Passados seis meses desde a criação do passe Navegante na área metropolitana de Lisboa, qual é o balanço? De acordo com os dados que temos até ao fim de setembro, podemos dizer que é muito positivo e que os resultados ultrapassaram as nossas expectativas. Em setembro de 2019 aumentámos a venda de cartões, comparativamente ao mês homólogo do ano passado, em 33%. A venda de passes em setembro foi de cerca de 723 mil, mais cerca de 147 mil que no mesmo mês do ano passado, o que se traduz numa subida de 25,5%. As pessoas transportadas, isto é a utilização, foram 53 milhões e 760 mil no mês de setembro, mais 21% do que no ano anterior. São dados muito significativos, que nos permitem dizer que o objetivo principal, que era atrair gente para o transporte coletivo, foi cumprido..Mas esta maior afluência aos transportes públicos agudizou e tornou ainda mais evidentes problemas que já existiam antes da introdução do passe intermodal, nomeadamente o da sobrelotação. Antes de avançar com a medida não deveriam ter sido garantidas as condições para a aplicar? Tínhamos perfeita consciência, quando a decisão foi tomada, de que poderíamos vir a ter este problema da oferta, porque a procura iria subir, mas a questão que ponderámos foi que, se estivéssemos à espera das condições perfeitas, nunca mais avançaríamos. Reforçar a CP com novos comboios é um processo moroso, significa três, quatro anos à espera, depois do processo iniciado, no Metro de Lisboa, a mesma coisa, e nos barcos da Transtejo e Soflusa não serão três ou quatro anos, mas serão dois ou três. Por isso, era preciso avançar com uma medida que fosse disruptiva, dizemos mesmo revolucionária, que trouxesse mais gente ao transporte coletivo. Ainda assim, criámos formas de incentivo aos operadores, no mecanismo de compensação financeira pelos novos títulos, de forma que eles aumentassem a oferta ajustando-a à nova procura. Por outro lado, acaba também por funcionar como forma de pressão sobre as autoridades, sejam elas o governo ou os municípios, para que garantam que a oferta acompanhe a procura..Tornou-se claro que a maioria das pessoas, se forem criadas as condições, prefere o transporte público ao individual, sobretudo nas suas deslocações para o trabalho. Há aqui todo um paradigma a alterar. Que medidas estão a ser tomadas no sentido de colmatar as muitas falhas que existem? Não se toma uma medida, a procura aumenta e no dia a seguir tem-se a resposta imediata, há sempre um desfasamento, mesmo naqueles transportes em que é possível responder de forma mais célere. Nos sistemas pesados - comboio, metro e barco - é mais difícil responder, mas o que percebemos é que, apesar de tudo e com todas estas dificuldades, tanto os operadores públicos como os privados estão a tomar medidas..Por exemplo? A CP, apesar dos esforços, ainda não conseguiu dar a resposta necessária, mas o Metro de Lisboa aumentou a velocidade de circulação para o máximo, conseguiu reparar todas as carruagens e tem todas a funcionar, aumentou a frequência e reduziu os intervalos. A Fertagus passou a oferecer mais cerca de 20 mil lugares por dia. São medidas positivas, ainda que insuficientes. O governo já anunciou a aquisição de dez novos barcos para a Transtejo. A Soflusa está a tomar medidas para ter mais cem lugares por barco, o que talvez já esteja em vigor nos primeiros meses do próximo ano. Os rodoviários estão a aumentar, na medida das suas possibilidades e necessidades, a oferta. Tem-se falado muito na zona de Mafra, e é uma pressão imensa, mas os operadores têm no essencial, com desdobramento de carreiras, procurado responder. O mesmo aconteceu nos rodoviários da Margem Sul, particularmente nas viagens para Lisboa..Estamos ainda no campo das medidas paliativas. Para quando um sistema de transportes operacional que responda com qualidade às necessidades dos utentes e que permita falar de facto em mobilidade? A Área Metropolitana de Lisboa só é autoridade de transportes para os rodoviários, os outros estão sob a alçada do Estado e dependem das opções do governo. O grande problema aqui é que se chegou a uma degradação tal, devido ao desinvestimento de anos no setor dos transportes, que agora a recuperação é mais difícil e lenta. Mas estamos a trabalhar para mudar o tal paradigma de que falou..Como? Estamos na fase final do concurso internacional para a concessão de transporte rodoviário na AML, raro em Portugal porque envolve verbas que ultrapassam os mil milhões de euros, em sete anos, que prevê oferecer mais transporte rodoviário nos dias úteis, em horas de ponta e fora das horas de ponta, ao fim de semana, à noite, significando um acréscimo de oferta superior a 40%. A frota será melhor, porque será rejuvenescida, terá regras de qualidade ambiental que os operadores terão de cumprir, terá uma fiscalização muito intensa sobre o cumprimento dos horários, das carreiras, do conforto, da limpeza, da manutenção, etc., e que se não forem cumpridos implicarão penalizações para os operadores. Portanto, preveem-se melhorias significativas..Para quando? Um ano é o prazo previsto para estar a funcionar, se tudo correr como o esperado. Quando estiverem fechadas as peças do concurso, será criada uma empresa - a Transportes Metropolitanos de Lisboa (TML) - que irá gerir tudo o que são transportes rodoviários em Lisboa, exceto Carris, Transportes Coletivos do Barreiro e Cascais Próxima, que são empresas autónomas dos municípios de Lisboa, Barreiro e Cascais, mas com as quais trabalharemos em articulação (assim como com os outros transportes pesados - comboio, metro e barco). Os autocarros, independentemente da operadora que prestar o serviço, terão uma marca que é a Carris Metropolitana, com uma imagem própria, e o passe deixará de ser Lisboa Viva e passará a ser Navegante. O concurso decidirá quais os operadores que vão prestar serviço à TML e quais as carreiras, os horários e as frequências, definidos em função das necessidades diagnosticadas pelos municípios e em articulação com os restantes operadores e serviços de transportes. É um processo complexo, dinâmico, que poderá demorar mais do que desejaríamos, mas que será revolucionário.