Experiência de voyeurismo? Talvez antes cinema com discurso de libertação feminina. Casa do Prazer fala precisamente do prazer feminino sem filtros e sem medo da chamada caução feminista. Tem muito sexo, muitas vezes coreografado com potência e grafismo..Anissa Bonefont, cineasta com currículo anónimo, adapta com desplante traiçoeiro o romance controverso de Emma Becker, escritora francesa que se muda para Berlim para ir para um bordel como trabalhadora sexual e poder escrever sobre esta prática. A Emma do filme é uma bela mulher, inteligente e curiosa para testar até ao limite as fronteiras do seu corpo enquanto fonte de prazer e de independência. Mas será que esse teste não esconde uma fantasia que ainda é tabu na nossa sociedade? O filme dá pistas mas na sua proposta radical inventa um romance: ao mesmo tempo que se torna cúmplice com outras prostitutas e clientes, acaba por conhecer um jovem por quem se apaixona..Em França, quando foi lançado o ano passado, La Maison criou alguma celeuma. A realizadora e a corajosa protagonista, Ana Girardot, conhecida de filmes como Um Senhor Doutor! e Tão Perto, Tão Longe, fartaram-se de ir à televisão e defender com unhas e dentes este olhar feminino. A controvérsia também surgiu pelo facto de Emma Becker não ter feito parte da promoção. Sobre isso, Anissa Bonefont abre o jogo: "ela viu o filme mas, de facto, o meu argumento precisava de sair de alguma forma da visão dela. Na verdade, procurei saber o que eu queria contar através desta história real. Quis ser livre! Uma liberdade que, por exemplo, me fez criar a personagem da irmã e a história de amor. O que me apaixonou foi a aventura dela, mas quis que no filme, para além desta demanda dela sobre a sua sexualidade, o mais importante fosse a procura do amor. Em suma, filme e livro são objetos diferentes"..Ao seu lado, Ana Girardot, sem tiques de estrela assume que este papel foi um tour-de-force: "foi uma experiência de interpretação extremamente enriquecedora em cinco semanas que passaram num instante! Foi intenso, mas tínhamos trabalhado antes já seis meses na preparação. Num só papel há uma multiplicidade de personagens! Pessoalmente, foi uma experiência muito humana. E descobri esse meio da prostituição legalizada que desconhecia. Também descobri uma força feminina em mim que não sabia que existia... Mudei, fiquei transformada!!".Aquela ideia exterior da doçura de uma vedeta light de um certo cinema francês de grande público cai por terra. Esta Ana Girardot não é a mesma do levezinho Aquilo que nos Une, de Cédric Klapisch: "não vou voltar a fazer as coisas que antes fazia. A Ana Girardot simpáticazinha acabou! Quero explorar outras personagens, ser mais ousada e fazer filmes mais inquietantes". A atriz conta com um sorriso que já está a receber outro tipo de propostas. Sobre o embaraço da simulação de orgasmos e sexo explícito num plateau, a realizadora apenas diz que o importante era a questão das emoções nas cenas de cama: "as sequências com sexo eram tratadas da mesma maneira do que as outras. Nunca nos preocupámos se certas coisas poderiam ficar ridículas ou não. São cenas dramáticas ao serviço da personagem Emma".