No momento em que pode finalmente estrear-se na selecção nacional, Pepe parece estar a experimentar um déjà-vu, um daqueles momentos que nos assaltam e julgamos já ter vivido. Convocado pela primeira vez em finais de Agosto, um mês depois de ter obtido a naturalização, lesionou-se e falhou os primeiros compromissos. O mesmo já lhe tinha acontecido quando, ainda júnior, assinou pelo Marítimo e se apresentou no Funchal, no final do Verão de 2001, com um pé partido e engessado. Nessa altura teve de se valer daqueles que todos dizem ser os seus pontos fortes: o carácter, a determinação e a vontade de vencer. Que até aqui nunca o abandonaram..Kepler Laveran Lima Ferreira, assim chamado devido a uma obsessão do pai com a letra K - Pepe tem três irmãs, chamadas Karleane, Katiane e Kelyane -, nasceu em Maceió, no Nordeste brasileiro, a 26 de Fevereiro de 1983. Jogou no Napoli, um pequeno clube local, e dali, aos 14 anos, se mudou para o mais credenciado CRB, onde conheceu Ezequias, actual jogador do Leixões. "Jogámos nas categorias de base do CRB e do Corinthians, embora eu seja um ano mais velho do que ele", lembra Ezequias ao DN sport, recordando também que, nessa altura, como era natural, ambos almejavam chegar à selecção brasileira. "É o sonho de qualquer garoto", diz, para logo de seguida defender a opção do amigo por Portugal. "Ele falou-me dessa possibilidade quando eu me apresentei no FC Porto [ndr: Julho de 2006] e eu dei-lhe todo o meu apoio, porque sei que ele está muito grato a este país que tão bem o acolheu.".Do CRB, Pepe e Ezequias passaram para o Corinthians Alagoano, clube montado por João Feijó para funcionar como entreposto de jogadores a caminho da Europa - lá jogou também, por exemplo, Deco. E que jogador era Pepe? É o próprio quem responde. "Era franzino, só que tinha uma virtude, a velocidade", recordou em tempos Pepe à revista Dragões. Com 1,86m de altura mas só 72 quilos de peso, impunha-se pela velocidade e pelo jogo aéreo, qualidades ganhas graças a dois artifícios de treino. "Nos juvenis, trabalhei muito na areia, o que me deu potência no arranque. E também treinava no mar com pesos amarrados às pernas, o que foi muito importante para desenvolver a impulsão", disse ainda o jogador na mesma entrevista..É nessa altura que entram em cena Nelo Vingada e Carlos Pereira, na altura treinador e presidente do Marítimo, que foram ver um jogo do Corinthians Alagoano em busca de um defesa-central. "Decidimos trazer o Ezequias, que tinha 19 anos e uma margem de progressão muito grande", recorda Vingada, que hoje é seleccionador da Jordânia. Só que Feijó sabia que tinha ouro na equipa júnior e propôs outro negócio aos portugueses. "Mostrou-nos uns vídeos dos juniores, onde se destacava o Pepe, que já era muito alto. Como quisemos vê--lo com jogadores mais velhos, eles organizaram um treino de conjunto entre a equipa principal e as reservas, onde foi integrado o Pepe. Gostámos e, até por ser um negócio de um mais um, em que um podia ajudar a integração do outro, resolvemos apostar também nele." Aos 18 anos, Pepe conseguia o passaporte para a Europa. Só que, dias antes de viajar para se integrar na equipa do Marítimo, naquele que foi o seu último jogo pelo Corinthians, partiu um pé. ."Foi duro, à chegada. Em vez de nos darem um apartamento, instalaram-nos no lar dos juniores. Depois, batia uma grande saudade da família e das namoradas que tínhamos deixado no Brasil. E sobretudo porque ele não podia mostrar as qualidades que levaram à sua contratação", recorda Ezequias. "Ele nunca falou em voltar mas, durante aqueles três meses em que esteve parado, muitas vezes o vi desanimado, a precisar de apoio. Como amigo e colega, estive sempre do lado dele", prossegue o defesa do Leixões. "Foi o pior tempo da minha vida. Cheguei a um país onde não conhecia nada nem ninguém com um pé partido, sem poder desempenhar o meu trabalho", afirmou recentemente Pepe a O Jogo. "Houve pessoas que me ajudaram muito. Estou muito grato ao professor Vingada, que foi o pai que eu não tinha na Madeira. E tive um amigo muito importante, o Bragança, que me levava as canadianas e me chamava os táxis", completou..Foi nessa altura em que não pôde mostrar-se o futebolista que veio ao cimo a determinação do homem. "Ele é daqueles que quando se abrem uma janela fazem questão de a manter aberta. A ascensão dele tem a ver com qualidades físicas e técnicas mas também com o carácter", sublinha ao DN sport João Camacho, secretário técnico do Marítimo há mais de uma década. João Santos, à altura treinador do Marítimo B e hoje empresário no ramo do imobiliário e da medicina desportiva, concorda: "Ele dizia sempre: 'vim para vencer'. O carácter levou-o a superar as dificuldades." Na verdade, assim que pôde começar a treinar, Pepe mostrou ao que vinha. Treinava na equipa B com João Santos, ia uma ou duas vezes por semana trabalhar com a formação principal, com Nelo Vingada, mas dividia-se entre os jogos mais difíceis dos juniores e outros desafios do Marítimo B, que na altura disputava a II Divisão B. Dava 200 por cento em cada treino e isso até lhe motivou dissabores, como aquele que viveu na semana passada, quando foi agredido pelo colega Balboa. "Logo na primeira semana em que cá esteve teve um problema semelhante com o Miguel Costa, um internacional sub-19 que era oriundo do FC Porto", recorda João Santos, que a 13 de Janeiro de 2002 estreou Pepe, numa derrota em casa com o Sporting B (0-2, golos de Gisvi e Paulo Teixeira). À equipa principal, o novo recruta de Scolari chegou a 12 de Abril, em virtude de uma lesão de Van der Gaag: Nelo Vingada deu-lhe um lugar ao lado de Jorge Soares num Marítimo-Boavista que acabou empatado a zero e já não o tirou da equipa até final da época. .Estava lançado aquele que veio a ser o melhor negócio da história do Marítimo (ver caixa nesta página). Mas foram precisas mais algumas voltas do destino para o trazer até à selecção nacional. Em 2003, quando já era titular do clube madeirense, aquele que foi o seu maior ídolo, Ricardo Gomes, convocou-o para representar a selecção brasileira de sub-23, em dois jogos particulares, com o México e o Haiti. Mas Pepe não conseguiu o visto de entrada nos Estados Unidos, onde se disputariam as partidas, e nunca mais teve a hipótese de vestir a camisola canarinha. .No final desse ano, teve a hipótese de se transferir para o Lyon e recusou. Os responsáveis do Corinthians Alagoano, que receberiam parte da verba apurada com a transferência, ficaram preocupados. Mas Pepe, não. Naquele momento, já sabia que o desafio que pusera a ele próprio à chegada ao Funchal estava ganho. Com a certeza da transferência para o FC Porto, começou a pensar também na selecção portuguesa, à qual chega agora, já bicampeão nacional e com o estatuto de um jogador do Real Madrid. |