19 de Junho de 1932. Eram tempos que acentuavam o distanciamento entre Benfica e FC Porto, a divisão do País entre Sul e Norte. Os encarnados recebiam os azuis e brancos em jogo das meias-finais da Taça de Portugal. Sobrevivia na memória a recordação da lesão do duro Aníbal José sobre Norman Hall, a vedeta portista. Uma lesão provocada e mais tarde admitida pelo próprio defesa do Benfica: "O capitão Vítor Silva pediu-me para dar uma pancada no Hall, inutilizá-lo, caso contrário estaríamos feitos." A pancada foi tão forte que deixou o adversário inutilizado e obrigou-o mesmo a abandonar o futebol. O Benfica venceu por 3-0. No ano seguinte, no Estádio das Amoreiras, a vingança serviu-se fria. Avelino Martins já tivera conhecimento da história e tratou de desbaratar Vítor Silva. Por entradas maldosas e muita porrada, chegou mesmo a esbofetear o capitão encarnado. O FC Porto venceu por 2-1. .11 de Junho de 1933. O Benfica recebia o FC Porto para a segunda mão de uma eliminatória da Taça de Portugal. Venceu por 4-2, mas foi uma glória vã. A derrota humilhante (0-8) da semana anterior na Constituição permitia ao FC Porto seguir em frente na prova. Cegos de raiva, os jogadores encarnados andavam de cabeça perdida. Também para evitar males maiores, a federação convidou um espanhol (Ramón Melcón) para dirigir a partida. Andavam mosquitos por cordas, o árbitro tentava deitar água na fervura, mas não resistiu a expulsar o capitão Vítor Silva depois de um entrada sobre o guarda-redes Siska. O problema foi tirar o benfiquista de campo. Melcón chegou mesmo a pedir a intervenção da GNR, mas nem as forças da autoridade o arrancavam do relvado. Chegaram a dar-lhe voz de prisão e nada. Só mesmo a intervenção do histórico treinador Ribeiro dos Reis, que arrastou o furioso avançado por um braço, é que tirou Vítor Silva de campo e permitiu que o jogo continuasse..Primeira reconciliação .5 de Abril de 1936. Esta história começa três anos antes. Precisamente no jogo em que o FC Porto venceu na Constituição por 8-0. Um encontro que ficou marcado pela mudança da hora, sem que o clube lisboeta tivesse sido avisado com a devida antecedência. No final da partida, os encarnados reagiram mal, o jogador Guedes Gonçalves agrediu o presidente da FPF nos balneários e foi suspenso por seis meses. O FC Porto acusa então o Benfica de querer monopolizar o futebol, acusa Lisboa de querer centralizar o poder e avança para o primeiro corte de relações oficiais. Durante três anos não existe qualquer tipo de contacto. As relações são reatadas a 5 de Abril de 1936, quando o Benfica vence o rival por 5-1 e conquista o título. Com o orgulho vingado, os encarnados propõem a reaproximação, aceite pelos azuis e brancos e celebrada num jogo particular na Constituição..A maior goleada.7 de Fevereiro de 1943. O dia em que o FC Porto cobriu a cara de vergonha. Em jogo disputado no Campo Grande, em Lisboa, o Benfica venceu por 12-2. Um resultado que ainda é um recorde na história dos clássicos. Uma tarde gloriosa para os encarnados, que haveriam de ser campeões, perante um rival eterno teve um ano horrível, terminando em sexto lugar. Perante a felicidade do treinador Janos Biri, o Benfica marcou quatro golos na primeira parte, fez o quinto a abrir a segunda parte, deixou que o FC Porto fizesse o tento de honra, mas logo aumentou para 9-1. Até final os azuis e brancos marcaram mais um golo, enquanto os encarnados fizeram três. No final 12-2. Para desespero de Luís Mata, terceiro guarda-redes do FC Porto, entretanto promovido a primeiro devido às lesões de Andrasik e Valongo. A estreia não podia ter sido pior. . Despedida do capitão.8 de Setembro de 1952. O jogo da despedida do eterno capitão Francisco Ferreira, um homem nascido em Guimarães mas criado no recinto do FC Porto. Aos 11 anos deixou a Cidade-Berço para acompanhar o pai, que tinha encontrado trabalho como guarda do Campo da Constituição. Francisco Ferreira começou então a jogar futebol e cedo se revelou um prodígio precoce. Ao ponto de aos 17 anos já ser uma das figuras do clube. Foi então que, embalado pelos altos salários que o FC Porto já pagava, pediu um aumento que até era humilde: 300 escudos por mês. Como resposta, os dirigentes chamaram-lhe malandro. Francisco Frederico sentiu-se traído e mudou-se para o Benfica. Onde rapidamente ganhou um espaço especial, tornando-se até capitão durante nove anos. Depois da vitória na inauguração do novo Estádio das Antas, por 8-2, disse que para ele chegava e que deixava naquela altura o futebol. Por pressão dos colegas, ainda aceitou jogar a final da Taça de Portugal e ajudar o Benfica a ganhar mais um título. Depois arrumou mesmo as chuteiras. Na festa da despedida, marcada para o Jamor, convidou o FC Porto e reconciliou-se com o clube por quem sempre torcera..Árbitro perde a cabeça .5 de Maio de 1968. O Benfica recebia o FC Porto em jogo do campeonato. Eram os tempos áureos encarnados no futebol de Eusébio, Simões, Zé Augusto, Torres, Coluna, Germano ou Costa Pereira. No final empatou por 1-1. Mais do que pelo resultado, o clássico ficou marcado pelo insólito de um árbitro. Marcos Lobato, juiz de Setúbal. Um homem que era a prova viva de que um árbitro não é de ferro. Sobretudo quando se sente enganado. Aconteceu, por exemplo, quando Djalma caiu no terreno e ficou a queixar-se de dores. O árbitro percebeu que era teatro, desatou a correr, afastou os jogadores, agarrou Djalma pelos cabelos e tratou de o levantar assim mesmo: arrastando-o. O brasileiro percebeu o toque e saiu a correr pelo campo como se nada tivesse acontecido. Fez-lhe bem o aviso. Quase sobre o final da partida, marcou o golo do empate. Apesar de tudo, o Benfica foi campeão. Fez a dobradinha, aliás..Descalabro encarnado.18 de Setembro de 1996. O Benfica recebia o FC Porto em jogo da Supertaça. Depois de uma derrota na Antas por 0-1, era preciso inverter o resultado. Mas a noite acabou em descalabro. Vitória do FC Porto por 5-0, naquela que ainda se mantém como a derrota mais pesada de sempre dos encarnados na Luz. Só o Santos e o Manchester, de resto, marcaram cinco golos na casa encarnada, mas em nenhum deles o resultado foi desnivelado. Nessa noite tudo correu bem à formação de António Oliveira. Que nem precisou de Jardel, o matador brasileiro que até começou no banco. Artur, Edmilson, Jorge Costa, Wetl e Drulovic marcaram os golos de uma noite que ainda teve outra tragédia: quando saía da Luz, o histórico fotógrafo Nuno Ferrari, amigo de Eusébio e assumido adepto encarnado, teve um ataque cardíaco que acabou por ser fatal. Uma outra curiosidade: João Manuel Pinto, Drulovic e Zahovic festejaram com a camisola do Benfica vestida. Um prenúncio..Golo ou não? .17 de Outubro de 2004. Poucos clássicos fizeram correr tanta tinta. Corria o minuto 78 quando Petit rematou forte de fora da área, Vítor Baía largou a bola, deixou que batesse no relvado e saltasse em direcção à baliza, tirando-a com um soco de recurso. O guarda-redes levantou-se de pronto a dizer que não com um gesto da mão, os jogadores do Benfica cercaram o árbitro assistente e o ambiente ficou quente até ferver. Olegário Benquerença mandou seguir, no final o FC Porto venceu graças a um golo de McCarthy, mas o Benfica foi campeão. O árbitro é que acabou por passar momentos complicados. Tanto que uma semana depois, em Olhão, num jogo da Liga de Honra, teve de levar uma protecção especial de trinta polícias. A verdade, porém, é que ainda hoje ninguém sabe se realmente a bola entrou ou não. Por cada estudo que diz que sim, existe outro que diz que não. Se alguém do contrário, que as apresente.