António Costa. Os amigos tão ao longe...

Nas labaredas da Operação <em>Influencer</em>, António Costa queimou uma amizade de longa data com Diogo Lacerda Machado. Foi o mais público dos frequentes cortes com colaboradores que lhe eram muito chegados. O primeiro-ministro demissionário já disse que não tem amigos. Costa, a pessoa, tem cada vez menos.
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Naquele sábado, à hora dos telejornais, um António Costa em cores cinzentas aparece na residência oficial de São Bento para uma surpreendente declaração ao país. É a 11 de novembro, quatro dias depois de ter apresentado a demissão ao Presidente da República na sequência das buscas policiais da Operação Influencer, que investiga crimes contra o Estado na esfera do Governo. Muitos vão entender a declaração como uma interferência indireta na Justiça, uma tentativa de condicionar o curso do processo. E logo da parte de quem sempre arrumou qualquer problema judicial com o célebre mantra "à política o que é da política, à justiça o que é da justiça".

Daquela longa intervenção do primeiro-ministro demissionário - sob o olhar próximo da mulher, Fernanda Tadeu, que ali assume um visual combativo de calças de ganga e blazer branco, e chega a sentar-se no chão a curta distância do púlpito, sobre um tapete geométrico com motivos de Maria Keil, como que humildemente aos pés do grande líder - emerge uma outra nota menos política. Num ápice, Costa descarta-se de dois amigos.

O primeiro é o economista Vítor Escária, seu chefe de gabinete desde agosto de 2020 e um dos arguidos da Operação Influencer. Foi também conselheiro económico do Governo entre 2015 e 2017, até que oficialmente se afastou devido ao escândalo da oferta a membros do Executivo de viagens a Paris para verem jogos do Euro2016.

"A apreensão de envelopes com dinheiro no gabinete de uma pessoa que escolhi para comigo trabalhar, mais do que me magoar pela confiança traída, envergonha-me perante os portugueses", diz o chefe do Governo naquele sábado, referindo-se aos 75.800 euros que a PSP e o Ministério Público encontraram nas buscas ao gabinete de Vítor Escária - que sai exonerado.

O segundo desamigado é o advogado e lobista Diogo Lacerda Machado. "Há muitos anos que não colabora neste gabinete e não tinha qualquer mandato da minha parte para fazer o que quer que seja neste caso", alega Costa, apesar "muitos anos" ser uma expressão ambígua, pois a colaboração terá terminado em 2017, quando Lacerda Machado passou a administrador não-executivo da TAP, onde se manteve até 2021 como representante do Estado na TAP, ou seja, respondendo ao Governo. Remata Costa: "Apesar de, num momento de infelicidade, ter dito que ele era o meu melhor amigo, a realidade é que um primeiro-ministro não tem amigos". Curiosamente, como entretanto veio recordar o historiador Rui Ramos, Salazar disse algo idêntico em 1958: "Não sou amigo de ninguém, não posso ter amigos", frase de uma conversa privada com o então ministro Marcello Caetano.

Marques Mendes assiste pela televisão e logo cria uma narrativa. No dia seguinte à declaração de Costa, o comentador social-democrata aproveita o tempo de antena na SIC para dizer que aquele discurso foi "muito feio do ponto de vista político, ético e moral". Afirma sem contemplações que o primeiro-ministro "usou as pessoas enquanto lhe deu jeito" e "agora que entraram em desgraça, descartou-as, deixou-as cair".

Quem conhece António Costa nota-lhe um "pragmatismo citadino", que o leva a agir com astúcia perante a toda a contrariedade. Confirmam que é pessoa de súbitos cortes a frio, até com os mais íntimos, em caso de divergências políticas insanáveis ou se estiver em causa o seu futuro pessoal, dos cargos que exerce, do Partido Socialista. Quando precisa, Costa cancela. "Alguns amigos acabam por se sentir usados", testemunha um antigo colaborador, que pede anonimato por não querer surgir em público como agravado.

Aos 62 anos - e com "grande probabilidade" de não voltar a exercer cargos públicos, como já admitiu -, é evidente que o ainda chefe do Governo se está a tornar um homem só. Tanto que depois de afirmar a 11 de novembro que "um primeiro-ministro não tem amigos" acrescentou este aparente lamento na segunda pessoa: "E quanto mais tempo exerce, menos amigos tem".

A seguir ao 25 de Abril, nos seus tempos do Liceu Passos Manuel, o filho da jornalista Maria Antónia Palla e do escritor e militante comunista Orlando Costa trava amizade com colegas que serão futuros dirigentes partidários. Miguel Portas (1958-2012), Manuel Monteiro, Pedro Farmhouse e Jorge Rato são alguns exemplos. Fernanda Tadeu, com quem Costa casa em julho de 1987, também ali estuda. E já é próxima do futuro marido. "A mulher pela qual o António teve de se bater", como em 2015 contaria à revista "Visão" o amigo comum Diogo Lacerda Machado, padrinho de casamento.

Será porém na Faculdade de Direito de Lisboa, onde entra em 1981 para se licenciar em Ciências Jurídico-Políticas, que António Luís Santos da Costa cria sólidas relações com nomes que mais tarde o secundam nas esferas do poder. Estes amigos de faculdade formam um grupo de base partidária, composto por membros ou simpatizantes do PS e a que muitos chamam "Projeto T", a remeter para a letra que em certa altura lhes calhou em sorte na candidatura à Associação Académica. O "Projeto T" dura cerca de cinco anos, o tempo de uma licenciatura, e inclui dezenas de estudantes de Direito, como Vitalino Canas e José Apolinário, que vão dar cartas na política. Todos têm como professor Marcelo Rebelo de Sousa, a quem acintosamente chamam "lacrau".

A robusta autoestima de Costa faz dele pedra angular do grupo, fruto até da experiência que acumula na Juventude Socialista e como deputado à Assembleia Municipal de Lisboa, lugar que conquista em 1983. Destacam-se sete companheiros de então. Nada menos que Eduardo Cabrita, Pedro Siza Vieira, Jorge Costa Oliveira, Diogo Lacerda Machado, Jorge Gonçalves e Armando Rafael - os mais próximos do futuro primeiro-ministro, apesar de diferenças de idade.

Armando Rafael, que chegou a redator principal do DN, vai estar como chefe de gabinete de Costa no Ministério da Justiça e depois na Câmara de Lisboa. Morre subitamente no gabinete de trabalho em 2007, aos 45 anos, deixando viúva a fotojornalista Clara Azevedo, que desde 2016 é fotógrafa oficial do ainda primeiro-ministro.

O advogado Jorge Gonçalves, ou Jorge Salvador Gonçalves, também foi jornalista do DN. É desde 2016 sócio da sucursal portuguesa da sociedade espanhola de advogados Garrigues, uma das maiores a nível europeu. Especialista em imobiliário e urbanismo. Depois da Faculdade de Direito, foi assessor jurídico do presidente da Câmara de Lisboa Jorge Sampaio, de 1990 a 1995, tendo seguido com Sampaio para a Presidência da República, como consultor da Casa Civil até 2001. Associa-se entre 2012 e 2016 ao escritório Jardim, Sampaio, Magalhães e Silva & Associados. Quando Costa lidera o seu primeiro Governo, o amigo Jorge Salvador Gonçalves é eleito pela Assembleia da República, por indicação do PS, como vogal do Conselho Superior da Magistratura, o órgão disciplinar dos juízes.

Pedro Siza Vieira, Diogo Lacerda Machado e Eduardo Cabrita são desde cedo apadrinhados por Costa. E nisto tem um papel o mediático advogado Magalhães e Silva - aliás, defensor de António Costa no recente processo por difamação contra o ex-governador do Banco de Portugal, Carlos Costa, e advogado de Diogo Lacerda Machado na Operação Influencer. Quando Magalhães e Silva é nomeado para secretário de Estado da Justiça do Governo de Macau, em 1988, pede a Costa que lhe indique "gente nova e sem vícios" para levar consigo.

Conhecem-se desde pelo menos meados da década, porque o recém-licenciado António Costa fez estágio no escritório lisboeta do tio Jorge Santos - o mesmo escritório de Jorge Sampaio, Vera Jardim e Magalhães e Silva. Costa não quer ir tratar de questões jurídicas relacionadas com a transição de Macau para a China, mas sugere três nomes: Pedro, Diogo e Eduardo. Agosto de 1988. Os dois primeiros ficam no território por pouco mais de um ano, Cabrita mantém-se até meados dos anos 90.

A intimidade entre Costa e Diogo Lacerda Machado, que os amigos sempre trataram apenas por Diogo Machado, é tão antiga e funda que nas vésperas do casamento com Fernanda Tadeu ambos andaram juntos à procura de casa na zona de Carnide e acabam vizinhos nuns andares da Câmara que estavam a concurso. Muito mais tarde, no fim da década de 90, Lacerda Machado torna-se um dos "homens de Costa" quando este é ministro da Justiça de António Guterres. Vai a secretário de Estado da Justiça até 2002. Precisamente o mesmo período em que Eduardo Cabrita está como secretário de Estado adjunto também no ministério de Costa.

Entretanto, nos escombros do "caso Casa Pia", o PS ganha novo líder. O "animal feroz" José Sócrates dá ao partido a primeira maioria absoluta de sempre, nas Legislativas de 2005. Costa transita para ministro da Administração Interna. Lacerda é então advogado da sociedade Barrocas & Sarmento Neves e torna-se intermediário da TAP, ou seja, do Governo, na compra à Varig de uma unidade de manutenção e engenharia aérea no Brasil. O negócio concretiza-se e vai revelar-se ruinoso para a companhia aérea e para os contribuintes, com prejuízos que podem ter rondado mil milhões de euros.

Finalmente, em 2015, Costa sobe a primeiro-ministro e Lacerda volta a ser bafejado pela sorte. É convidado a integrar o executivo, mas declina por "motivos pessoais". Os holofotes da política ativa não são para ele. É antes chamado por Costa para tratar de negociações sensíveis: o caso dos lesados do BES e as reuniões no BPI entre a empresária angolana Isabel dos Santos e os espanhóis do La Caixa. Lacerda passa também a assessor informal do Governo na recompra da TAP - um facilitador com mandato, mas sem contrato, o que motiva críticas.

"Não há contrato, porque não tem atuado a título profissional. Tem atuado "pro bono" como representante pessoal do primeiro-ministro", alega o Governo. Porém o primeiro-ministro cede. A 10 de abril de 2016 em entrevista ao DN e à TSF vem dizer que assinou contrato com Lacerda (dois mil euros por mês, sabe-se mais tarde).

Aquela entrevista será marcante. Na mesma ocasião Costa profere a famosa frase: "É o meu melhor amigo há muitos anos". E acrescenta: "Continuará a trabalhar comigo e a apoiar-me em diferentes dossiers onde a sua "expertise" negocial tem ajudado".

Numa passagem que hoje ressoa com especial ironia, Costa resume: "Tem um jeito nato para procurar sentar as pessoas à mesa, para procurar encontrar soluções, para servir de mediador, para servir de conciliador, e tem sido bastante apreciado não só pelo Estado mas também pelos diferentes intervenientes". No ano seguinte, em novembro de 2017, Lacerda Machado devolve numa conferência em Macau os elogios ao colega de faculdade. Diz que têm uma amizade "profunda, antiga e recíproca".

Descrito como um "apaixonado pela aviação", Larcerda chega a administrador não-executivo da TAP, entre junho de 2017 e abril de 2021, período em que tem fortes divergências com o então ministro das Infraestruturas, Pedro Nuno Santos, quanto à estratégia para a transportadora aérea, relatou o Expresso à época. É Pedro Marques, ministro do Planeamento e das Infraestruturas, quem assina a nomeação de Lacerda, sobre a qual se vê obrigado a declarar no Parlamento que não houvera "absolutamente nenhuma pressão do primeiro-ministro".

Posto isto, quando a "Operação Influencer" estoura na praça pública, poderia Costa ter assumido outra posição para com Diogo Lacerda Machado e Vítor Escária? A 11 de novembro, quando o primeiro-ministro fala ao país, estão ambos detidos por suspeitas de tráfico de influência, corrupção e prevaricação (ambos sairiam dias depois em liberdade, apenas indiciados por tráfico de influência). O próprio chefe do Governo está já a ser investigado pelo Supremo Tribunal de Justiça.

Poderia ter feito outra coisa que não cortar em público com os dois companheiros?

Há quem defenda que sim. O silêncio como escolha leal: não censurar nem defender, esperar que o pó assentasse, evitando deixar cair aqueles com quem trabalhava e tinha relações afetivas de longa data. Mas Costa não quis esperar. Terá receado que começassem a compará-lo a Sócrates, no que a problemas com a Justiça diz respeito. O corte foi pela raiz.

Jorge Costa Oliveira, outro dos elementos do "Projeto J" da Faculdade de Direito, começa cedo na política e cedo também decide sair. Aos 25 anos, acabado o curso, serve como adjunto do secretário de Estado para os Assuntos Parlamentares do Governo do Bloco Central liderado por Mário Soares, entre 1984 e 85. Depois passa mais de duas décadas em Macau a trabalhar como jurista, embora distante do trio Pedro Siza Vieira, Diogo Lacerda Machado e Eduardo Cabrita. Mas muito ligado a Costa. Sempre que vem a Portugal, visita-o na sua casa de Fontanelas, em Sintra. Só muito mais tarde, após anos a declinar convites, entra numa equipa governativa: secretário de Estado da Internacionalização. É em 2015, no Governo da "Geringonça".

Depende de Augusto Santos Silva, ministro dos Negócios Estrangeiros, e cabe-lhe o dossier da internacionalização, com a tutela da Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal. O mandato vai ser curto. Em maio de 2016 enfrenta uma barragem de críticas por contratar para o seu gabinete Francisco Lacerda Machado (filho de Diogo Lacerda Machado, que já colabora informalmente como assessor do Governo). E em julho de 2017 vê-se envolvido no mesmo escândalo de Vítor Escária: as viagens pagas pela Galp a governantes para assistirem em França a jogos da Selecção Portuguesa no Euro2016.

Pede para ser exonerado e é constituído arguido num inquérito do Ministério Público ao presumível recebimento indevido de vantagem. No verão de 2020, o "Galpgate" é arquivado com o pagamento de uma injunção ao Estado pelos principais arguidos: Jorge Costa Oliveira e o também secretário de Estado Fernando Rocha Andrade (que morreu no ano passado), mais o assessor económico do primeiro-ministro Vítor Escária e a mulher deste, Susana Escária, que trabalha à data dos factos no gabinete do secretário de Estado João Vasconcelos (também ele envolvido no caso, mas falecido em 2019). Não sai do Governo magoado com o primeiro-ministro, mas a verdade é que nunca mais voltaram a encontrar-se.

Jorge Costa Oliveira, que é colunista do DN e atualmente trabalha como consultor financeiro com ligações ao Oriente, também está indiciado na Operação Influencer, por suspeitas de que tenha sido informalmente contratado em 2018 para "pressionar ou influenciar" o Governo a atribuir à empresa LusoRecursos a exploração de lítio em Montalegre por pelo menos 20 anos. De facto, o então secretário de Estado da Energia, João Galamba, dá a exploração à LusoRecursos em 2019, ainda que alegadamente a empresa só tivesse sido formalizada três dias antes da assinatura do contrato.

Com Pedro Siza Vieira dá-se um corte feito de mágoa. O ex-governante era visita de casa de Costa - e desde o ano passado já não é. Eis os factos que conduziram ao corte. Siza Vieira entra no Executivo em outubro de 2017, vindo da sociedade de advogados Linklaters (atualmente está na PLMJ). Vai a ministro adjunto do primeiro-ministro, depois ministro da Economia e da Transição Digital. Nos primeiros tempos enfrenta críticas por ter criado uma empresa imobiliária, com a sua mulher, no dia anterior à tomada de posse. Costa sai em sua defesa: "Ninguém está livre de lapsos".

Por muito tempo, Siza é o número dois do Governo, a pessoa com quem Costa passa mais tempo ao telefone e em reuniões. Mas a forma como gere dois "dossiers" complicados, o do Banco de Fomento e o da Efacec, terão criado dúvidas ao chefe. Quando Costa ganha as eleições de janeiro de 2022 chama Siza e diz-lhe que já não contará com ele no novo elenco governativo. A conversa é azeda. O ministro sai pela porta pequena e grava um vídeo de despedida para as redes sociais, evitando qualquer referência a Costa.

Desde então sucedem-se intervenções contundentes do ex-governante. Contra a "redução transversal" do IRC, contra a gestão política da TAP, contra remodelações parcelares feitas no Governo. A mais forte das críticas dirigiu-se à entrevista do primeiro-ministro à revista "Visão", em dezembro do ano passado: aquela em que Costa fazia capa sob a citação: "Vão ser quatro anos, habituem-se" (título que ele depois considerou descontextualizado, o que a revista rejeitou). Siza dispara: "É uma entrevista de alguém que está completamente instalado, dá uma sensação de desconforto a quem lê". Costa reage sem nomear o amigo desavindo: "Não me chamem arrogante. Não fui contratado para agradar ou apaparicar os comentadores".

Com Eduardo Cabrita, o afastamento teve seis penosos meses de gestação. Continuam a falar-se, embora se tenha criado uma distância. E a mulher de Cabrita tomou-lhe as dores. Ana Paula Vitorino - que hoje preside à Autoridade da Mobilidade e dos Transportes, depois de ter sido ministra do Mar no primeiro Governo de Costa - nunca esteve no círculo íntimo do primeiro-ministro, mas por interposto marido tinha certa proximidade a Costa. Também ela está hoje muito fria com o antigo chefe.

O atropelamento mortal na A6 colheu-lhes a amizade. Cabrita era então ministro da Administração Interna, com entrada em 2017, depois de dois anos como ministro adjunto. No fatídico dia de 18 de junho de 2021 faz uma deslocação oficial a Portalegre e dirige-se a Lisboa quando na zona de Évora, junto ao separador central da autoestrada, o carro oficial do Ministério, conduzido por um motorista, atropela Nuno Santos, um trabalhador da manutenção ao serviço da concessionária Brisa. Homicídio por negligência, por omissão, condução perigosa? A oposição passa meses a criticar a alegada insensibilidade de Cabrita, que se apresenta como mero passageiro e atira responsabilidades para o motorista, Marco Pontes.

Costa segura o ministro contra tudo e contra todos. Cabrita terá pedido para sair mais que uma vez, esbarrando sempre na opinião do líder do Governo de que o mandato é para levar até ao fim. O que muitos veem como uma teimosia do chefe do Governo é uma provação para Cabrita, que nunca disso dá nota pública. Cilindram-no diariamente, por vezes em tom de chacota, e não só nas redes sociais. Costa mantém-se intransigente e politicamente protegido. O escudo Cabrita aguenta toda a pancada.

Em dezembro de 2021, conhecido o despacho de acusação que inculpa o motorista por homicídio por negligência, Cabrita volta a clamar inocência e sugere atabalhoadamente em declarações à imprensa que a vítima mortal teria tido responsabilidades no acidente. Costa ouve e fica desagradado. Estamos a dois meses das Legislativas antecipadas. Costa em Leixões e Cabrita entre Lagos e Lisboa. À distância, o chefe propõe a exoneração e Cabrita anui, relatou então a CNN Portugal. O ministro demissionário dirá em público que sai a seu pedido e Costa confirma: "Mandou-me uma mensagem a pedir a exoneração e eu disse "sim"".

Numa declaração final, Cabrita ainda defende o amigo de sempre. Fala em "aproveitamento político absolutamente intolerável" do caso do atropelamento, o que está a "penalizar a ação" do Governo, do primeiro-ministro e do Partido Socialista. Mas a ferida já está em carne viva. Tantos meses de pressão política e mediática e logo agora, a dois meses das eleições, é que o mandato morre na praia com a frieza de um telefonema. Eduardo Cabrita volta a ser deputado e renuncia. Não é candidato nas Legislativas de janeiro de 2022.

Os que são próximos do ainda primeiro-ministro retratam-no como determinado e teimoso. Dizem que é frio e analítico, embora por vezes expresse emoções de forma desabrida, com esporádicas fúrias em privado, nas respostas à imprensa, nas intervenções parlamentares. "Quando é brusco, arrepende-se a seguir, mas pelo menos diz tudo o que lhe vai na cabeça", comenta uma fonte que saiu da equipa de Costa há alguns anos. O que o afaste do caminho que traça é sempre passível de limpeza imediata. E isso explicará o cancelamento de amizades.

"Claro que que os cortes lhe deixam um certo pesar, mas não creio que lhe pese na consciência", ouve-se a uma pessoa que trabalhou de perto com Costa e que prefere não ser identificada por estar longe da vida pública. "É abrasivo nas relações e ao fim de tantos anos como primeiro-ministro deixou-se tomar por alguma arrogância", analisa um antigo membro do Governo. O resultado é bem capaz de ser a solidão.

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