É um cineasta desassossegado e cheio de vontade de se expressar que encontramos num hotel da Avenida da Liberdade, em Lisboa. E liberdade será com certeza um valor que condiz com este homem de esquerda, que no entanto se afasta de qualquer conotação ideológica. "Não sou um perigoso revolucionário", diz. Stéphane Brizé veio apresentar o novo filme, Em Guerra, por ocasião da sua antestreia no âmbito da Festa do Cinema Francês, e falou ao DN não só das suas preocupações humanistas, mas também do modo como procura na expressão da realidade a matéria dramática do seu cinema..Para quem viu A Lei do Mercado (2015), em que a câmara se colava ao corpo de Vincent Lindon a perscrutar o silêncio de um desempregado, este regresso à paisagem laboral, que procura uma crónica da angústia e da fúria coletiva, é mais do que coerente. Mas o que dizer do filme de época - o magnífico A Vida de Uma Mulher (2016) - que assinou entre um e outro? Não há diferenças no método do realizador. Brizé está sempre à procura do mesmo: o documento de uma narrativa íntima e social. E no caso de Em Guerra, tal narrativa surge refletida nos 1100 operários franceses de uma fábrica que ficam sem trabalho depois de os donos da empresa que engloba essa fábrica decidirem que o seu lucro não satisfaz as metas de mercado... A dar o rosto ao manifesto temos, novamente, o enorme ator de nome Vincent Lindon.. Em Guerra é uma expressão um pouco atípica para um filme de realismo social, porque parece evocar uma ação épica. E, no entanto, encaixa perfeitamente no teor inflamado dos acontecimentos. Este é um filme que começa no seu título?.Um título permite-nos dizer muita coisa. No caso da expressão "em guerra", ela contém qualquer coisa do movimento, do confronto, da batalha que cresce no filme. De qualquer forma, se há aqui uma declaração de guerra, esta surge dos mais poderosos em relação aos mais desprotegidos economicamente, que por sua vez tomam uma atitude de resistência. Eu considero que estas são, de facto, situações de guerra, e a dramaturgia que é trabalhada neste tipo de filmes ditos políticos é uma dramaturgia de filme de guerra - temos os mesmos ingredientes da traição, do combate, da amizade, da camaradagem..Mas temos também aqui o papel da televisão, do sensacionalismo das imagens mediáticas, que exploram o "campo de batalha"....Claro. Aliás, a ideia do filme partiu mesmo de uma imagem sensacionalista, impressionante - que foi vista em todo o mundo - dos trabalhadores que rasgaram as camisas a dois executivos.......o caso das "camisas rasgadas" da Air France [situação violenta que aconteceu em 2015, na sequência do anúncio de uma drástica restruturação na companhia aérea francesa, que previa o corte de 2900 postos de trabalho]..Exatamente. Como toda a gente, eu vi as imagens e foi este caso em particular que motivou o filme. A minha primeira reação foi muito humana: da mesma maneira que fiquei impressionado, senti uma empatia para com os trabalhadores que rasgaram as camisas. E passado o momento de espanto e admiração, pus a mim próprio a questão de saber o que é que levou aqueles homens e mulheres a tal estado de cólera. Porque não acredito - e não estou aqui a meter nenhuma ideologia ao barulho - que eles se tenham levantado de manhã com a ideia de fazer isto aos seus superiores. Não acredito mesmo... A partir daqui, quis encenar o mesmo tipo de violência, mas sobretudo reconstruir, através da ficção, as imagens que faltam, as imagens que não existem do que se passou antes, ou seja, aquilo que não é mostrado pelos media. Porque há um paradoxo: nós acedemos a uma enorme quantidade de imagens pela televisão, mas não sabemos grande coisa sobre este ou aquele caso que é divulgado... E depois de passarmos pelas imagens que faltavam, quando chegamos à imagem mediática, compreendemos verdadeiramente que a cólera é legítima. Estas pessoas têm o direito de estar enraivecidas. E o que é delirante neste sistema é que se fecham empresas, e tira-se o trabalho às pessoas, mesmo que elas trabalhem muito bem, por causa de um relatório de objetivos de lucro... Não estamos a falar de uma empresa que não faz dinheiro, isso é que é de loucos! Que mundo é este em que os trabalhadores estão à mercê das margens de lucro que os acionistas querem ter?.Então, muito concretamente, porquê este filme neste momento europeu e mundial?.Precisamente porque me permite legitimar a cólera dos assalariados, que vemos nos ecrãs de televisão e que é muitas vezes desacreditada pela política. Na altura deste caso, a reação imediata do primeiro-ministro, Manuel Valls, foi chamar-lhes "bandidos"... Esta é uma declaração que mostra baixeza. Mas, na verdade, a responsabilidade é global, a disfunção é organizada. Estas empresas que fecham apesar de fazerem dinheiro estão enquadradas pela lei, que lhes permite agir assim. E isto não se passa só em França, é um sistema europeu, mundial, um mecanismo que põe os assalariados de países diferentes em competição. Quando digo isto, não sou nenhum perigoso revolucionário, sou apenas alguém que sente alguma empatia pelas pessoas, que preza o humanismo e o bom senso..É um facto que a sua câmara persegue a pulsação humana....Sim, tento captar o máximo realismo possível. E certamente que a verdade que procurei é também a do coração e a da linguagem, do discurso. Para conseguir essa honestidade do discurso, encontrei-me com vários trabalhadores, patrões, advogados e políticos, antes de escrever o filme. Desta forma acedi a três discursos - inteligentes, estruturados - que apresentavam uma coerência, e pu-los na boca dos atores. Isso foi muito importante para dar solidez às personagens. Eu não gozo aqui com ninguém. Se me pusesse a ironizar com os políticos ou com os patrões estaria a dar um tiro no pé, porque é muito fácil cair no efeito de caricatura. Agora, perante os três discursos, cabe ao espectador ver onde é que está a disfunção. Para mim, esta clareza era fundamental..Por falar no espectador, há uma sensação de exaustão que toma conta da experiência do filme. Esta espécie de partilha física é também uma forma de agitar as consciências?.Eu penso que o cinema é uma experiência muito orgânica, física e emocional. Ao criar emoções, este tipo de filme permite compreender melhor uma situação do mundo. E a ideia de fazer com que o espectador partilhe fisicamente esta luta, este cansaço, é como levá-lo à questão: o que é que representa bater-se durante semanas por um novo contrato? A mim, enquanto espectador, dá-me um sentimento de exasperação..É curioso pensar que o modo quase documental com que aborda um filme de época - falo, obviamente, do anterior A Vida de Uma Mulher - não é diferente da maneira como filma um drama social contemporâneo. O que é que, no seu método de trabalho, define a abordagem?.Adoro o que acabou de dizer. Essa é uma observação raríssima, porque a maior parte das pessoas diz o contrário: "como é que passou de A Lei do Mercado, um filme social, para A Vida de Uma Mulher, e agora volta a fazer um filme social"? E eis que é tudo o mesmo! É a mesma forma de.......olhar as personagens.......de olhar as personagens, é isso. Nestes três filmes, a reflexão que antecede a rodagem é a de que as personagens que vou filmar têm a gentileza de aceitar a minha câmara na sua história. E a história é escrita de um modo que dá ao corpo ficcional a impressão de um documentário. Portanto, mesmo um filme que recria o século XIX [A Vida de Uma Mulher] foi pensado como se ela aceitasse que a minha câmara estivesse ao seu lado durante 30 anos. Isto quer dizer que, para dar esta ideia do real eu não organizo o plateau para ajustar a câmara, antes procuro os lugares que dão a sensação de que me coloco onde é permitido pela personagem. Claro que, por definição, eu posso colocar-me onde quiser, mas esta é a filosofia da minha abordagem..O que é que lhe interessa particularmente no molde da ficção enquanto janela para a realidade?.Talvez porque não tenha muita imaginação, gosto de me nutrir de tudo o que se passa à minha volta. Mas sobretudo acho que o real nos oferece cenários alucinantes - eu deixo-me surpreender por ele. E no entanto, só consigo refletir em moldes de ficção, porque são as ferramentas da dramaturgia que me permitem dominar o movimento desse real e construir a emoção como eu quero..Vincent Lindon é o rosto digno do filme, tal como o era em A Lei do Mercado. O que é que, pessoalmente, vê no homem e no ator?.Eu acho que o Vincent tem, de uma só vez, qualquer coisa de homem comum e de heroico. Ou seja, é um corpo em que todos, homens e mulheres, se podem projetar. O encanto dele é mais ou menos este: um homem poderoso que temos vontade de pegar ao colo. Ele é a síntese de todos nós, e isso é uma qualidade dos grandes atores... Curiosamente, ainda há pouco tempo falávamos de Alain Delon, porque saiu um belo artigo sobre ele no Le Monde, e o Vincent lamentava-se em relação a esse tempo do Delon - que diz na entrevista que as pessoas iam ao cinema para ver pessoas excecionais -, "vês como era dantes?" A verdade é que o Alain Delon é também o fruto da sua época. E eu respondi-lhe, "se naquela altura as pessoas precisavam dele, agora precisam de ti, precisam que encarnes um pouco do sofrimento delas e o transcendas". O Vincent é o comum e o excecional num só corpo..Um pouco como Jean Gabin....Lá está, um ator que interpretava tão bem os pobres como os ricos. Isso é muito raro, e tem que ver com uma forma de honestidade. Vale a pena lembrar que ele também fez algumas vezes de bandido... no entanto, há sempre uma humanidade inegável. Bem a propósito, num futuro próximo, gostava de trabalhar com o Vincent numa personagem detestável - ou melhor, que se torna detestável -, porque ele enverga uma forma de humanidade que, para se tornar detestável, é preciso que se traia a si próprio. Acho que muita gente vive assim, com traições à sua própria humanidade.