Angra do Heroísmo acredita no cinema português

O DN esteve nos Açores, na Terceira no Cine-Atlântico, a Mostra de Cinema Português. Termina este domingo a oitava edição deste caso de amor de Angra do Heroísmo com o cinema português. Beatriz Batarda foi uma das convidadas de uma celebração que acaba por ser um caso de serviço público que leva os filmes portugueses que não chegam normalmente à bela ilha açoreana.
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Os Açores merecem mais cinema, ponto final. Se é verdade que há muitos festivais de cinema em Portugal, continua a haver um défícit nas ilhas. Na Terceira, em Angra do Heroísmo, há quem queira mudar o paradigma, neste caso o Cineclube local, um grupo de cinéfilos liderado por Jorge Bruno. Pelo oitavo ano, o Recreio dos Artistas recebeu a Mostra de Cinema Atlântico, um ciclo de cinema português composto por longas-metragens inéditas na ilha e com a presença de alguns atores. Este ano, um conjunto de filmes que permitiu um mote intitulado Retratos de Família.

Além da passagem de Alma Viva, de Cristèle Alves Meira, Vadio, de Simão Cayatte, Great Yarmouth- Provisional Figures, de Marco Martins, e o díptico de Canijo, Mal Viver/Viver Mal, esta edição contou ainda com uma série de conversas com convidados como os atores Rubén Simões, Marcus André, Beatriz Batarda e Manuel Baptista, da Loulé Film Office.

Jorge Bruno, o diretor desta mostra, contou ao DN, antes de uma sessão com a presença de Beatriz Batarda, a génese deste Cine-Atlântico: "Há cerca de nove anos a nossa ideia era outra, fazer o Festival Internacional do Mar, Ilhas, Viagens e Aventuras. Uma competição que já estava com o projeto delineado com uma arquitetura própria concebida pelo programador José Vieira Mendes Este Cine-Atlântico internacional foi apresentado ao Governo Regional que nunca entendeu as virtudes de um festival como este. É incrível, sobretudo se pensarmos que se há algum festival que faz sentido nas ilhas seria este... Um festival que poderia ter uma relação privilegiada com os EUA, país que está mesmo aqui ao lado, e que poderia ser uma boa forma de captação de turismo e de realizadores e produtores que eventualmente trariam produções de cinema aqui para a ilha".

Num dos debates, Jorge Bruno e o programador José Vieira Mendes foram os moderadores e discutiram a questão do sucesso mediático de Rabo de Peixe, do açoriano Augusto Fraga, tendo havido um mote acerca das possibilidade enormes desta região em servir como destino de mais filmagens internacionais, sobretudo depois de se saber de alguns tours em São Miguel subordinados à série da Netflix. Salientou-se também a força da paisagem da Terceira, região que pode servir para diversas possibilidades de décor. Começa-se a perceber que Rabo de Peixe pode ser o rastilho de colocar os Açores como destino de cinema de moda. Manuel Baptista deu o exemplo de como Loulé nos últimos anos investiu nesta aposta do audiovisual, realçando que antes do retorno financeiro está uma crença em conquistar uma prática de profissionalismo num setor que já está a crescer.

Jorge Bruno vê esta Mostra ainda com potencial de crescimento, mesmo com as casas compostas que este ano vimos: "Temos uma candidatura de apoio ao Cine-Atlântico aceite pelo ICA há um ano, mas ainda não temos respostas relativas a montantes - como é possível colocar no terreno atividades destas quando o Governo não dá uma resposta? Não faz sentido... Gostávamos de crescer para conseguir buscar mais um ou dois filmes e atingir uma descentralização noutras ilhas e já há apelos em relação a isto. Era bom também que se começasse a pensar que a produção de cinema nos Açores pudesse vir a ser uma linha para se começar a criar riqueza e desenvolvimento".

Interessante neste fim de semana cinéfilo em Angra foi também uma veia de formação de públicos. Foram mostradas curtas-metragens aos alunos da Escola Tomás Borba. Filmes pensados para um público em idade para ser seduzido a fim de se compreender a arte cinematográfica além da mera função de entretenimento: da imagem real, com Corpos Cintilantes, de Inês Teixeira, O Filme Feliz, de Duarte Coimbra, à animação com Ice Merchants, de João Gonzalez, e O Homem do Lixo, de Laura Gonçalves. Também aqui, o melhor do melhor do cinema nacional.

Após sessão seguida de conversa com o público sentida e honesta de Greath Yarmouth- Provisional Figures, a sua protagonista, Beatriz Batarda era uma atriz feliz neste seu seu regresso à Terceira: "foi maravilhoso. Maravilhoso sentir que o cinema está vivo para além de Lisboa e do Porto, cidades que monopolizam os centros culturais. É muito bom conseguir acrescentar alguma coisa a esta comunidade cinéfila". Coincidência cósmica, Beatriz esteve em Angra com mais dois filmes: Viver Mal e Mal Viver: "isso é coisa muito feliz, sobretudo porque não se filma assim tanto. Estou numa fase em que me sinto mais preparada para fazer cinema, sobretudo agora que já não tenho aquela cara laroca fresca! Enfim, agora é que me sinto melhor - percebo o que estou a fazer! Venham as olheiras ou os papos!".

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