Enquanto Portugal decide como salvar a TAP (mil milhões de euros e um número desconhecido de despedimentos), a Lufthansa anunciou que se prepara para fazer sair 32 mil trabalhadores como contrapartida da ajuda pública de nove mil milhões de euros. O setor automóvel presente em Portugal já avançou com a previsão de 12 mil despedimentos. A Zara anunciou, entretanto, que vai encerrar mil lojas pelo mundo..Ora, vamos fazer de conta que a bilionária crise da indústria aérea não significa uma brutal crise do turismo. Vamos também fazer de conta que as cidades vão voltar à normalidade que conhecíamos e que o próprio Estado não disse já que vai colocar 25% dos funcionários públicos em teletrabalho. Esqueçamos também que esta crise levará a dívida pública para 135% do produto interno bruto. Vem aí austeridade? Compreende-se que António Costa não goste de fazer anúncios pessimistas, porque isso mina ainda mais a confiança de toda a gente. Mas daí até dizer-se que não haverá austeridade, é tão só um jogo técnico de palavras..A nova crise não resulta apenas da atual covid-19 ou das consequências de uma segunda vaga. Está a acontecer algo de mais profundo..Comecemos pelos factos mais simples: as pessoas estavam exaustas da alienação casa-trabalho-casa. Fartas do controlo por cartão digital ou chefias exasperantes, sem estímulos e quase sempre com remunerações no limite da sobrevivência. Quem puder, vai querer manter algum teletrabalho - e provavelmente as empresas também, para reduzirem custos..Os escritórios vão esvaziar-se aos poucos. O que fazer a tantos milhões de metros quadrados para serviços, de repente, postos em causa? Quem fica com os prejuízos? A banca? É verdade que a crise das cidades pode ajudar a retomar o mercado imobiliário das periferias e do interior, mas é uma gota de água face à destruição, a breve prazo, de parte da restauração, dos negócios da cultura e bares à noite, do comércio de proximidade. Isto significa desemprego - como se reflete no fecho das tais mil lojas da Zara pelo mundo. Muitas outras marcas seguirão o exemplo. O desemprego no retalho é também agravado pela diminuição de turistas. No turismo enquanto sector então, o cenário é catastrófico. Para a maioria não há qualquer hipótese de regresso, por muitos meses..Isto deixa igualmente à vista uma nova crise na construção civil (não só por haver menos necessidade de escritórios) mas porque há menos reabilitação e menor procura de segundas casas. Vão, naturalmente, vender-se menos carros se as pessoas optarem por ter mais teletrabalho, menos pneus vendidos, menos reparações, etc....Outro ponto crucial: as exportações. Vamos vender os mesmos têxteis, calçado, metalomecânica e automóveis, num mundo que está a fechar-se cada vez mais? Onde as pessoas saem menos, consomem menos, querem menos coisas?.Desemprego e produtividade. Estas são as palavras pós-covid. Até aqui a diminuição de salários era feita num jogo de poder: ou os trabalhadores ficavam com uma fatia maior, ou as empresas/acionistas lucravam mais. Mas as coisas estão a mudar de formato. Vai haver menos produção e menos consumo..Daí esta perplexidade quando se ouvem as estimativas sobre quedas do PIB: estamos a deixar as grandes organizações internacionais e Governos fazerem contas sem ouvirem os sociólogos e psicólogos? Até Wall Street parece estar a aprender que a velha lógica "despedimentos = inovação" agora passou a ser "despedimentos = destruição de empresas". Ninguém está a ganhar mercado porque há a falência súbita de setores inteiros..Sei que muita gente considera que isto vai ficar tudo igual daqui a uns meses. Oxalá tenham razão. Mas eu não creio que tenha sido a pandemia a mudar as pessoas em três meses. O coronavírus é a agulha que rebentou uma bolha de mudança que estava já prestes a explodir. Esta mudança durará cinco anos? Quantos empregos vai custar? Quantas pessoas não conseguirão migrar de uma loja física para a economia digital?.Ainda ontem Mário Centeno disse na entrevista à RTP1 que íamos passar por esta crise sem fazer "reformas no mercado de trabalho", "reformas administração pública" e que não vislumbrava novas ruturas num "sistema financeiro desequilibrado como em 2008". Na visão do Governo, nada de estrutural vai afinal mudar? Acham mesmo que o mercado de trabalho não vai precisar de outras categorias e organização de horas? Que na administração pública vai ficar tudo igual? Que os bancos não vão tremer com tantas falências?.Olhe-se para as nossas cidades. Braços caídos. Cansaço. Desfoque. Falta de estímulo para retomar uma vida onde o dinheiro será sempre pouco. Pior: com este astronómico gasto público, não haverá descida de impostos por muitos anos. Vamos pagar isto por décadas. E só com a retoma da construção civil e turismo conseguiremos absorver trabalhadores pouco qualificados e mudar os números do desemprego em Portugal. Somos o país da mão-de obra barata..Além disso, uma enorme dúvida: os muitos milhões que vêm da União Europeia não chegarão às pequenas empresas - destinam-se ao habitual circuito da consultoria e empresas que já dele beneficiavam antes e vão arrecadá-lo a seguir - seja na indústria, nos serviços, na ciência ou na agricultura..É a lei de Darwin na economia? Talvez. Mas a mortalidade geracional de empresas será enorme porque os mercados estão cada vez mais polarizados entre os gigantes e os micro-negócios. A hipótese de vivermos globalmente uma Grande Depressão é, por tudo isto, enorme e não resultou diretamente da covid-19. É a tempestade perfeita, onde tudo se conjugou. Vivermos uma nova austeridade seria sinal de que o mundo se tinha mantido como era. Infelizmente vamos ter de inventar novas palavras para coisas que nunca experimentamos antes.