Carolina Salgado: "Jorge Nuno e o major controlam tudo e até a Polícia Judiciária do Porto"

Nasceu em Vila Nova de Gaia, a 14 de Março de 1977. Viveu com Jorge Nuno Pinto da Costa durante seis anos.Decidiu publicar uma autobiografia para se defender da má publicidade que tem sido feito da sua pessoa. Num relato aos bastidores do futebol, acusa o presidente do FC Porto de comprar árbitros e mover influências<br />
Publicado a
Atualizado a

Que papel está assumir a neste momento com a publicação deste livro?

Este livro é a vontade de encerrar um capítulo da minha vida. Se a separação tivesse acontecido de uma forma normal e civilizada não haveria livro.

Vingança, arrependimento?

Perante a tentativa persistente de Jorge Nuno de me achincalhar na praça pública decidi escrever um livro que me desse o direito de me defender.

Foi pressionada para que o livro não fosse publicado?

Recebi algumas pressões e ameaças, mas o que interessa é que foi publicado.

Não receia as consequências que poderão advir da publicação?

Assumo os riscos de tudo o que contei. Estou preparada para pagar os erros que cometi durante este tempo. Tudo o que escrevi aconteceu e também admito que por uma questão de precaução e segurança pessoal, não contei todas as histórias.

Falou de promiscuidade, de mundo oculto no futebol. A que se referia?

Ás inúmeras histórias de bastidores, como as que envolvem os árbitros. Relatei algumas situações de árbitros que estiveram em minha casa a conviver com o Jorge Nuno. Acho que não é normal este tipo de confraternização.

Eram árbitros indicados para os jogos do FC Porto?

Também.

Isso também acontecia em vésperas dos jogos?

Sim, existiramalguns convívios.

E nesses convívios eram pedidos favores?

Exactamente.

Favores desportivos?

Eles eram pagos para se portarem bem.

De que tipo de pagamentos fala?

Há muitas formas de se pagar favores. Não se pode limitar o pagamento a dar dinheiro.

Está a falar de corrupção na arbitragem...

Pelo que vi, sim. Alguns árbitros vendem-se.

Relata no livro um telefonema de Pinto da Costa para Pinto de Sousa, (ex-presidente do Conselho de Arbitragem) queixando-se de uma arbitragem que não estava a correr bem. Era frequente essa situação?

Aconteceu algumas vezes.

E qual era a resposta?

Pinto de Sousa tentava tranquilizá-lo e depois acabavam por se encontrar para falar do assunto.

Assistiu a alguma sugestão de árbitro para algum jogo do FC Porto?

Sim, por exemplo o Benfica-FC Porto (2004), naquele jogo em que assisti à partida no meio dos Super-Dragões e exibi um cartaz para o presidente do Benfica, uma montagem de Jorge Nuno, que me usou.

Está a dizer que esse arbitro, Olegário Benquerença, foi escolhido por Pinto da Costa?

... Recordo-me bem que o resultado desse jogo foi positivo para o FC Porto [vitória por 1-0].

A quem eram dirigidos os pedidos?

A quem mandava nos árbitros e quem tinha o poder na Liga, dirigentes importantes que estão indiciados no processo Apito Dourado .

Que tipo de relacionamento tem Pinto da Costa com Valentim Loureiro?

Há amigos que não se podem dar ao luxo de se zangarem, amizades que têm de ser mantidas a todo custo. São amizades de conveniência. Não acredito que ele goste verdadeiramente de alguém.

Neste seis anos sentiu que Pinto da Costa tem influência no futebol português?

Tem muita influência a todos os níveis. E não tenho receio de dizer que muitos dos jogos do FC Porto foram ganhos nos bastidores.

Quem são os mais influentes?

O major e o Jorge Nuno controlam tudo a norte. O poder deles, nomeadamente do Jorge Nuno, vai muito além do futebol, abrange a comunicação social e vai até à Polícia Judiciária do Porto, como ficou provado no processo " Apito Dourado ".

O que se passou nessa altura?

O Jorge Nuno estava a par, desde o início, de tudo o que se ia passando no processo, e foi avisado um dia antes de a PJ ir a nossa casa. Foi Lourenço Pinto [advogado] que lhe disse. A informação chegou por intermédio do irmão de Reinaldo Teles, Joaquim Pinheiro, que tem um amigo na Polícia Judiciária do Porto. Essa informação deu-nos tempo para preparar a fuga.

Se pudesse voltar atrás o que faria de diferente?

Não teria ajudado o Jorge Nuno na agressão a Ricardo Bexiga. Eu fui incumbida por ele de falar com algumas pessoas e fazer o serviço ("dar uma coça", ao então vereador). Na altura ele não podia confiar nas outras pessoas, Reinaldo Teles deixara de ser, por motivos pessoais, o seu braço direito e então utilizou-me. Fiz o trabalho sujo.

E porque aceitou?

Não tinha alternativa. Tinha que o ajudar. Eu sempre me coloquei na linha da frente em tudo.

Reacções

Ricardo Bexiga, ex-vereador do PS em Gondomar, cujas denúncias deram início ao processo " Apito Dourado " e que foi agredido por dois indivíduos encapuzados, em Janeiro de 2005, vai entregar a autobiografia de Carolina Salgado ao Ministério Público, por quem vai ser ouvido segunda-feira.

O árbitro Augusto Duarte, apontado como visita frequente da casa de Pinto da Costa, garante que as acusações de Carolina vão seguir para o tribunal. "Não é agradável o nosso nome ser falado. Quanto aos pagamentos que são referidos, vou ter de falar com o meu advogado para tomarmos as devidas medidas. Eu já sabia que ela ia dizer isso, mas não tenho problema, tenho a consciência tranquila", disse.

EXCERTOS DO LIVRO

"Dizia-me o Jorge Nuno que era preciso dar uma lição ao doutor Ricardo Bexiga (...) Com as suas ligações ao submundo, o Jorge sabia quem é que deveria contratar para bater ao vereador socialista (...) O serviço custava 10 mil euros (...) Quando lá cheguei o doutor Lourenço Pinto disse: 'Parabéns minha querida, mas ele ficou a falar'"

"Lourenço Pinto convocou-nos com carácter de urgência para um almoço (...) À mesa fomos informados com pormenor da situação. Na manhã do dia seguinte uma brigada da PJ de Lisboa iria entrar na nossa casa e na de Reinaldo Teles"

"Falei com o Fernando, o líder dos Super Dragões, e combinámos que estariam à porta do tribunal numa demonstração de força e intimidação (...) Se por acaso o Jorge Nuno ficasse detido, os Super Dragões invadiriam o tribunal".

Diário de Notícias
www.dn.pt