Uma tribo de berberes - Líbia - deu o nome ao país que nasceu na periferia de três mundos - árabe, africano e mediterrâneo - e dos quais recebeu, ao longo dos séculos, influências da mais diversa ordem. Hoje, e embora mais de 90% da população seja constituída por árabes berberes, os líbios mantêm presente e reflectem as influências do passado - quer na língua [muitos falam inglês, italiano e francês] quer inclusive na gastronomia - ao ponto de ser frequente ouvir os turistas ocidentais afirmar que se sentiram "perfeitamente em casa" no país das tâmaras e rico em recursos petrolíferos. .Com um território maioritariamente desértico, a Líbia tem, porém, uma longa costa mediterrânica - cerca de 1800 km - que a tornou vulnerável à "invasão" de outros povos. Aliás, é na zona costeira que se encontram as terras mais férteis e se concentrava - e concentra - a maior parte da população que, então, se dedicava à agricultura e criação de gado. .Na Antiguidade, passaram por ali, ou fixaram-se, fenícios, cartagineses, gregos e romanos. Estes últimos acabaram por unificar as três regiões que constituem hoje a Líbia - Tripolitana, Fezânia (deserto do Sul) e Cirenaica. Autóctones também rumaram a outras paragens. Por exemplo, conta a tradição que Simão, o cireneu que em Jerusalém ajudou Cristo a carregar a cruz em direcção ao calvário, era oriundo da Cirenaica. O século VII assiste à chegada do islão, com a sua cultura própria e a sua organização política, que os beduínos e os berberes aceitam com certa facilidade, tal como acontecerá séculos depois quando se verifica o avanço do império otomano. Em contrapartida, o sentimento nacionalista dos beduínos resiste às tentativas colonialistas europeias: só em 1911 a Itália consegue ocupar a Tripolitana, ponto de partida para o domínio de todo o país, anexado por Mussolini em 1932, o que leva a II Guerra Mundial ao deserto líbio, sob cujas areias o ouro negro esperava para brotar. Adquirida a independência no fim da guerra, a Líbia vive uma experiência monárquica com o apoio de assessores militares dos EUA e so Reino Unido que ali haviam instalado bases..A exploração petrolífera na década de 60 não só assiste à chegada de empresas estrangeiras como ao enriquecimento de parte da população que altera os seus hábitos. Data dessa época, por exemplo, a chegada ao exército, e a sua formação numa escola de Londres, de Muammar Khadafi, um nacionalista, filho de beduínos nómadas. Em 1966, funda a União de Oficiais Livres e três anos depois lidera um golpe que derruba a monarquia. E, com o tempo, torna-se no homem que dirige os destinos da Líbia. Para muitos começa aqui a Líbia moderna, o país que, orgulhoso da religião que professa, escolheu ter uma bandeira verde, apenas verde - a cor do profeta -, sem outro qualquer ícone. E a utilização dos novos recursos acaba por alterar a vida do seu povo: as tendas são substituídas por apartamentos, o ensino torna-se obrigatório, indústria e os serviços suplantam a agricultura; a mulher líbia passa a poder trabalhar fora de casa, torna-se sofisticada e considera-se a mais livre do mundo árabe. Mas a poligamia continua legal.