Está tudo a acontecer ao aparato da estreia de Barbie, excentricidade de um estúdio de Hollywood, a Warner, que de uma ideia duvidosa de adaptar a vida de uma boneca ao grande ecrã, está a devolver o prazer das massas irem ao cinema. O mérito é dos cineastas, neste caso Greta Gerwig, que teve liberdade para dirigir um filme com um guião escrito a meias com o companheiro, Noah Baumbach (cineasta de A Lula e a Baleia e Marriage Story), com um discurso político. Mas o que "acontece" sobretudo é continuar a ser cinema e não meramente um triunfo de marketing..Mas essa contaminação do rosa choque é fruto de muitos fatores, todos eles, obviamente, alavancados pelo inteligente marketing saído dos gabinetes da Warner, mas sobretudo pela própria "boa vontade" que este objeto criou antes de ser visto, sobretudo a partir da divulgação das primeiras imagens. Um tal "goodwill" nunca dantes visto em Hollywood. Aliás, como objeto no total, Barbie é um caso pioneiro: não se trata de um blockbuster identificável: não há super-heróis, a vertente de musical não é assumida por completo e os seus pontos de conexão com géneros são falíveis - a sua mistura de feminismo de entretenimento com a escala de grande produção baralha as perceções. O que provoca a adesão imediata será o lado de "novidade" completa, a estética delirante através das berrantes componentes cromáticas, a identificação afetiva com o fenómeno pop do mundo Barbie e a sensação de automático zeitgeist que ninguém quer ficar de fora..Instantaneamente, a net fez deste lançamento um caso de moda e de aceitação de "acontecimento". O verão de 2023 tem uma bandeira de silly season ou de fenómeno de cultura pop. Através das redes sociais, memes, partilha de vídeos e brincadeiras em torno do livro de estilo do filme, o mundo está a respirar Barbie. Com uma vantagem: as reações ao filme, por parte da sua claque (o fandom não era só a população feminina...) e também da crítica, surpresa, são francamente positivas. Sobra aquela ideia de um invisível consenso, que, esse sim, é depois bem cozinhado e empolado pelo marketing digital. Inconscientemente, é nas redes sociais que as pessoas se tornam agentes de promoção de um filme do sistema americano mais industrial, mesmo que ele seja preparado por dois nomes bem respeitados no cinema autoral, Greta Gerwig e Baumbach....Em Portugal, esperam-se resultados este fim-de-semana estratosféricos nas bilheteiras. Sente-se que haverá a tal transversalidade de públicos, sobretudo a avaliar pelas pré-vendas de bilhetes (47 mil entradas vendidas, número que o coloca como recordista do ano, chutando para canto Fast X), fator que atesta os níveis de ansiedade de um filme. Há muito que um título não era tão esperado... Há analistas de bilheteiras na América a prever uma entrada fortíssima do filme: 140 milhões de dólares é um dos números esperados, jackpot grande para o estúdio que investiu 145 milhões na sua produção... Mas esta continua celebração do rosa do filme pode até trazer surpresas mais lucrativas - ainda esta semana havia sinais da barbiemania num jogo de futebol do Benfica. O Barbie world está em todo o lado..Se há uns meses muitos torciam o nariz pelo facto da Universal ter no mesmo dia a aposta Oppenheimer, de Chris Nolan, agora com o fenómeno das redes Barbenheimer, todos já perceberam que este duelo está a ser benéfico. Muitos cinemas estão a adotar a proposta de compra de sessão dupla para os espectadores poderem ver logo os filmes. Por muito que surja a desnecessária linha de comparação entre os dois (e não podiam ser objetos mais diferentes entre si...), sente-se que há um interesse de as pessoas não ficarem de fora desta dupla rajada. Por cá, alguns exibidores aliaram-se ao Barbenheimer e vendem bilhetes duplos com descontos..Este duelo de datas foi mesmo aproveitado pelas equipas dos filmes "rivais", com Margot Robbie e Greta Gerwig a mostrarem o seu bilhete para a estreia de Oppie e o protagonista do filme, Cillian Murphy, a promover Barbie. No meio de tudo isto, é precisamente Oppenheimer quem beneficia deste hype. Fala-se em sucesso antecipado também, coisa que não era líquida para um filme eminentemente passado em salas de inquérito e com uma duração de três horas... Às vezes, para além do marketing, há esses acasos felizes. Acasos da internet e de uma vontade de fazer humor com tudo - nesse capítulo, os cartazes inventados pelos fãs a sugerir um filme que cruze o mundo de Oppenheimer e da boneca loira, são de uma criatividade divertida..Curiosamente, em Portugal os lucros de ambos títulos vão ficar na mesma casa, a distribuidora Cinemundo que fez do conflito de interesses uma espécie de piada interna - são responsáveis pelos filmes da Warner e da Universal... Também por cá, Nuno Markl, aproveitou o seu aniversário para convidar os amigos para uma sessão dupla Barbenheimer. Sessão essa que gerou posts e um corrupio mediático assinalável. Os deuses do digital juntaram mesmo a mulher emancipada e o cientista atormentado...