Audra McDonald: "Ouvir fado fez-me lembrar um grande desempenho no teatro musical"

A atriz da Broadway com mais Tony Awards, vencedora de seis "óscares" do teatro musical, veio de novo a Portugal, desta vez a convite da Music Theater Lisbon. Audra McDonald falou da carreira perante uma audiência cheia de jovens talentosos, aos quais deu algumas dicas preciosas, e no final conversou uns minutos com o DN. Já sabia que gosta muito do nosso país, descobri agora que o fado a encanta.
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Foi exibindo simpatia através de um sorriso permanente que a vencedora de seis Tony Awards esteve, no final da tarde de dia 12 de julho, uma hora a conversar em Lisboa, no auditório da Biblioteca Municipal Orlando Ribeiro, com Martim Galamba da Music Theater Lisbon (MTL) e com um público de jovens candidatos a uma carreira no teatro musical. Neste "Heart to heart" com Audra McDonald, a atriz de 53 anos que faz parte do American Theather Hall of Fame contou como uma menina que começou a atuar num teatrozinho de Fresno com nove anos concretizou o sonho de pisar os palcos da Broadway, em papéis tão míticos como o de Bess em Porgy and Bess, que lhe valeu em 2012 um dos seus seis atuais Tony Awards, estando agora nomeada pela décima vez. Falou também da amizade com Stephen Sondheim, o génio que reinventou a Broadway, e Zoe Caldwell, a atriz que inspirou o nome da mais velha das suas duas filhas. Audra McDonald esteve em Portugal para a Musical Theater Summit organizada pela MTL, que teve outro momento alto a 16, com o espectáculo Broadway no Parque, que se realizou nos Jardins do Museu Nacional do Teatro e da Dança.

Cresceu na Califórnia e é a mais galardoada atriz do teatro musical com seis Tony Awards, mas nós, na Europa, associamos o teatro musical à Broadway e portanto a algo muito de Nova Iorque. Até que ponto, pela sua própria de vida, concorda que o teatro musical é na verdade algo muito americano em sentido lato, não só nova-iorquino?
O teatro musical é uma arte originalmente americana. É uma forma de arte que floresceu na América, está por todo o país. Eu fazia musicais em Fresno, na Califórnia, quando tinha nove anos. E há uns dias até regressei a Fresno para atuar na celebração do 50.º aniversário do teatro musical onde comecei e que ainda está ativo.

É então possível ver bom teatro musical noutras cidades dos Estados Unidos que não apenas Nova Iorque?
Sim, sem dúvida.

Mas continua a ser sempre um sonho para as famílias americanas irem a Nova Iorque e verem uma peça na mítica Broadway?
Sim, sim. A Broadway é considerada o pináculo dos musicais, da mesma forma que Hollywood é o lugar onde os filmes e as séries de televisão são feitos. Mas o teatro musical é feito em todo o país e com grande qualidade, diria em todo o mundo mesmo.

Em relação aos temas dos musicais, por vezes é a história americana a protagonista, por vezes são sobre questões sociais que são abordadas e outras até é a história de grandes figuras do espectáculo. Que tipo de musical pensa que seja mais autêntico? Ou são todos autênticos, independentemente do tema?
Penso que são todos autênticos, baseados naquilo que querem fazer. Há um musical que está agora em cena na Broadway, chamado Shucked, que no seu cerne é uma história de amor, mas também tem temas políticos e é baseado no facto de haver uma cidade multicultural que ama o milho. Depois há musicais como Some Like it Hot que é sobre a descoberta de quem somos verdadeiramente por dentro e a forma de contar essa história é baseada no velho filme musical. Há também musicais como Parade que falam de um momento histórico muito específico, que aconteceu na realidade, e que é apresentado como uma história de aviso sobre o cuidado a ter com a intolerância, o racismo e o ódio. Diz que estamos a andar para trás em vez de evoluir e nos afastarmos dos preconceitos como devíamos. Portanto, a autenticidade está no que cada musical quer transmitir, mas no fim todos eles estão ligados de alguma forma à nossa humanidade.

Revi recentemente um Carpool Karaoke de James Corden com Lin-Manuel Miranda, e ao qual a Audra McDonald se junta entrando no carro para todos começarem a cantar. Porque é que o musical Hamilton de Lin-Manuel Miranda se tornou tão especial, tão bem-sucedido? O sucesso global deste musical inspirado em Alexander Hamilton, o primeiro secretário do Tesouro, foi uma surpresa para si?
Não, não foi. Eu sabia que Hamilton iria ser um sucesso, quando vi a noite de estreia no Public Theater. Soube logo que Hamilton seria um sucesso porque, mais uma vez, era autêntico em termos da forma como Lin-Manuel nos conta a história. A ideia de usar todas aquelas pessoas de cor para contar a história dos Pais Fundadores foi incrivelmente original, assim como usar o rap para o fazer. Stephen Sondheim até disse um dia que nunca poderia ele ter contado aquela história porque o rap é uma forma de meter muitas palavras num período muito curto de tempo para fazer a história avançar. Portanto, sabíamos que Lin-Manuel estava a fazer algo único e autêntico.

Então, não é tanto sobre Alexander Hamilton, um dos pais fundadores, mas sim sobre a sociedade americana, mesmo atualmente, com todos os desafios da sociedade multicultural?
Sim. Recebemos a lição de História quando o vemos, mas existem tantas coisas diferentes naquele espetáculo... mais uma vez, acho que mexeu com as pessoas porque foi um olhar novo sobre tudo aquilo, especialmente através das pessoas de cor no palco.

Acha que o facto de as origens de Lin-Manuel Miranda serem porto-riquenhas, pois nasceu em Nova Iorque mas passava férias com os avós na ilha de língua espanhola, o ajudou a compreender a ideia de uns Estados Unidos multiculturais?
Claro que sim, ao usar o que era autêntico nele, a sua voz singular, e nós já tínhamos visto o que ele consegue fazer com essa sua voz singular no musical In The Heights. Portanto, quando Hamilton apareceu sabíamos que ele era alguém que confiava em quem era e no que era e que a sua visão do mundo era suficientemente interessante para cativar as audiências.

Já percebi pelas suas respostas em várias entrevistas que lhe é difícil escolher o seu musical favorito como atriz, mas do ponto de vista da espectadora, qual é o seu musical preferido? Entre aqueles em que não participou como atriz?
É uma boa pergunta, mas são muitos... Acho que talvez seja o Dreamgirls, que é um musical brilhante feito nos anos 1980 por Michael Peters sobre um grupo de cantoras negras. É basicamente uma ópera, mas com música R&B, que conta a história de uma rapariga desse grupo que se torna famosa. No fundo é a história de Diana Ross e das Supremes. É um musical fantástico até na maneira como a história é contada, nunca vi nada igual.

Este mês assisti a um concerto de Lionel Richie aqui perto de Lisboa, em Cascais, e foi uma enchente. Porque é que a cultura pop americana é tão popular em todo o mundo, principalmente a cultura com raízes afro-americana? Será porque há uma audiência gigantesca nos próprios Estados Unidos e isso torna possível selecionar os melhores e projetá-los? Será que têm os melhores atores e artistas porque existe um mercado imenso ou há algo mais profundo, um legado histórico e cultural?
Sim há. Penso que quando pensamos em Blues, R&B ou Jazz vemos uma forma de arte singular que veio da população negra, do que os escravos cantavam nos campos com ritmos que ainda recordavam África. São músicas que têm uma origem muito autêntica e isso é fascinante, acho eu.

Falou no fado e contou que já o ouviu várias vezes. É um tipo de música que gosta verdadeiramente de ouvir?
A primeira vez que vim a Portugal, há cerca de oito ou nove anos, fui ouvir cantores de fado e fiquei muito comovida com o drama da história cantada, a beleza das melodias, a intensidade, a paixão e, mais uma vez, a autenticidade. Fui a um espaço pequeno onde estava uma rapariga a cantar que não devia ter mais de 20 anos, e quando ela abriu a boca para cantar o som que saiu era o de uma mulher de 70 anos, devido à dor e à emoção que ela estava a sentir. Fez-me lembrar um grande desempenho no teatro musical.

leonidio.ferreira@dn.pt

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