Angola às compras em Portugal

Os ricos de Angola estão entre os clientes mais assíduos das lojas de artigos de luxo lisboetas. Empresários, homens e mulheres da alta finança ou políticos no activo fazem do apelo das grandes marcas o pretexto para visitas de consumo de alto nível. <br />
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É JÁ UM RITUAL. Mês sim, mês não, Baltasar V. (nome fictício) voa de Luanda num jacto particular e aterra na Portela para um fim-de-semana de fruição. De bagagem traz uma mala Pegase Louis Vuitton, cartões de crédito Platina e Black Centurion, também conhecido por «Black Card» (de plafond ilimitado) e os endereços das lojas mais caras de Lisboa.
O único fito de Baltasar é ir às compras, ou se for dia de jogo na Luz ver o Benfica do seu lugar cativo. Depois, se os encarnados conhecerem a vitória, o mais certo é ir a uma party em Cascais, acompanhado de vinhos Barca Velha e charutos Cohiba Esplendidos. Tem negócios em Portugal, mas esses ficam para outras viagens, em que a compra de objectos distintos dá lugar à aquisição de propriedades, empresas ou estabelecimentos comerciais. Estas, como a que o trouxe a Lisboa por estes dias de Outono, são de «puro relax», como nos explica numa esplanada do Chiado, ostentando o seu Rolex de ouro e brilhantes (o eleito dos angolanos) e uma camisola Dolce & Gabbana, de logótipo garrido.
Baltasar é um homem de meia-idade com a pele lustrosa de quem cuida bem de si e o exibe satisfeito. Fala livremente, triunfalmente, e só não aceita posar para o retrato de assumido gastador ou deixa citar o seu nome verdadeiro por temer ser mal interpretado. Durante a conversa com a NS' garante que não faltam angolanos como ele, de sortidos caros, a fazerem de Lisboa oásis do luxo. «Há quem volte de veleiro para Luanda», diz, à boleia de uma estrepitosa gargalhada.
A rota consumista passa pelo Chiado, a Baixa e a Avenida da Liberdade, em lojas como Louis Vuitton, Prada, Boss e Hermès, ou pelas salas VIP dos joalheiros Torres e David Rosas. E se lhe perguntam se é facto que, para a demanda da griffe, os angolanos preferem Lisboa a Paris ou Nova Iorque porque não se ajeitam nas línguas, Baltasar reconhece, sempre bem-humorado, que «o angolano é de ouvido duro». O apelo de Lisboa é sobretudo prosaico e explica-se assim: «Tem os melhores produtos que ainda não há em Angola (relógios, fatos, vestidos, sapatos...). E o preço, quando é de coisas que temos lá, aqui tem vezes que é metade.» Do memorial de fins-de-semana lúdicos não sabe precisar o máximo que gastou de uma só vez, mas sublinha que é aficionado de relógios, gastronomia e vinho.

Marca à vista
Na Avenida da Liberdade, o responsável de uma das principais marcas de moda masculina reconhece na sua clientela uma parte substancial de «angolanos com meios». De resto, a principal característica destes clientes é «não se preocuparem com os preços». Quanto às suas intenções de compra, «andam à procura do melhor e de peças com o logo visível».
Os pagamentos fazem-se hoje por transferência bancária ou com cartões de crédito, e não em dinheiro vivo, como chegou a ser prática quando não havia paridade nos sistemas bancários dos dois países. «De certa maneira, embora os últimos meses tenham sido de maior contenção, são responsáveis pela boa saúde do negócio. As receitas, em certos casos, já chegam aos trinta por cento», conclui.
Após uma ronda pelas ruas e avenidas do comércio de luxo de Lisboa, a pedra-de-toque é a contenção nas declarações. Embora todos os comerciantes reconheçam (timidamente) a importância do cliente angolano no seu volume de negócios, preferem não dar a cara nem apontar nomes, receosos de ferir susceptibilidades.
«Da única vez que falei à imprensa de clientes angolanos sem ser em off recebi alguns comentários que não caíram bem», desabafa o responsável por uma loja de referência de Lisboa. Isso não invalida que fale abertamente do seu perfil. «Tanto há clientes que fecham a loja e saem submersos em sacos como há outros de grande discrição que entram, escolhem e depois vem alguém de confiança buscar as compras ou mandam entregar em casa ou no hotel. A maioria tem um gosto muito exigente e apurado e sabe exactamente ao que vem. Nenhum olha a preços e paga o que tiver de ser pelo objecto pretendido. De um modo geral há tantos compradores homens como mulheres. No caso masculino, a maioria são empresários, ex-militares ou membros do governo. Na hora de escolher, preferem fatos e adereços das marcas Hugo Boss, Prada e Ermenegildo Zegna, relógios Frank Müller, Patek Phillipe ou Rolex e malas Louis Vuitton.»

Discreto vs. ostensivo
Os estilistas Manuel Alves e José Manuel Gonçalves, que contam entre a sua ficha de clientes figuras da alta sociedade angolana, esclarecem que «nesta tipologia de clientes exige-se que sejam vistos segundo uma óptica de consumidor normal. O feedback que temos tido leva-nos a considerar que não querem ser vistos segundo estes parâmetros e, por respeito a isso, esta será a melhor informação que podemos dar».
Embora não entrem em pormenores, para a dupla de estilistas «a realidade deste mercado é bem diferente do que dizem a seu respeito. São pessoas com um conhecimento e exigências face à compra exactamente iguais ao mercado deste target». Manuela Saldanha, responsável pela marca centenária Loja das Meias, afina pelo mesmo diapasão: «O cliente angolano é discreto e muito informado. Sabe bem o que procura e é conhecedor de moda. Está disposto a pagar o valor justo de cada artigo.» Sobre a importância exacta na facturação, Manuela Saldanha não adianta valores mas assume que «tem vários clientes angolanos já fidelizados e outros novos que vão aparecendo». A relação estreita com os clientes angolanos levou já a Loja das Meias a considerar a aposta num espaço próprio em Luanda. «Existe um plano de expansão que neste momento está a ser equacionado», diz a responsável da marca.
António Moura, representante em Portugal das marcas de joalharia de luxo Chaumet, Dior e H. Stern, tem uma ideia diferente do comprador angolano: «É arriscado generalizar, mas diria que a maioria são clientes que têm uma apetência por peças com impacte visual. No meu caso, falo de peças de ouro e diamantes, mas pode ser a ostentação da marca do fato ou da mala de viagem.»
O empresário recorda o caso mais flagrante que testemunhou, de uma senhora angolana que comprou uma pulseira por 120 mil euros e quis sair logo com ela no braço. «Os angolanos são muito impulsivos e espontâneos. Sabem gozar a vida e o dinheiro que têm», diz. Apesar de o cliente angolano dar mais nas vistas, Moura aponta os brasileiros como os actuais campeões do consumo nas lojas portuguesas. «O real está muito forte e os brasileiros com poder de compra deixaram de fazer de Lisboa um lugar de escala. Aqui já encontram a excelência nos hotéis, nos restaurantes e nas lojas. Não precisam de seguir viagem para Paris ou Milão.» Mais: «De alguma maneira têm sido os consumidores estrangeiros a dar um impulso aos negócios do luxo, que também viveram momentos de pânico, mesmo entre os clientes com mais recursos financeiros.»
António Moura refere ainda que o mês de Outubro foi catastrófico para os portugueses, que tiveram «um apagão na predisposição para comprar, mergulhados na psicose da novela do Orçamento de Estado». Aponta então que Lisboa, mais do que o Porto, se salvou do drama graças aos «turistas, muitos deles angolanos, brasileiros e chineses, e não necessariamente todos eles milionários».
Para Moura é falsa a ideia de que são meia dúzia de pessoas com muitos milhões que fazem andar o negócio do luxo. «Há muita gente que, sem ser rica, vive acima da média, também faz compras caras e, apesar dos sobressaltos da crise, continua a gastar. Não precisamos de ser todos Onassis para termos coisas boas. E depois o mundo não fechou para balanço. É preciso pensar como os chineses e ver onde estão as oportunidades», resume.


Os números das compras dos turistas angolanos

Um estudo do Banco de Portugal revela que as receitas geradas por visitas de turistas angolanos a Portugal (em que se incluem estadas, alimentação e compras) mais que duplicaram de 2008 para 2009, atingindo mais de 203,3 milhões de euros. No ranking dos mercados emissores de turistas, Angola ocupava, por regra, a 14.ª ou 15.ª posição, mas no ano passado subiu para a sétima.
A evolução é ainda mais significativa nos valores percentuais em relação ao total de estrangeiros. Se em 2005 os turistas angolanos representavam uma quota de 1,26 por cento do total de estrangeiros, os dados do Banco de Portugal mostram que em 2009 passaram a representar uma quota de 2,94 por cento, e nos três primeiros meses de 2010 subiram para 3,37 por cento.

Outros gastos de vulto

Num artigo recente, o jornalista angolano Alberto Sampaio apontava que «nem só de grandes negócios depende o actual processo de cruzamento de interesses entre Angola e Portugal. No que diz respeito aos investimentos angolanos em Portugal, os mesmos têm-se estendido, inclusive, aos investimentos pessoais. Começa a ser frequente o surgimento, na imprensa local, de anúncios propondo a potenciais investidores angolanos, entre outros exemplos, a aquisição de moradias, quintas e estabelecimentos comerciais em Portugal». Ou seja, o contributo dos investidores individuais angolanos para o crescimento da economia portuguesa (que remonta a meados dos anos oitenta, quando se deu início a um processo de acumulação por parte de sectores da sociedade angolana) deixou de ser um exclusivo da macroeconomia e passou a ser parte dos hábitos de consumo. No sentido inverso, o investimento em Luanda é igualmente significativo, mas ainda não tem uma expressão capaz de reter os grandes consumidores. Por enquanto, estão apenas projectados novos centros comerciais e fala-se na construção de uma avenida no eixo principal da cidade que possa receber as marcas luxuosas.

Entrevista

Ricardo Figueiredo
Director do Press Club e consultor da Bvlgari 

«Os clientes angolanos são inteerssantes para o mercado português»

Qual é o perfil do cliente angolano?
Sobretudo homens de negócios e pessoas do governo angolano ou a ele ligadas. São bem informadas, seguem as últimas tendências e gostam de marcas com qualidade.

É verdade que há chegadas regulares de jactos de Luanda com famílias inteiras para compras de fim-de-semana?
Muitas vezes fazem compras com a família. E muitas vezes compram para a família.

Porque optam por comprar em Lisboa e não em Paris ou Nova Iorque?
Existe uma elite que compra em Nova Iorque e em Paris mas, por várias razões, visitam mais vezes Lisboa. Optam por comprar em Lisboa por causa de negócios, por razões pessoais ou por terem familiares que aqui vivem. Temos uma oferta mais vasta e preços mais competitivos. Por exemplo, a mesma peça de roupa pode custar em Luanda o dobro do que em Lisboa.

Compram só em Lisboa ou também no Porto?
Sobretudo em Lisboa.


Procuram produtos personalizados ou «contentam-se» com o prêt-à-porter?
Certos clientes gostam do serviço taylor-made de certas lojas, mas compram também o prêt-à-porter de várias marcas, tanto de luxo como de outras cadeias de produtos mais acessíveis, que não encontram em Luanda.

Preferem produtos que tenham a etiqueta da marca à vista?
São clientes que gostam de produtos de qualidade e dos logótipos das marcas de luxo.

É possível quantificar a importância deste cliente no mercado nacional?
Os clientes angolanos são interessantes para o mercado português. No entanto, o mercado angolano não tem expressão relativamente, por exemplo, ao mercado chinês. Existem várias cidades na China com pessoas com poder de compra como em Luanda, mas é outra dimensão e outro crescimento económico. Basta ver os últimos números na Forbes para ver a quantidade de milionários que há na China. E os números não param de crescer. No Brasil, a classe média também não pára de crescer e por isso as marcas de luxo cada vez têm mais «excursionistas» brasileiros, pessoas que passam a adquirir um ou dois produtos de luxo por ano e que começam a viajar fora do Brasil. No mercado português, tenho clientes em que os compradores angolanos representam cerca de 15 por cento e outros em que os valores chegam aos trinta por cento do volume de vendas.

É o cliente estrangeiro mais relevante? 
É, pela quantidade e pelo preço das peças compradas. No entanto, o cliente brasileiro é também relevante para alguns dos vendedores para quem trabalho.

Quanto gasta em média numa única ida às compras?
Varia muito. Existem compradores com um poder de compra elevado que compram facilmente um relógio de ouro com brilhantes...

Que tipo de produtos procura?
Relógios, carteiras, sapatos, roupa com assinatura.

O mercado dos produtos de luxo é imune à crise?
O mercado de produtos de luxo não é imune à crise. Depende do tipo de produtos e de consumidores de que estamos a falar. Certos consumidores que compram um perfume ou uma garrafa de champanhe num supermercado estão de facto a comprar um produto de luxo mas são diferentes de outros consumidores que compram um Jaguar ou um Bentley. Em tempos de crise, a classe média é muito sensível, sobretudo as pessoas que vivem dos seus salários e que são «excursionistas» no mercado do luxo, isto é, que não compram normalmente produtos de luxo, mas que em determinadas alturas especiais, como um casamento ou a licenciatura de um filho, são capazes de adquirir um relógio ou um anel. Também a classe alta muitas vezes é afectada com descidas do valor de acções ou com a estagnação de determinados investimentos imobiliários. Muitas pessoas, apesar de não serem afectadas directamente, estão mais cuidadosas nas suas compras. Procuram sobretudo qualidade, durabilidade e conforto. O novo consumidor de produtos de luxo não compra só marcas de topo: mistura. Tanto compra a carteira mais desejada na Hermès como na Zara, como viaja na easyJet para ir passar férias em Gstaad. Tanto vai almoçar ao Ritz como a uma pizaria. Não se veste de A a Z numa só marca, é uma nova atitude.

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