Brasileiras fizeram melhorias no acampamento e estão mais perto de realizar sonhos

Dupla tem tendas com novas comodidades, fogão com forno, gerador de energia e decorações de Natal, data que será celebrada em jantar com vizinhos e seguidores das redes sociais.
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Uma árvore de Natal, luzes e enfeites coloridos típicos da época estão na entrada do acampamento das brasileiras Andreia Machado da Costa e Márcia Álvaro, na Quinta dos Ingleses, em Carcavelos. Uma placa decorada com flores diz "Condomínio das moreninhas campistas".

O local está bem diferente desde a visita do DN em outubro, quando o frio do outono começava a surgir. "Vejam a evolução", diz a dupla sorridente, que começou por mostrar o gerador de energia, pequenas luzes de energia solar, uma tenda exclusiva para casa de banho e uma grande carpete cinza, que chamam de "asfalto do condomínio".

O que antes era a tenda de Márcia e a cozinha improvisada com um pequeno fogão de dois bicos, agora é somente o quarto da brasileira, que está impecavelmente organizado. "As minhas roupas não ficam mais com cheiro de comida", celebra a carioca, ao mostrar o chariot. Com mais um colchão, um dos lados da tenda serve como cama para visitas - como foi o caso de uma seguidora do TikTok, que passou uma noite no local recentemente. Na frente está instalado um espelho que a brasileira usa para arranjar os cabelos e fazer maquilhagem. "Gosto de estar sempre bonita nos vídeos para os nossos seguidores", afirma.

Andreia, que dormia numa tenda menor, onde também ficavam os seus pertences, agora possui outra de tamanho maior, igual à de Márcia. Elas chamam-na de "T2". De um lado estão as roupas, calçados, produtos de higiene e beleza. Do outro, um colchão novo que a brasileira recebeu de uma seguidora. No centro, fica a sala de estar, com poltrona, mesa de jogos, como um tabuleiro de xadrez e livros. Para economizar, procuram produtos em segunda mão que utilizam para decorar os espaços.

Porém, uma tenda maior, mais confortável e aconchegante não é a única conquista de Andreia: a imigrante começou a trabalhar como marceneira, sua profissão há décadas. "Eu estou muito feliz. Uma arquiteta portuguesa viu a reportagem e entrou em contacto comigo. Comecei a trabalhar lá recentemente e vou retomando o ofício, é muito bom", conta. O trabalho é conciliado com a limpeza de alojamentos locais que já fazia com Márcia. A meta fazia parte do plano da brasileira já ao mudar para Portugal, mas deparou-se com o machismo do mercado que, no geral, só contrata homens para o ofício.

Entre as duas tendas da dupla, fica a tenda cozinha, que Andreia e Márcia haviam dito ao DN, na altura, ter como objetivo próximo: um fogão com forno e capacidade para quatro panelas simultâneas, alimentos, panelas e demais utensílios organizados. A água também é aquecida para o banho nos dias em que estão de folga. Com o gerador, também conseguem iluminar os espaços com baterias recarregáveis e não precisam mais improvisar com a lanterna do telemóvel como faziam antes.


"É muito melhor cozinhar agora, dá para fazer mais coisas, tem mais espaço. Com o forno então, faço o meu famoso empadão de frango e tortas, tudo bem temperado", destaca a cozinheira. Do lado de fora, Andreia construiu uma bancada de madeira para dar suporte a um galão grande de água, que serve para limpar as loiças - antes eram lavadas em uma bacia no chão. "Bem mais fácil, sem ter que se abaixar", recorda Andreia. Uma mesa e grelha também ficam do lado de fora em dias ensolarados. Aos domingos, o churrasco no estilo brasileiro é garantido e partilhado com os vizinhos, que não param de chegar para morar no local como fuga ao alto preço dos arrendamentos em Lisboa e zonas próximas.


Um deles é Cláudio Silva, de 59 anos, que chegou ao acampamento em novembro. O carioca trabalha como cuidador de idosos e mora em Portugal há mais de um ano. Formado em engenharia elétrica, não conseguiu ainda trabalhar na área, situação bastante comum entre os imigrantes brasileiros em Portugal, que atuam em outras funções para sobreviver. Assim como Márcia e Andreia, gastava mais de 50% do ordenado por um beliche num quarto partilhado com mais três homens. "Cheguei a pagar 400 euros, um absurdo, não sobrava para nada. Comecei a ficar desesperado", relata.

O imigrante viu no TikTok a estratégia da dupla, encontrou o acampamento e decidiu fazer uma visita. Conheceu alguns dos vizinhos e foi convidado naquela mesma noite a dormir na tenda que era de um casal que estava de saída. "Quando eu deitei a cabeça ali, sem brincadeira, tive a melhor noite de sono e saí determinado a vir", conta. No dia seguinte, as brasileiras receberam-no, deram-lhe dicas sobre qual modelo de tenda a comprar e técnicas para aquecimento. "Me ensinaram tudo", pontua.

Apesar de sentir um pouco de frio, o brasileiro logo adaptou-se e considera o espaço muito melhor do que um beliche em uma casa com várias pessoas, apenas uma casa de banho e cozinha para todos. A falta de privacidade também o incomodava. "Isso afeta demais a saúde mental da gente, longe da família, de tudo, pagando uma fortuna ainda", desabafa.

Há poucas semanas no acampamento, Cláudio deu um novo passo. O imigrante ainda não havia contado aos patrões onde vivia. Um dia, abriu o jogo e teve como resposta a solidariedade e carinho. "Eles adiantaram o soldo [ordenado ] para comprar uma caravana e vão descontando um valor por mês", conta em lágrimas. Andreia e Márcia riem e dizem que o novo vizinho é "muito emotivo".

No dia em que a caravana azul chegou ao acampamento, o brasileiro caiu no choro, assim como os vizinhos que comemoraram juntos a conquista. "Ele conseguiu a caravana antes de nós ainda", brincam. A pequena tenda que usava foi doada para um recém-chegado, sistema bastante utilizado no local, conforme cada pessoa se muda ou compra uma nova acomodação, além dos empréstimos de equipamentos e utensílios.
O carioca afirma que a mudança para o local foi a melhor decisão desde que chegou ao país. "Já consigo mandar mais dinheiro para a minha filha no Brasil, poupar e viver melhor. Antes de vir para cá para o acampamento já estava quase desistindo, porque é muito pesado o preço do aluguel aqui, não sobra para nada", afirma.


Estratégia seguida por muitos
Segundo a dupla, já moram mais de 30 pessoas no acampamento, de diversas nacionalidades e todas com emprego. Um brasileiro trabalha como empregado de mesa e vai ao acampamento apenas para dormir, já que toma banho e faz as refeições no trabalho.

Um jovem, também do Brasil, chegou recentemente e foi logo morar para o local, e poupar até conseguir o suficiente para as diversas cauções de um quarto que normalmente são exigidas no mercado de arrendamento português.

Outra jovem, também do Brasil, já chegou com uma grande tenda com cobertura extra para proteger-se da chuva e do frio invernal. Mais uma brasileira, que antes estava numa tenda menor, agora também evoluiu no tamanho e conforto da moradia.

A comunidade está a crescer e a popularidade do local também. "Muita gente vem com curiosidade para ver, até dormir aqui. Também recebemos doações, que distribuímos entre todos, como cobertores, roupas, calçados, alimentos e outras coisas que podem ser úteis nesta vida de campistas", explica Andreia. Cláudio ganhou um par de ténis coloridos novos, que usava quando conversou com o DN.

Apesar de recusarem o título de líderes, a dupla brasileira é elogiada por todos e cuidam da organização, zelo e segurança do acampamento. Durante uma forte tempestade recente, a preocupação foi para com os moradores das tendas mais frágeis. Também há algumas semanas, tiveram um problema com um morador que cometia furtos e não cuidava da limpeza. O grupo expulsou-o do local e recuperou os pertences. "Não aceitamos bagunça nem sujeira aqui, não queremos incomodar ninguém. Aqui é só gente trabalhadora e esforçada que quer vencer na vida", destaca Andreia. Na tenda estava até uma bicicleta, que não pertencia a ninguém do local. Elas foram até à esquadra para informar as autoridades e encontrar a quem pertence, para ser devolvida.

A rotina no acampamento continua a ser mostrada nas redes sociais, além da exposição na imprensa. A dupla segue sendo muito requisitada sobre informações de como fazer para morar em Portugal, mas garantem que não incentivam ninguém. "Se a pessoa quiser pode vir, mas não convidamos, apenas mostramos a nossa realidade, sempre sendo verdadeiras, nunca encorajamos loucuras", pontuam.
No TikTok são postados vídeos e fazem lives diários, a pedido dos seguidores. "Quando não fazemos, já nos cobram", brinca Márcia, com quase 15 mil seguidores.

Os posts também recebem muitos comentários negativos e xenófobos, mas a maioria são ignorados. Quando respondem, reafirmam o que já disseram diversas vezes e em entrevistas: diante do alto preço das rendas, preferem morar no acampamento do que gastar mais da metade do ordenado mensal, não conseguir poupar e por vezes não ter privacidade.
A minoria que critica e escreve insultos é barulhenta, mas é uma minoria, diante do grande número de pessoas que ajudam as campistas. Foi formada uma espécie de "fã-clube" com pessoas de todo o país, que fazem contactos diários, visitam e fazem doações. O grupo criou uma rifa de mil números a 10 euros cada que está à venda.

"O nosso objetivo é comprar duas caravanas com o recurso, para ficar aqui mesmo no acampamento", explicam. Continuar a poupar dinheiro e ajudar as pessoas também está nos planos. Andreia ressalta preocupação com o aumento de pessoas sem-abrigo em Lisboa, tema da sequência de reportagens especiais do DN nesta última semana. "Estamos pensando em como fazer. Vamos talvez visitar esses locais, conversar com as pessoas e ver quem podemos ajudar, alguns é preciso um trabalho de saúde mental mesmo que compete às autoridades, mas outros precisam de uma mão, só um empurrão, nós queremos ajudar", explica.

O plano está sendo pensado, mas a ideia inicial é levar algumas pessoas sem-abrigo ao acampamento para uma temporada de três meses "até se organizarem". As brasileiras estão convictas que há quem queira ser ajudado e consiga ter uma vida melhor com "um empurrão". Moradores do acampamento que conversaram com o DN atestam que todos se ajudam uns aos outros e inspiram-se na liderança das anfitriãs que, em poucos meses, conseguiram alcançar diversos objetivos. Andreia e Márcia fazem uma avaliação positiva dos últimos meses, apesar da preocupação com os sem-abrigo por todo o país, problema que esperam que seja amenizado no próximo ano.

Para celebrar o Natal, está a ser organizada uma consoada com muita comida em uma mesa de madeira grande que será instalada entre as tendas. Não só os vizinhos vão participar da festa. Seguidores do TikTok que iam passar a data sozinhos já confirmaram presença. "Cada um vai trazer uma coisinha para a ceia, o importante é que tenhamos a companhia das pessoas, paz, saúde, que é o que desejamos para 2024", finaliza Andreia.

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