Joaquim Maralhas tem uma voz doce, calma e é a voz do programa Senhor Fado (12h/14h), que desde há um ano já recebeu cerca de 12 mil participações no ar. Em casa prefere os Génesis e os Dire Straits, mas dos ouvintes nunca se separa. A simples ideia de pedir ou dedicar um fado cruza emoções e dores de alma que Joaquim recebe com mestria e sensibilidade. É o companheiro da hora de almoço de todos os que na Grande Lisboa elegem a Rádio Amália como companhia. Vão desabafar, lavar a alma, fazem daquele espaço etéreo o amigo que está sempre lá, que lhes trava o combate da solidão e que entra na vida de todos os dias. «Tem sido uma experiência muito agradável, muito curiosa, as pessoas falam das suas maleitas, desabafam um pouco, cria-se uma grande cumplicidade com os ouvintes, fico sempre muito comovido», diz o locutor. «Há gente a ouvir-nos em todo o mundo através da internet, no Brasil, EUA, França, Austrália e Alemanha, pessoas que se descobrem e que estavam perdidas há anos, aqui o mundo torna-se pequeno. São pessoas dos bairros, taxistas, mas temos em Coimbra, por exemplo, três médicas que fazem sempre o seu pedido semanal e que nos ouvem pela internet. Há muita gente nova a pedir para ouvir Amália, mas a verdade é que conjugamos tudo, desde os fadistas da velha guarda aos da nova geração: Mafalda Arnauth, Ana Moura, Carminho, Kátia Guerreiro, Aldina Duarte, Ricardo Ribeiro, todo têm lugar», explica Joaquim. «Projectos como os Amália Hoje ou os Rosa Negra, embora ofendam os puristas, vieram trazer gente nova para o fado, puseram-na em contacto com o universo Amália, por exemplo», continua. O ambiente que une os ouvintes é familiar. «Há ouvintes a dedicar fados a uns e outros, há pessoas que, quando entram no ar no Senhor Fado, é a única vez do dia em que falam com alguém – o programa só permite uma participação por semana –, moram completamente sozinhas, sem familiares, mas também há gente muito alegre, bem-disposta, mesmo com problemas. Acaba por ser um público bastante diferenciado e vasto, não se pense que é uma rádio para velhos, o fado está a ganhar cada vez mais adeptos.» Habituado às lides da rádio, Joaquim sente-se sempre comovido com o carinho dos ouvintes: «Não vou esquecer a nossa visita ao bairro da Belavista, as pessoas têm, por vezes, uma imagem negativa dos bairros quando há lá tanta gente boa. Eu fui recebido com tanto carinho que me senti pequenino. São pessoas de afectos, a rádio é para elas parte da sua vida», sorri. .Lisboa Menina e MoçaQuando lhe falaram em integrar a equipa de uma rádio de fado, Cláudia Matos Silva, 33 anos, ficou «completamente horripilada». A locutora do Menina e Moça (14h/17h) guarda na memória uma cassete do Barco Negro de Amália com uma gravação de Bon Jovi por cima da voz da diva do fado. «Hoje sei que foi uma tremenda heresia», conta, divertida, «mas na altura todos me gozavam na escola porque a capa da cassete era de facto o Barco Negro de Amália. Eu esqueci-me de a virar ao contrário e fui muito gozada! Por isso cresci assim meio zangada com a Amália. A vida tem destas coisas e hoje aprendi a gostar de fado, a pesquisar, a documentar-me, e acabei por concluir que me identifico muito com a Amália mulher, e que o amor pelo meu trabalho suplanta qualquer estilo musical», explica. No programa, há espaço para descobrir novos cantores e revelações, «porque há muita gente interessada em cantar fado», segundo Cláudia, ou então os ouvintes podem deliciar-se com a rubrica Sete Colinas, sete fados seguidos sem intervalo. «Posso não ser fã número um de fado, mas ninguém ama mais apaixonadamente este projecto do que eu porque tudo nesta rádio é feito com uma grande coerência», garante. .Casa de Fados no FacebookAo contrário de Cláudia, Inga Oliveira cresceu a ouvir fado, no meio dos touros, da festa brava, das bancas de peixe no mercado do Montijo. Esteve para ser polícia em vez de locutora de rádio e é entre lágrimas e muita emoção que recorda o avô materno, o grande responsável pelo amor ao fado até hoje. «Costumo dizer que este projecto foi um contacto divino. É este o sítio certo para mim», diz, emocionada. Enquanto decorre a conversa, são muitos os ouvintes que interagem na página do seu programa no Facebook. São milhares os fãs que seguem o Casa de Fados, o programa conduzido por Inga, entre as 17h e as 20h. E, para surpresa dos locutores, a audiência mais velha adere muito às novas tecnologias. Do Brasil nordestino e de São Paulo chegam o maior número de participações online. No Casa de Fados, a ideia é levar o ouvinte até casa, com informações de trânsito, agenda cultural, sem esquecer o menu boémio, em que os próprios ouvintes informam por e-mail o que vai acontecer nas suas colectividades e clubes: «É o chamado roteiro dos fadistas amadores. Às quartas, temos aqui actuações ao vivo, desde os menos conhecidos aos consagrados, ou até crianças a cantar. É um momento muito bonito.»