Nos últimos meses, a acumulação de lixo urbano nas ruas de Lisboa tornou-se uma notícia frequente. A situação chegou a tal ponto que grupos de populares, como no Bairro da Graça, se juntaram para limparem as ruas de forma voluntária. Este é um problema reconhecido pelo Executivo de Carlos Moedas e quanto ao qual oposição e ambientalistas não poupam críticas.."A produção de resíduos na cidade de Lisboa tem vindo a registar aumentos significativos e crescentes desde o desconfinamento, o que resulta do natural incremento e retoma económica da cidade e em que a procura turística tem especial importância", diz ao DN Ângelo Pereira, vereador que tutela a Higiene Urbana, sublinhando que a resposta dos Serviços Municipais se deparava com uma redução de recursos humanos "herdada do anterior mandato", mas que este Executivo já contratou 160 cantoneiros e 30 motoristas..Marta Leandro, vice-presidente da Quercus, sobre este tema é curta, mas dura, nas palavras. "A limpeza urbana está caótica, com lixo a acumular-se nas ruas, por falta de pessoal e gestão"..Já João Ferreira, vereador do PCP, diz que uma das maiores questões que hoje se coloca na cidade de Lisboa é precisamente a do Serviço de Higiene e Limpeza Urbanas, sobretudo no que toca à recolha do lixo. "Esta gestão prometia um plano estratégico de resíduos para o período de vigência do mandato, a começar em 2022 até 2027, um documento orientador que envolvesse a comunidade, os agentes, as empresas. Não sabemos o que é feito desse plano. Já estamos quase em outubro e aquilo que vemos é que não só não há esta linha de rumo estratégica, como a prática quotidiana aponta para a degradação, muito sentida pelas populações, das condições de recolha do lixo e, de um modo geral, da limpeza e higiene urbana da cidade.".Estes são motivos que levam o assunto a estar na ordem do dia nos últimos meses, acusa João Ferreira, e "relativamente ao qual tem sido patente a incapacidade, eu diria até confrangedora, desta gestão de responder a critérios básicos". "O que se lhes exige é que sejam capazes de manter condições mínimas de limpeza e higiene urbana e isso não está a acontecer", frisa..Sobre as situações limite que levaram grupos de moradores a organizarem limpezas voluntárias nos seus bairros, o vereador Ângelo Pereira afirma que "a Câmara Municipal de Lisboa reconhece e enaltece a importância das iniciativas da cidadania que permitem levantar o problema, sobretudo naquilo que consiste a sensibilização para a cidadania ativa"..Também em grande destaque tem estado a futura localização do novo aeroporto de Lisboa, com o presidente da autarquia a defender, ainda esta semana, que a futura estrutura aeroportuária tem de se manter perto da cidade. "O aeroporto de Lisboa é aeroporto internacional de Lisboa e, portanto, tem de estar na proximidade de Lisboa. (...) Não estou a medir quilómetros, estou a medir proximidade e essa proximidade é extremamente importante para o turismo em Lisboa", pediu na terça-feira Carlos Moedas, que, dias antes, já havia também dito que o Humberto Delgado poderia continuar, mas com tráfego diferente..Desejos que não são bem aceites pelos ambientalistas, que enumeram os muitos inconvenientes, em termos de poluição, que esta realidade traz para a cidade. "Lisboa tem graves problemas de poluição atmosférica, não só, mas também, porque tem o aeroporto praticamente dentro da cidade. Em termos de ruído e em termos de poluição do ar é um gravíssimo problema de Saúde Pública", diz Marta Leandro.."A Quercus não compreende por que é que o atual presidente não exige a saída do aeroporto, e o mais rapidamente possível, para um local alternativo, e que esse local alternativo seja identificado no âmbito de uma avaliação ambiental estratégica, mas que esta avaliação não inclua o Aeroporto Humberto Delgado", prossegue a vice-presidente da associação ambiental..João Ferreira apelida a questão do aeroporto de "um dos maiores constrangimentos à melhoria da qualidade ambiental da cidade, nomeadamente no que toca à qualidade do ar". "Aparentemente esta gestão e o atual presidente estão alinhados com a manutenção do aeroporto na Portela por muitos anos. Aliás, tem defendido até o reforço da capacidade, que é algo de inaceitável. Do ponto de vista ambiental significa degradar uma situação que é já, de si, insustentável", critica o vereador comunista..Em termos de políticas ambientais, uma das primeiras decisões do Executivo de Carlos Moedas foi a candidatura às 100 Cidades Inteligentes e Climaticamente Neutras no âmbito das Mission Cities da Comissão Europeia, uma candidatura bem-sucedida e que pressupõe que Lisboa atinja a neutralidade climática até 2030.."Esta é uma bandeira importante porque ela acaba por ser também o mote para um conjunto de medidas de natureza estrutural, outras conjuntural, que nós temos em prática", diz ao DN a diretora municipal do Ambiente, Catarina Freitas, referindo que a importância de ser uma das 100 Mission Cities prende-se ainda com o facto de estas cidades estarem mais bem posicionadas para obter financiamentos para a sua transição energética e climática..Outra medida diz respeito à iluminação pública, que representa 60% da energia total consumida pela autarquia, tendo este Executivo já avançado com a substituição de 16 500 pontos de luz, o equivalente a 23% de todo o sistema, pela tecnologia LED. Uma medida que vai permitir uma redução de dois milhões de euros por ano na fatura da eletricidade.."De um ponto de vista ambiental não há propriamente uma estratégia, já não digo que esteja a ser implementada, ela não é sequer conhecida. Lá ouvimos falar de vez em quando na poupança de energia, mas ouvimos falar sempre na mesma coisa, que é a substituição das lâmpadas todas. Convenhamos que isso é muito curto para uma política global e coerente de melhoria da qualidade ambiental da cidade, até para a mitigação e adaptação aos impactos das alterações climáticas", aponta o vereador comunista, lembrando que este foi um pelouro que Carlos Moedas decidiu tomar para si..Catarina Freitas contrapõe esta crítica enumerando mais medidas, como o projeto já anunciado da criação das Comunidades de Energia Renovável utilizando o potencial de Lisboa para a energia solar, a par do aumento da capacidade instalada de produção de energia fotovoltaica solar na cidade. Para isso, a autarquia irá converter a licença de produção de eletricidade de dois MW que possui e criar a primeira Comunidade de Energia Renovável, que servirá a zona de Carnide.."Na envolvente temos uma série de bairros de habitação social e parte desta energia produzida vai ser disponibilizada a custos muito atrativos a estes munícipes", explica ao DN. A diretora municipal do Ambiente realça ainda que todos os novos edifícios do programa Renda Acessível, mas também os que estão a ser remodelados, terão um melhor desempenho energético graças ao facto de serem totalmente elétricos..Na calha está também a criação de um Fundo Climático acessível aos lisboetas e que vai financiar medidas como a substituição de janelas ou a colocação de isolamento térmico ou sistemas solares térmicos. A grande diferença para o programa similar do governo é que, segundo Catarina Freitas, a autarquia dará o financiamento à cabeça e não só depois do investimento feito pelas pessoas e mediante a apresentação de faturas..O sistema de rega dos espaços verdes da cidade também é uma mudança implementada pelo atual Executivo, com a utilização de água tratada vinda das ETAR e deixando de se recorrer a água potável trazida de Castelo de Bode. O projeto avançou na primavera com a rega do Parque Tejo, permitindo uma poupança de 300 mil metros cúbicos de água potável por ano..Foi graças a este projeto, intitulado Parques e Jardins de Lisboa, o mesmo verde, a água é outra. Rega sustentável com água+, que a Câmara de Lisboa foi selecionada como finalista do prémio internacional C40 Cities Bloomberg Philantropies Awards na categoria de Unidos na Construção da Resiliência Climática. "Nós às vezes pensamos "vão usar água residual tratada". Isto parece uma coisa óbvia, mas não é nem aqui, nem em outros locais do mundo. E é justamente por isso que ele foi selecionado para finalista deste prémio, e estamos todos na expectativa de, em meados de outubro, ter outra boa notícia", refere Catarina Freitas..O DN questionou a vereação do Partido Socialista sobre as políticas ambientais do Executivo de Carlos Moedas, mas até ao fecho desta edição não recebeu nenhuma resposta às perguntas que colocou..ana.meireles@dn.pt.Ao longo da semana, o DN avaliou o estado da cidade de Lisboa, um ano após a eleição de Carlos Moedas para liderar a câmara. Todos os trabalhos estão disponíveis em www.dn.pt