Aqui começa o muro de Trump

San Ysidro tem fama de ser o posto fronteiriço mais movimentado do mundo. Milhares de mexicanos de Tijuana vêm todos os dias trabalhar a San Diego. Não admira que chamem racista ao republicano.
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Carmen arrasta duas malas de viagem, ambas grandes, mas que não a impedem de caminhar a passo acelerado. "Tinha de trazer umas coisas. E hoje acabei o meu trabalho mais cedo", explica esta mexicana, de 40 anos, que faz limpezas na casa de um advogado em San Diego e que todos os dias cruza nos dois sentidos a fronteira de San Ysidro, mesmo junto a Tijuana. Prefere não dizer o que leva nas malas cinzentas, nem qual o apelido, mas não se importa de contar que acorda "antes das cinco da manhã para evitar as horas de confusão" no posto fronteiriço entre os Estados Unidos e o México que tem fama de ser o mais movimentado do mundo.

As estatísticas falam de dez milhões de peões por ano e de 25 milhões de carros no sentido sul-norte. Carmen faz parte dos 25 a 30 mil commuters transfronteiriços, gente que vive no México e trabalha em San Diego, a segunda maior cidade da Califórnia. E por isso quando ouve o nome Donald Trump torce o nariz e diz: "É um racista. Não lhe admito que diga que os mexicanos não são trabalhadores. Olhe para a minha cara. Estou cansada porquê?"

Se Trump ganhar as eleições e cumprir a promessa de construir entre os Estados Unidos e o México um muro, este começará aqui, mesmo junto ao Pacífico, e percorrerá milhares de quilómetros até ao extremo sul do Texas. Mas para quem chega a San Ysidro a partir do centro de San Diego, num elétrico que faz os 25 quilómetros em 40 minutos, até já parece haver muro. Pelo menos, há barreiras por todo o lado. Com diferentes níveis de altura e materiais muito diversos, mas sem dúvida barreiras. A tal ponto que só subindo a uma passagem sobre a autoestrada que avança para o posto fronteiriço se consegue ver o lado mexicano, as colinas de Tijuana cheias de casas cor de terra.

"Já há muros. E câmaras de vigilância por todo o lado. Trump deve querer é construir uma nova muralha da China", comenta Jorge Larriva, outro dos commuters transfronteiriços. Conversamos no edifício da câmara que fica perto da Quinta Avenida, na Baixa de San Diego. Larriva, de 50 anos, é engenheiro e funcionário público. E também cidadão americano. Então, pergunto-lhe, porque vive em Tijuana e todos os dias tem de atravessar a fronteira, mesmo que tenha um cartão que lhe dá passagem prioritária e lhe poupa tempo. "No meu caso é uma questão económica. Divorciei-me, voltei a casar, e se tivesse de pagar um apartamento em San Diego estaria 20 ou 30 anos endividado ao banco. Assim, construí uma casa em Tijuana e é minha", explica Larriva, mais um hispânico que não esconde a raiva contra Trump. E a revolta contra o candidato republicano às eleições de 8 de novembro levou-o mesmo a recensear-se para votar. "Vai ser a primeira vez. E, como eu, muitos outros hispânicos estão a mobilizar-se", conta.

Este ponto é importante, pois os hispânicos são já a principal minoria do país, com 55 milhões de pessoas ou 17% da população dos Estados Unidos. E na Califórnia essa percentagem atinge os 40%, o que significa que há hoje 15 milhões de pessoas no estado que têm raízes no México (sobretudo), na América Central e do Sul, em Cuba e em Porto Rico.

"No outro dia vi na televisão que há um movimento chamado Hispânicos com Trump mas a verdade é que não conheço nenhum", acrescenta o engenheiro. Prova da complexidade das relações entre os Estados Unidos e o México, vizinhos marcados por rivalidades históricas e pelo persistente fosso económico, a filha de Larriva pediu há pouco a dupla nacionalidade mexicana para poder estudar em Tijuana na universidade, apesar de ter como planos viver e trabalhar nos Estados Unidos quando se formar em Engenharia Civil.

Tradição nativista

Médico em Los Angeles, David Hayes-Bautista prepara agora uma reedição do seu livro de 2004 La Nueva California e promete "dados atualizados sobre a comunidade hispânica e um novo capítulo dedicado a Trump". E afirma, sem hesitar, que "Trump não é nada de novo na história dos Estados Unidos. A cada 20 anos mais ou menos surge uma onda nativista, com gente que pensa que ser americano é ser branco e anglo-saxónico. A última vez foi em 1994, com a proposta 187, aprovada aqui na Califórnia e que tirava direitos aos imigrantes".

O médico e académico recorre à história para provar que não só os hispânicos estão "desde o momento zero na criação da Califórnia", conquistada ao México na guerra de 1846-1848, como "partilham dos valores da América, os ideais da liberdade, da justiça, da busca da felicidade" e que por isso "representam a corrente universalista contra os nativistas". Além disso, sublinha, "o hispânico típico hoje não é imigrante, é nascido nos Estados Unidos e Trump faz muito mal em desprezá-los fazendo-lhes acusações injustas", numa referência à apresentação da candidatura ainda em 2015 em que o magnata se refere aos mexicanos como violadores e traficantes de droga.

Hayes-Bautista diz que Trump não vai ganhar, mas receia que Hillary Clinton possa perder. "Ela pode perder. Pode cometer um erro que ponha tudo a perder. E de repente arriscamo-nos a ter Trump na Casa Branca." As sondagens continuam indecisas a nível nacional, mas na Califórnia a vitória da candidata democrata é tida como certa, com uma vantagem seguríssima que também é ajudada pelo apoio maciço dos hispânicos. Aliás, a cada presidencial o voto hispânico no candidato republicano vai diminuindo: George W. Bush conseguiu 40% em 2004, John McCain 31% em 2008 e Mitt Romney 27% em 2012. "Com Trump nem se consegue prever", assegura Hayes-Bautista.

No restaurante La Loma Bonita, em San Diego, a ementa é 100% mexicana. Tacos, quesadillas, enchilladas, burritos, tudo a preços de atrair americanos, tenham ou não raízes a sul da fronteira. Adrian Caballero, o cozinheiro, não se queixa de o trabalho ser muito. Nasceu em Guadalajara, veio adolescente para os Estados Unidos e hoje é cidadão americano. "Aqui quem trabalha tem sucesso. E muitos mexicanos sonham com a oportunidade de emigrar", explica este homem de 47 anos, casado com Maria, também de Guadalajara, e que ainda não conseguiu a cidadania americana.

Sobre as propostas de Donald Trump de mandar construir um muro e ainda fazê-lo pagar pelos próprios mexicanos, Caballero não mede as palavras: "É um fascista. Não tem maturidade intelectual para dirigir um país, ainda mais um tão grande como os Estados Unidos." Nas paredes vermelhas do restaurante destacam-se velhas fotografias a preto e branco com os revolucionários mexicanos Sancho Villa e Zapata. O cozinheiro afirma que vai votar em Hillary Clinton, até porque vota sempre nos democratas e os republicanos estão a virar as costas aos hispânicos.

O sonho de muitos mexicanos de uma vida melhor nos Estados Unidos percebe-se quando se veem os números do Banco Mundial sobre o rendimento médio per capita. A diferença é de um para seis, atenuada para um terço quando se aplica a paridade de poder de compra. Por isso San Ysidro separa dois mundos, com o controlo flexível quando se passa para sul e muito apertado quando se viaja no sentido norte. As filas de carros são visíveis, e à hora de ponta as formalidades para entrar nos Estados Unidos podem demorar duas horas.

Foi o que aconteceu com Carlos Orraca, um professor reformado mexicano, amigo da comunidade portuguesa de San Diego e que veio para o Cabrillo Festival, dedicado ao navegador português que em 1542 descobriu a Califórnia ao serviço da coroa espanhola. "É enorme a diferença entre os dois países, mas isso não dá razão a Trump contra os imigrantes. Parece que fez uma lavagem cerebral a milhões que o apoiam sem perceberem que não tem soluções para nada", afirma Orraca, que admite que no México há preocupação, mesmo que "não acredite que Trump vai ganhar".

Uma das fórmulas de resistência ao candidato republicano tem sido o registo eleitoral, até agora mais baixo entre os hispânicos do que noutras minorias. E Orraca, que foi secretário da Educação e Cultura da província da Baja Califórnia, até dá o exemplo da filha, que vive nos Estados Unidos e é casada com um americano: "Um dia ligou-me a dizer que afinal tinha tratado da naturalização. Ela não queria ser cidadã americana, mas avançou só para poder votar contra Trump. Acha que ele é um incapaz."

Segundo um português de San Diego, os mexicanos até já brincam com Donald Trump e a ideia do muro. Dizem que se o republicano ganhar vai demorar tanto tempo a tapar a fronteira que, quando acabar, esta vai estar cheia de túneis. Humor mexicano, mensagem aos americanos.

O DN viajou a convite da FLAD

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