As questões de Bombaim

Seis temas suscitados pela violência dos ataques contra a Índia e que afectam toda a guerra ao terrorismo.
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Os atentados de Bombaim levantam questões políticas relacionadas com o complexo contexto das relações entre Índia e Paquistão, a ameaça da rede terrorista da Al-Qaeda e até do conflito no Afeganistão. Todos estes temas estão interligados por um elaborado tecido histórico.


O braço da Al-Qaeda

O Paquistão e os grupos extremistas de Caxemira negam envolvimento nos atentados de Bombaim e, para muitos, o principal suspeito é a Al-Qaeda. Está a ser investigada a origem do grupo islamita que reivindicou a acção, organização até agora desconhecida, os Mujaedine do Decão, o que sugere origem indiana. Mas a polícia apurou que um dos suspeitos capturados é originário do Paquistão e que pode haver paquistaneses de origem britânica no grupo atacante.


A tese da autoria da Al-Qaeda veio da maior parte dos especialistas, mas também do ministro dos Negócios Estrangeiros italiano, Franco Frattini, um perito no tema. As análises sublinham a excelente preparação dos atentados, a logística sofisticada e a aparente vontade de morte dos militantes. A ferocidade e o fanatismo dos terroristas são outros aspectos que apontam para a rede de Ben Laden, bem como o inesperado e os alvos. A confirmar-se esta autoria, a Índia passou a ser um dos países que sofreram brutais atentados "tipo-11 de Setembro", com alto simbolismo político.


A pista muçulmana

A polícia indiana acredita que na origem dos ataques está o Paquistão. Ainda duravam os tiroteios e a marinha investigava navios paquistaneses ao largo de Bombaim, para apanhar o barco de maior dimensão de onde vieram os terroristas. Se estes forem paquistaneses, o conflito estará ligado a Caxemira, onde a situação é tensa. Partilhada entre Índia e Paquistão em 1947, esta parte do Punjabe, de maioria muçulmana, foi abalada por uma década de insurreição armada que fez dezenas de milhares de mortos. A situação acalmou entretanto.


Sob pressão dos EUA, no âmbito da guerra contra o terrorismo, Índia e Paquistão encetaram um processo de paz contestado pelos radicais de cada um dos dois países. Há quem não deseje a reconciliação. Por outro lado, a Índia tem uma minoria muçulmana, de 150 milhões de pessoas, que se afirma discriminada. Só este ano, morreram mais de 300 pessoas em acções terroristas de inspiração islâmica. Mas Bombaim foi politicamente mais elaborado do que é habitual e os indianos estão convencidos da origem externa.


Alvos secundários

Em cada novo ataque dos extremistas, os judeus apanhados no fogo cruzado têm sempre poucas hipóteses de escapar. Os terroristas ocuparam um centro comunitário judaico e, nos confrontos, terão morrido pelo menos um rabi, Gavriel Holtzberg, e a sua mulher. O centro comunitário de Chabad House era um dos 3500 controlados por um movimento ortodoxo judeu. Mas existe um padrão mais profundo. O terrorismo islâmico ataca interesses judaicos ou ligados a Israel. Em Djerba, na Tunísia, em Marrocos ou na Turquia, sinagogas foram atacadas à bomba.


Em Novembro de 2003, por exemplo, 20 pessoas morreram num ataque contra duas sinagogas de Istambul. Um ano antes, em Mombaça, Quénia, um atentado contra um hotel frequentado por turistas israelitas matou 15 pessoas. Os militantes tentaram abater um avião comercial israelita que levantava voo com mais de 200 turistas a bordo. Em 2004, um ataque islamita contra centros turísticos egípcios frequentados por israelitas, no Sinai, provocou a morte a 34 pessoas.


Aliança americana

Durante a Guerra Fria, a Índia tentou sempre ser uma das potências líderes do Terceiro Mundo. Por vezes, ensaiava uma aproximação com a URSS, em contraste com a aliança firme que o Paquistão mantinha com os Estados Unidos. A actual ordem mundial parece impossibilitar esta opção. Índia e Paquistão são potências nucleares. O Paquistão está na linha da frente na luta contra o terror e continua a ser aliado dos EUA, mas Washington começa a encarar a relação com cepticismo. Um exemplo: foram muito explícitas as afirmações dos candidatos presidenciais americanos em relação ao Paquistão, acusado de não fazer o suficiente para neutralizar a Al-Qaeda no seu território.


EUA e Índia assinaram em 2006 um controverso acordo nuclear que tem sobrevivido a todos os obstáculos, incluindo uma votação, em Setembro, que podia ter derrubado o Governo de Nova Deli. Apesar de ter armas nucleares, a Índia ganha acesso a tecnologia atómica civil americana. Mas, do ponto de vista estratégico, este acordo vai mais longe: a prazo, a Índia será o principal aliado de Washington na região.


Linha da frente

O Afeganistão está na linha da frente do combate contra a Al-Qaeda e a guerra não corre da melhor forma para os ocidentais. A rebelião talibã ganha força e, em 2009, ano de eleições presidenciais afegãs, deverá acentuar-se. Num recente atentado, em Cabul, o alvo foi a embaixada da Índia, país que em 2001 apoiou a Aliança do Norte, a qual derrubou o regime talibã do mullah Omar. Para a estratégia ocidental funcionar no Afeganistão não é suficiente aumentar o número das tropas no terreno, mas parece sobretudo necessário estabilizar o Paquistão.


Nas zonas tribais do noroeste, junto à fronteira afegã, Islamabad luta contra grupos radicais violentos, próximos dos talibãs. Por outro lado, o eventual agravamento do problema de Caxemira ou um conflito com a Índia (caso os terroristas sejam do Paquistão) seriam desenvolvimentos catastróficos para o Presidente Asif Zardari, já pressionado pelos islamitas e que sofreu o seu próprio "11 de Setembro", no atentado contra o hotel Marriott. Qualquer deslize será o fim da frágil democracia.


A estratégia de Obama

O Presidente eleito dos EUA, Barack Obama, quer concentrar a luta contra o terror no Afeganistão. As tropas no Iraque serão mobilizadas para este país, onde vão enfrentar uma rebelião cada vez mais ousada. Mas Obama, que toma posse a 20 de Janeiro, não pode pressionar o Paquistão como prometeu fazer durante a campanha.


O apoio da Índia poderá revelar-se crucial para pacificar a região. Se Zardari negociar um bom acordo com Nova Deli sobre Caxemira, reduzirá certamente a ameaça interna de um golpe militar para restabelecer a ordem.

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