Cartazes no século XXI só com wi-fi!

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Celebrar o 1.º de Maio, para mim é celebrar o cartaz. Talvez devido à idade e ao que (não) vivi. Ou talvez porque sou um aficionado da imagem.

Hoje em dia falar de cartazes é coisa de velho! O cartaz, para as gerações atuais é um suporte estragado, pois não se consegue fazer zoom nem tão pouco deslizar o dedo e mudar para a imagem seguinte.

O cartaz é, ou era, um valioso ativo na discussão da vida política. O cartaz exponenciou a importância da rua como um dos lugares centrais da cultura política, tanto do início do século XX, que incluía republicanos, anarquistas e socialistas, como durante o regime e após a queda de Salazar.

O cartaz era o Twitter dos anos de 1970 em Portugal. Era o tweet que víamos na esquina da 5 de Outubro com as Forças Armadas. Era o que nos dava o mote para uma discussão, para uma troca de ideias, para concordar ou discordar.

Isto depois de Abril claro! Porque antes disso, o cartaz era o General ao serviço de um Estado Novo, autoritário e ditatorial. Vejam-se a séries de cartazes intitulada A lição de Salazar, que foi distribuída pelas escolas primárias na primeira metade do século.

Mas isso acabou! O regime democrático marcado pela orientação socialista trouxe uma nova vida e com ela, novas abordagens ao mundo do texto e da imagem, que é como quem diz, as paredes da cidade passaram a promover ideias e ideais em substituição de uma estética salazarista que unia a arte às políticas fascistas.

A seu tempo, todas as campanhas eleitorais haveriam de recorrer a este meio de comunicação de massa. O cartaz tornou‐se imprescindível para a publicidade política na Europa do século XX, mas também se tornou numa forma de arte.

Se recuarmos ao início do século XX, encontramos em França as mais belas expressões artísticas que marcaram uma ligação clara à cultura e à publicidade, falo de Henri Toulouse-Lautrec e de Alphonse Mucha.

Já em Portugal, na mesma época, falar de cartaz e não referir Raul de Caldevilla, é um crime! Pioneiro da publicidade moderna no país, defendia que a publicidade era a melhor forma de promover e alavancar a exportação dos nossos produtos. Cria assim a ETP - Escritório Técnico de Publicidade, que daria origem, anos mais tarde à célebre Empreza do Bolhão, uma referência central na história do cartaz português.

E agora? Agora, temos "cartazes online", despidos de estética, despidos de ideias.

Comunicamos no Twitter, discutimos no Facebook e se passarem na 5 de Outubro, acreditem que não há ideais políticos para publicar no Instagram!

Designer e Diretor do IADE - Faculdade de Design, Tecnologia e Comunicação da Universidade Europeia

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