamos o porquê daquela situação. Mas as pessoas foram chegando umas a seguir às outras, algumas delas aos gritos porque não sabiam dos familiares". Para o primeiro impacto, foram requisitados os serviços de psiquiatria, psicologia, enfermagem e farmácia. Uma equipa de três enfermeiros deslocou-se aos lugares devastados e conseguiram uma abordagem pré-hospitalar importante tendo encontrado gente inanimada e enterrada na lama. .No primeiro dia "não foi possível dar uma cama a todos, mas foi possível dar-lhes um colchão". Há transporte para as crianças irem à escola e quem trabalha voltou a retomar o emprego. .Esta realidade é gerida em simultâneo com os 250 utentes internados nas áreas da alcoologia, psiquiatria aguda e reabilitação psicossocial que viram a sua rotina alterada. Houve mobilização dos doentes para outras alas e não é fácil explicar, por exemplo, porque há roupa de bebé no estendal. .Mesmo assim, "reagiram bem. Eles próprios quiseram participar e ajudaram muito", afirma o director que reconhece a solidariedade vinda do exterior. Neste momento, "precisamos mais de alimentos e produtos de higiene do que de roupas". Embora haja a "intenção forte" da autarquia de acelerar os realojamentos, enquanto "isso não acontecer, cá estamos nós".