As Mulheres e a Guerra

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Zainab é uma jovem jornalista que decidiu fugir do Afeganistão. Na sua curta carreira, colaborou com revistas estrangeiras como a Time Magazine, o que a coloca na mira dos Taliban. Apesar de nunca ter saído do seu país, decidiu que não podia ficar. Na melhor das hipóteses, ficar significaria perder a sua carreira. Na pior, era a sua vida e a dos seus familiares que estava em risco.

Zainab é um dos muitos rostos da tragédia que afeta o Afeganistão. Uma tragédia que tem impacto em toda a sociedade, mas que se faz sentir de uma forma mais forte na vida das mulheres. Para as afegãs que decidiram ficar ou não conseguiram fugir, o futuro é muito incerto. Porém, não restam dúvidas que muitos dos direitos que conquistaram nas últimas décadas estão em risco, desvanecendo-se a esperança de os alargar.

Os conflitos armados têm um impacto desproporcional na vida das mulheres. Durante a guerra, sofrem, tantas vezes, de tráfico sexual, violação e violência doméstica. A memória de situações desta natureza tem registos de muitos séculos e infelizmente tende a repetir-se. Mesmo aqui à nossa beira, no conflito da Jugoslávia, cerca de 50 mil mulheres tenham sido violadas, um número que sobe para cerca de 250 mil no genocídio do Ruanda. A situação muda quando os conflitos terminam, mas isso não se traduz numa melhoria das condições de vida das mulheres. Quando o conflito acaba, as mulheres têm, em geral, pouco apoio para lidar com as experiências traumáticas por que passaram e as viúvas de guerra são um dos grupos mais vulneráveis à pobreza, prostituição e exploração.

Mitigar este impacto negativo que os conflitos armados têm nas mulheres passa por aplicar uma perspetiva de género a todas as medidas e políticas públicas que utilizamos para prevenir, solucionar e lidar com as consequências destes conflitos.

Um bom exemplo do que pode ser feito foi o anúncio do antigo Presidente da República, Jorge Sampaio, que a Plataforma Global para os Estudantes Sírios, a que preside, vai alargar o seu âmbito de ação para incluir um programa de bolsas de estudo e de oportunidades académicas para jovens afegãs.

Podemos também olhar para outros países como inspiração. Desde 2014 que a Suécia tem desenvolvido uma política externa feminista. Ao reconhecer que a paz, igualdade e justiça no mundo nunca vão ser alcançadas se metade da população não tiver acesso aos mesmos direitos que a outra, a Suécia coloca a promoção da igualdade de género como um dos principais objetivos da sua política externa. Esta é uma abordagem ainda pouco comum, mas que tem o potencial para promover o bem-estar das mulheres em todo o mundo, incluindo em contextos de conflito armado.

A verdade é que, por muito que se faça, serão mulheres a maioria dos afegãos vão ficar para trás. É uma realidade triste, mas que não nos deve fazer cruzar os braços. Muito pelo contrário, deve motivar-nos a trabalhar mais e melhor pela igualdade de género. Não há direitos adquiridos, nem no Afeganistão, nem no resto do mundo. Todos os dias temos de lutar por eles.

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