São amigos há muitos anos, mas Domingos Teles, 73 anos, e Salvador Neto, 65, disputam a posse do melhor presépio de Natal do País. Ambos residem na pequena freguesia de Beire, concelho de Paredes, e todos os anos acrescentam figuras a presépios que já contam com mais de dez mil elementos e que estão abertos ao público que, garantem, chega de todo o lado..Um aposta na manufactura das suas próprias figuras, enquanto o outro prefere comprar muitas das imagens que expõe durante as viagens que faz ao estrangeiro. Certo é que os dois não vendem os seus presépios por dinheiro nenhum..À entrada de Beire, uma localidade com pouco mais de dois mil habitantes, avista-se de imediato uma placa a indicar "Presépio S. Luís". Placas semelhantes vão repetir-se um pouco por todo o lado, para guiar os visitantes até à casa de Domingos Moreira Teles, um reformado de 73 anos casado há 48 com Matilde Sousa. Os dois, juntamente com o filho José, de 32 anos, são, por esta altura, uma espécie de guias turísticos de uma das principais atracções do concelho. O 'Presépio S. Luís' arrasta todos os anos milhares de pessoas vindas da região do Vale do Sousa, mas também do resto do país.."Até emigrantes cá vêm. Este ano, veio cá um senhor emigrado no Brasil que já tinha cá estado com o pai. Desta vez, trouxe os filhos de 17 e 20 anos", conta Domingos Teles. Isto porque o "Presépio S. Luís" já existe há 23 anos, primeiro só numa garagem da casa da família e agora também no terraço. "Todos os anos tenho novidades e já ocupo uma área com cem metros quadrados para colocar mais de dez mil figuras", revela..O presépio começou a ser montado em Outubro pelo casal e dois dos seis filhos, e ficou concluído antes de dia 20, quando abriu ao público, que "já chegou a formar filas de quatro horas".."Tenho o presépio dividido por partes", explica o reformado. .Os visitantes começam por ver recriações de cenas bíblicas antes do nascimento de Jesus, que aparece numa segunda parte do presépio, onde é recriada a casa da sagrada família ou a fuga para o Egipto. Vários milagres, a última ceia ou o calvário de Jesus surgem depois, mas antes de uma outra parte dedicada, essencialmente, aos hábitos e costumes dos antepassados. "Aproveito para mostrar às crianças o que se fazia antigamente", justifica Domingos. Mas é este "desvio da Bíblia" que merece críticas do autor do outro presépio de Beire. "Sou amigo dele e reconheço que é habilidoso. Mas não é presépio nenhum. Não é uma representação bíblica", diz..Salvador Neto reclama, por isso, a posse "do único presépio do mundo que representa a vida pública de Cristo" e a fama da sua obra não fica atrás da do vizinho. "Comecei a montar o presépio na padaria dos meus pais, há 50 anos. Depois, comecei a fazê-lo na varanda da minha casa, em seguida passei para o jardim e, desde há dez anos, construí um pavilhão num terreno anexo para montá-lo", recorda. Hoje ocupa duzentos metros quadrados e, assegura Salvador Neto, representa efectivamente as diversas fases da vida de Cristo na terra. "Sou eu e mais três, quatro amigos que montamos tudo. Começamos a tratar disto no início deste mês", refere. Contrariamente ao de "S. Luís", situado a menos de três quilómetros, só foi possível visitar este presépio a partir de dia 25, mas as portas mantêm-se abertas até mais tarde. "Só encerramos no domingo seguinte ao dia de Reis", avisa..Domingos Teles sabe que gastou "muita horinha de trabalho", mas desconhece quanto investiu. Há 18 anos, ofereceram-lhe dois mil euros na moeda actual por uma igreja que não vendeu. Mais certezas tem Salvador Neto: "Já gastei mais de 300 mil euros ." Para isso muito contribuíram centenas de figuras compradas no estrangeiro. Salvador já recusou uma oferta choruda do Vaticano. "Eles queriam levar o meu presépio, porque fico sempre bem classificado no concurso que fazem anualmente", revela.