"Até na Argentina, quando lá vou, já dizem que sou Malamud o português"

Brunch com Andrés Malamud, politólogo argentino.
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Com este almoço a acontecer na semana em que a Argentina foi campeã do Mundo de Futebol, não há outra maneira de cumprimentar Andrés Malamud que não seja dar-lhe os parabéns pelo sucesso de Messi e companhia e perguntar-lhe como sentiu a vitória. Afinal, aos 55 anos, assistiu já a cinco finais com o país e a três triunfos - este no Qatar e os de 1978 na Argentina e de 1986 no México. "Foi espetacular. Sempre achei que precisava de vitórias desportivas para consolidar a identidade nacional dos meus filhos, mas descobri que não era preciso, porque tanto o Pedro como a Carolina celebraram como se tivessem vivido na Argentina toda a vida. Ele tem 20 anos e ela 17 e conseguem ser 100% portugueses e 110% argentinos", responde o investigador do Instituto de Ciências Sociais (ICS) que há duas décadas vive em Portugal e que é um académico tão reputado que muitos, nas universidades e nos media, o consideram uma espécie de guru sobre a América Latina, expressão que faz rir Andrés.

Tratamo-nos por tu, pois já nos conhecemos há alguns anos e esta conversa foi combinada à saída de uma conferência de um diplomata dominicano sobre o impacto na América Latina da Guerra na Ucrânia organizada pela representação em Lisboa da Organização dos Estados Ibero-Americanos. O DN, admito, é um dos jornais que com frequência pede ao politólogo que comente o que se passa seja na Venezuela, seja em Cuba, seja na sua Argentina, e isto desde pelo menos 2004, quando o entrevistámos pela primeira vez. "Só não me perguntam sobre o Belize, porque lá não se passa nada", brinca Andrés, admitindo que faz questão de estar bem informado sobre a América Latina em geral e sobretudo sobre a Argentina, consumindo diariamente os jornais de Buenos Aires. O reconhecimento é global, basta pensar que também é presença habitual como colunista no El País.

O jogo com a França, que terminou com um 3-3 no prolongamento e acabou decidido a penáltis, foi visto em família, conta Andrés, que é casado com Helena Carreiras, professora no ISCTE e atual ministra da Defesa, a primeira mulher a ocupar o cargo em Portugal, o que deve ser curioso visto da Argentina, que teve há meio século, em Isabel Perón, a primeira mulher presidente na América Latina e já depois disso Cristina Kirchner (mas esta conversa não é sobre atualidade política).

Estamos sentados à mesa do Borges, restaurante bem perto do ICS e também da Cidade Universitária. Será rebuscado pensar que a escolha, sempre do entrevistado, é uma alusão de Andrés ao grande escritor Jorge Luis Borges, argentino com antepassados portugueses, mas fica no ar a dúvida. O que não fica no ar são os pedidos, escolhidos de entre os pratos do dia: creme de tomate com ovo para ambos, depois robalo na grelha para o Andrés, frango com caril para mim. Noutro contexto, seria apropriado dividirmos uma garrafa de Malbec, vinho que se tornou sinónimo de Argentina, mas hoje ficamos pela Coca-Cola.

Volto à carga com a questão futebolística, perguntando se Andrés já era 100% por Messi ou só no domingo se converteu. "Não, sempre fui, o que não quer dizer ser anti-Maradona. Há pessoas que querem contrastar os dois, mas na verdade são uma continuidade, têm diferentes perfis mas têm o mesmo espírito. Desta vez celebrámos com grande unidade, mas há sempre quem queira fazer diferença. Os peronistas alegam que Maradona é mais peronista e os não-peronistas dizem que Messi é deles. Na realidade, Maradona adorava Messi e Messi adora Maradona. Aliás, viu-se quando estavam a marcar o último penálti: Messi olha para o céu e pede ajuda a Maradona."

Andrés comenta um artigo do The Washington Post sobre a ausência de negros na seleção argentina como se de racismo se tratasse, um sinal de desconhecimento, o erro de olhar para os países latino-americanos como se fossem todos iguais, ignorando que não houve economia de plantação no país e que os poucos descendentes de africanos morreram nas guerras da independência e de consolidação estatal. Os 47 milhões de argentinos são sobretudo descendentes de espanhóis e de italianos, como se percebe pelos apelidos dos campeões do Mundo, também de escoceses e de outros britânicos (há um MacAllister na seleção) e de judeus da Europa de Leste e do antigo Império Russo. "Os polacos, depois dos espanhóis e dos italianos, são o terceiro maior grupo, hoje uns 400 mil católicos e 100 mil judeus", sublinha.

Da Baja Califórnia à Patagónia vai uma imensa distância, refiro, mas mesmo assim México e Argentina, e uma vintena de outros países pelo meio, por partilharem a língua do antigo colonizador europeu, são considerados parte de uma mesma região, até de uma mesma civilização, segundo o critério do americano Samuel Huntington no seu célebre Choque de Civilizações. Questiono Andrés se isto faz sentido. "Huntington hesitava, não sabia se colocava a América Latina como parte da civilização ocidental ou não. Há pessoas que consideram que a América Latina é o far west, o ocidente longínquo. É um jogo de palavras, porque o far west é selvagem e, ao mesmo tempo, é o ocidente mais longe. A América Latina tem muitas coisas em comum, mas mais devido à geografia do que à cultura. E quando faço esta análise sou mais comparatista do que americanista. Por exemplo, geograficamente, o México e a Argentina estão muito distantes, então vê-se que as influências no México são norte-americanas, dos vizinhos Estados Unidos, enquanto a influência na Argentina é mais europeia culturalmente e, nos últimos anos, mais chinesa economicamente. A China já é o principal parceiro comercial do Brasil, Peru, Argentina, Chile e Uruguai, e, por enquanto, isto ainda não tem muita influência cultural, mas vai ter no futuro. Por isso é que os argentinos sempre se consideraram mais europeus. Por exemplo, o protagonismo da publicidade na vida diária dos mexicanos é igual ao dos Estados Unidos, tudo muito grande, mas na Argentina é tudo mais boutique, mais europeu", explica o politólogo.

Prosseguindo o raciocínio, Andrés acrescenta: "A América Latina é muito heterogénea etnicamente. Mas a Argentina é um país que tem poucos indígenas e ainda menos africanos, um país essencialmente de brancos. Há uma corrente da literatura académica que diz que isto é um mito, mas não é, a Argentina construiu-se branca devido à imigração europeia. Nas margens há alguns nativos, uma componente étnica africana muito pequena, mas na prática os argentinos têm uma identidade que não é hifenizada, como os americanos, que têm afro-americanos ou ítalo-americanos. Messi é um bom exemplo. É 100% argentino, com ascendência italiana, mas não é um ítalo-argentino. Em termos de ascendência, todos somos alguma coisa, os judeus são chamados de russos e os árabes de turcos, por causa dos documentos da época, mas isso são alcunhas, não uma hifenização."

Conto a Andrés que visitei há uns anos Buenos Aires e que bastou um passeio pela capital argentina para ser evidente que houve ali um apogeu económico e cultural tremendo, que se percebe pelos palácios, teatros e museus. E pelo que, entretanto, fui lendo, a Argentina foi claramente um país do primeiro mundo, mais desenvolvido até do que vários na Europa, incluindo Portugal. Porque é que isto aconteceu e porque deixou de ser realidade é a questão que lanço ao politólogo. Ele não hesita na explicação, avisando desde logo que será longa: "Houve uma geração - geração de 80 - que pacificou a Argentina a partir desse ano, 1880. Até 1930, foram 50 anos de progresso baseados na Constituição, no respeito pela lei e na imigração europeia. Tivemos muitos imigrantes italianos e espanhóis, mas também centro-europeus. Os palácios que viste, boa parte foram construídos até 1910, que é o centenário da revolução de maio de 1810, base da nossa independência. A exportação de carne trouxe prosperidade, mas destaco, sobretudo, a importância da educação universal. Fomos dos primeiros países a acabar com o analfabetismo. Domingo Faustino Sarmiento foi um dos presidentes na altura de 1880 e tem um livro que se chama Viajes, em que conta o que viu quando passou por África, Europa e Estados Unidos. Disse que a Europa era fantástica, mas que o futuro eram os Estados Unidos. Importou o sistema educacional para educar os argentinos e costumava dizer que a república é um sistema no qual o povo é soberano, e portanto deve ser educado como nas monarquias são os reis. A Argentina e o Uruguai, vizinho muito parecido, são os dois países que nessa altura decretaram a educação universal obrigatória para todas as crianças. E os professores eram todos mulheres. Sarmiento foi criado pela mãe e para ele na sociedade a importância das mulheres estava bastante presente. A Argentina, pode dizer-se, foi o que foi por causa de Sarmiento." E a decadência relativa, pois a Argentina ainda tem dos melhores níveis de desenvolvimento humano da América Latina, a que se deve, pergunto eu: "Em 1930, a Argentina quebra-se politicamente com um golpe de Estado - com a sombra de Mussolini, que tinha ido para o poder em Itália poucos anos antes - e quebra-se também economicamente com a crise financeira. Exportava para a Grã-Bretanha, a potência da época, mas em 1930, com a crise, a Grã-Bretanha adotou a preferência imperial, ou seja, ia comprar o que precisava às suas colónias ou ex-colónias. A Argentina tinha sido até então parte daquilo que era conhecido como "império informal", mas em 1930 deixou de o ser e ao mesmo tempo caiu para fora da democracia e levou 50 anos até a conseguir restaurar. O sistema agro-exportador foi substituído por um sistema industrial-importador. Então, 50 anos depois, a Argentina reconstrói a sua política com a democratização em 1983, após a Guerra das Malvinas, mas a sua economia só foi parcialmente reconstruída."

Andrés licenciou-se em Ciência Política pela Universidade de Buenos Aires, onde começou a dar aulas. E foi o doutoramento que o fez atravessar o Atlântico para ir estudar no Instituto Europeu de Florença, em 1997, um ano decisivo para a vida deste argentino, pois na cidade italiana conheceu Helena. "Chegámos a Florença ao mesmo tempo, e encontrámo-nos num curso de italiano para aqueles que falavam línguas ibéricas. Fomos colegas durante cinco anos no doutoramento, integrávamos o mesmo departamento e com o mesmo orientador, mas foram as aulas de italiano que nos uniram. Durante os três anos em que vivemos em Florença e os dois anos em que vivemos entre Portugal e a Argentina, o italiano foi a nossa língua comum", conta o politólogo, que hoje é fluente em português, criou dois filhos bilingues e revela, com certo orgulho e um sorriso, que a mulher, quando fala espanhol, é com pronúncia argentina.

Depois da paixão em Itália, houve necessidade de o casal decidir onde fazer vida em comum. "A Argentina era muito instável, Portugal claramente menos. E acabou por ser Portugal a nossa escolha. Em 2002", relembra, enquanto pedimos dois cafés. E a aposta de construir uma carreira académica por cá, com idas frequentes à Argentina e por vezes aulas em universidades de vários países, e até temporadas, como em 2013-2014, na Universidade de Maryland (Estados Unidos), e em 2008 no Instituto Max Planck (Heidelberg, Alemanha), foi ganha.

"Consegui trabalho em Portugal porque é o mercado académico mais aberto da Europa do Sul, pois em Itália ou França teria sido muito mais difícil arranjar emprego. Também é verdade que o meu diploma é português, porque é do Instituto Universitário Europeu, que abre portas a toda a Europa, o que significa que não tive de fazer homologação. Curiosamente, em Portugal há um trilho do sistema que é protecionista, mas, em paralelo, também existe um trilho competitivo, e essa foi a minha sorte. Estive três anos no Centro de Investigação e Estudos em Sociologia, o principal centro de investigação do ISCTE. Quando acabei, não podia renovar, mas, felizmente para mim, abriram um concurso mesmo a tempo no ICS. Eram quatro vagas, 120 candidatos, e eu fiquei em quinto. Mas o segundo classificado, que era espanhol, não veio", conta com naturalidade.

Para a tal fama de guru sobre a América Latina tem justificação para além da nacionalidade de origem. "Em termos de investigação, sou um comparatista, faço comparações entre países e a relação com os países. Faço análise da América Latina e da Europa, mas o interesse aqui, quando vou à televisão ou escrevo para jornais, é o meu conhecimento sobre a América Latina, o comentário da atualidade. E na realidade a América Latina é o meu objeto de estudo principal. A minha tese de doutoramento é sobre a integração regional da América Latina comparada com a europeia, porque sem entender a Europa não se percebe o fracasso do Mercosul, apesar dos sete anos iniciais muito bem-sucedidos mesmo sem ter instituições transnacionais. Funcionou nessa fase inicial por causa do interpresidencialismo, como vim a descobrir, que era dinâmico porque os presidentes juntavam-se para resolver conflitos", explica o autor (ou coautor) de livros como Ciência Política à Portuguesa e Migrações, Coesão Social e Governação. Surpreendente, digo eu, é o título Do Fado ao Tango - Os portugueses na região platina, que codirigiu com Helena, socióloga que se tem dedicado sobretudo a temas relacionados com as Forças Armadas.

Depois de 20 anos a viver em Portugal, Andrés diz sentir-se português, embora fale com sotaque, e sobretudo quando sai de Portugal, em qualquer lado onde esteja, sente-se português, aliás, tem já dupla nacionalidade. A ligação a Portugal é tanta, sublinha, que "até na Argentina, quando lá vou, já dizem que sou Malamud o português". Imagino se o vissem comer agora um peixinho grelhado em vez de um bife de chorizo, um dos mais famosos cortes de carne argentina (e que me traz recordações de uma ida ao bairro de La Boca, famoso pelo clube de futebol onde jogou Maradona).

Para terminar, falamos um pouco do nome Malamud, judaico, herdado dos avós russos que chegaram no início do século XX de Kiev para escapar aos progroms e à miséria na atual Ucrânia (os outros avós, polacos, fugiram ao antissemitismo do período entre as duas guerras mundiais, ele a viajar disfarçado de mulher, porque estava a fugir ao serviço militar). "Sinto-me um judeu cultural, na linha de Woody Allen. O judaísmo na minha vida está em reconhecer os tiques dos judeus noutros lugares do mundo, algumas expressões, alguns autores, o facto de ter Israel como próprio, embora criticando-o. E também o sentido de humor, pois nada é mais judeu do que o sentido de humor. Deus nada tem a ver com o judaísmo, mas o sentido de humor tem tudo", diz este argentino muito português que, como é tradição familiar, conta passar o fim de ano em Olavarría, na província de Buenos Aires, entre jantar com a família, saídas com os amigos e brindes, muitos, talvez neste final de 2022 a Messi e aos outros heróis do Qatar, mesmo que saiba que com a paixão que tem pelo râguebi a sua mente já deve estar no Mundial de França, com a Argentina a estrear-se a 9 de setembro, e logo contra a Inglaterra, a tal da Guerra das Malvinas de 1982.

leonidio.ferreira@dn.pt

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