Ambições luso-marroquinas

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Como é bem sabido, por culpa das Invasões Napoleónicas, Portugal teve o primeiro monarca na História a atravessar o Atlântico. E tanto faz considerar-se D. Maria I, velhinha e já louca, ou o príncipe regente, depois coroado D. João VI no Brasil. O que talvez seja menos conhecido é que foi também Portugal quem fez primeiro uma cidade inteira cruzar o oceano. Sim, aconteceu com Mazagão, originalmente situada na costa marroquina, e que em meados do século XVIII viu toda a sua população mudar-se com armas e bagagens para a Amazónia. Foram umas centenas de famílias portuguesas que fundaram logo Vila Nova de Mazagão, num projeto concebido pelo Marquês de Pombal.

Na sequência desse episódio, os então reinos de Portugal e de Marrocos - um cristão e o outro muçulmano - assinaram em 1774 um Tratado de Paz. Terminava assim a presença militar portuguesa no Norte de África, iniciada em 1415 com a conquista de Ceuta, cidade que no tempo dos Filipes passou para a Espanha. Um Tratado de Paz cujos 250 anos serão devidamente celebrados em 2024, como realçou em entrevista à agência noticiosa MAP Othmane Bahnini, embaixador de Marrocos em Lisboa.

Mais do que um longínquo acontecimento, o que se passou em 1774 permite que Portugal seja hoje visto de uma forma diferente de Espanha ou França, que ainda no início do século XX submeteram Marrocos a um regime de protetorado que só terminou em 1956. "No imaginário dos marroquinos a colonização portuguesa nunca foi uma colonização arrogante", afirmava há uns meses ao DN o sociólogo Driss Guerraoui, autor do livro Marocains et Portugais - Regards Croisés. Também a geografia, com as nossas costas a serem distantes o suficiente das marroquinas para impedir a chegada das famosas pateras, tem prevenido que o tema das migrações ilegais afete o relacionamento entre Lisboa e Rabat, mesmo que ocasionalmente cheguem ao Algarve barcos saídos de El Jadida, que é o atual nome da antiga Mazagão.

Tudo parece assim favorecer que a Reunião de Alto Nível que se realiza hoje em Lisboa inicie "uma nova fase nas relações entre os dois países e proporcione um forte impulso para a cooperação bilateral", como diz o embaixador Bahnini. Aliás, o primeiro-ministro, António Costa, que se encontrará com o seu homólogo marroquino, Aziz Akhannouch, fez declarações em tom semelhante à MAP: "Temos, em muitas ocasiões, saudado os ambiciosos esforços de reforma de Marrocos, visando modernizar a sua economia e consolidar uma sociedade moderna que hoje faz do reino um parceiro estável e confiável, tanto no nível bilateral como regional e internacional".

No próximo ano, além de dois séculos e meio do Tratado de Paz, celebram-se também 30 anos da assinatura do Acordo de Boa Vizinhança e Amizade e Cooperação de 1994, tudo se conjugando para que a evolução positiva nas últimas décadas seja reforçada tanto pelos documentos que venham hoje a ser assinados entre os dois governos como pelos projetos de parceria que resultarem do Fórum Económico Marrocos-Portugal, que traz 60 empresários marroquinos a Lisboa. Há boas hipóteses de avançar finalmente uma ligação marítima entre Portimão e Tânger, além de dois projetos de interconexão elétrica.

Diz o embaixador de Marrocos que o monarca Mohammed VI definiu como estratégia incluir Portugal no grupo dos dez principais parceiros económicos e comerciais do reino, apostando na complementaridade entre os dois países, vizinhos apesar do mar, como o prova o facto de Lisboa ser a capital mais próxima de Rabat. E os tempos recentes têm sido muito promissores na relação comercial. Marrocos tornou-se o primeiro parceiro comercial de Portugal no mundo árabe e em África e o segundo no mundo, fora da União Europeia, a seguir aos Estados Unidos, sublinhou o diplomata à MAP.

Importante para o sucesso dos objetivos desta cimeira Costa-Akhannouch, batizada de "Marrocos e Portugal: Confirmação de uma parceria estratégica exemplar", será a forma como Lisboa e Rabat souberem, defendendo os interesses respetivos, trazer Madrid para a equação. Espanha é uma potência económica demasiado importante, e vizinha e parceira de ambos, para não ser tida em conta. A esse nível, a candidatura conjunta de Portugal, Marrocos e Espanha à organização do Mundial de Futebol de 2030 é um sinal do futuro de cooperação entre os dois lados do estreito de Gibraltar que pode e deve ser construído.

""Esta é uma relação com um passado rico, mas acima de tudo um futuro muito prometedor, assente na amizade entre os nossos dois governos e os nossos dois povos e na existência de projetos comuns para o futuro dos nossos dois países", disse, e bem, Costa, que não deixou também de sublinhar à MAP o simbolismo do Tratado de Paz luso-marroquino de há 250 anos.

Países de continentes diferentes, também de culturas diferentes e daí um antigo historial de conflito - o que explica a presença árabe na Península Ibérica entre os séculos VIII e XV e depois a colonização do litoral marroquino -, Portugal e Marrocos têm hoje condições ótimas para, cooperando economicamente e não só, as suas sociedades ajudarem a contrariar a tese do choque de civilizações. Voltando ao professor Guerraoui, é interessante este defender que "a conceção portuguesa da religião aproxima-se da conceção marroquina da religião, no sentido em que é uma conceção pacífica, aberta e que se coaduna com os valores fundamentais do cristianismo e do islão. É uma compreensão positiva, pacífica e aberta ao futuro da concórdia e do entendimento entre todas as religiões do mundo e, em particular, entre o islão e o cristianismo". O sociólogo é, note-se, membro da Academia das Ciências de Lisboa e da Academia do Reino de Marrocos.

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