As primeiras apostas da nova Portugália
No processo de transformação em curso que tem agitado o mundo editorial português (compras por atacado de Pais do Amaral e grande concentração no grupo Leya, reconversão de Paulo Teixeira Pinto na Guimarães e na Ática, proliferação de efémeras subsidiárias que vieram substituir as velhas colecções, êxito inesperado de editoras como a Cavalo de Ferro), é interessante verificar o renascimento da velha Portugália, criada por Agostinho Fernandes em 1942 e muito activa nas três décadas seguintes, até ao 25 de Abril. Teve directores literários como João Gaspar Simões, Jorge de Sena, Augusto da Costa Dias e Cruz Santos. Muitos dos livros que editou fizeram história: das três séries de Líricas Portuguesas (coordenadas por José Régio, Cabral do Nascimento e Jorge de Sena) às obras de Jaime Cortesão, dos ‘Poetas de Hoje’ (uma das mais importantes colecções de poesia em Portugal) aos ‘Documentos Humanos’ (onde foram editados Ofício de Viver, de Cesare Pavese, Diário Íntimo, de Manuel Laranjeira, as Confissões de Rousseau ou De Profundis, de Oscar Wilde). Nomes fundamentais da literatura foram por ela revelados em Portugal, de John dos Passos a Elio Vitorini, e escritores portugueses hoje consagrados publicaram lá os seus primeiros romances, de Baptista Bastos a Almeida Faria. Espera-se, aliás, que muitos deles possam agora ser reeditados.
Na sua nova vida, por iniciativa da Fundação Agostinho Fernandes (agora dirigida pelos seus netos), a Portugália aparece associada à Sá da Costa (livraria e editora que também promete novidades) e à Buchholz, a lendária livraria lisboeta em luta pela sobrevivência. Os primeiros títulos já lançados dão um sinal dos caminhos que a editora pretende voltar a percorrer, como no caso de Essa Estória, de António Salvado, que reabre a colecção ‘Poetas de Hoje’. Grande poeta português, que nasceu e vive em Castelo Branco (onde foi professor e director do museu), e cuja obra publicada até 1997 foi reunida em três volumes pela editora A Mar Arte, António Salvado é um nome injustamente secundarizado (ou mesmo silenciado) pela crítica dominante. Neste livro, “poema-testamento” e retrospectiva de vivências interiores”, o autor dirige à Natureza interrogações marcadas pela passagem do tempo.
Em Destruição de Um Jardim Romântico, Viale Moutinho junta 19 contos, histórias de um mundo em transformação: o Porto, sobretudo, mas também a Galiza e um regresso à Madeira. Quatro décadas após a estreia literária (Natureza Morta Iluminada, em 1968), Viale Moutinho – repórter, cronista, poeta, romancista, investigador – reafirma a mestria no seu género preferido: o conto.
Na mesma colecção, ‘Letras em Português’, é publicado o romance O Guardador de Pássaros. O autor, Ascêncio de Freitas, faz uma incursão pela guerra civil de Moçambique que, nos anos 80, terá provocado um milhão de mortos.
Daniel Abrunheiro, cujas experiências literárias podem ser acompanhadas no blogue canildodaniel, (re)inaugura a colecção ‘Novos’ com Terminação do Anjo, uma narrativa vertiginosa em que o fascínio da linguagem arrasta a imaginação atrás das personagens.
Essa Estória
ANTÓNIO SALVADO
Terminação do Anjo
DANIEL ABRUNHEIRO
Destruição de Um Jardim Romântico
JOSÉ VIALE MOUTINHO
O Guardador de Pássaros
ASCÊNCIO DE FREITAS

