É interessante acompanhar em paralelo os casos da Avenida Almirante Reis, em Lisboa, e da Avenida da Boavista, no Porto, como exemplos das cidades que queremos alterar. E, se é verdade que Carlos Moedas em Lisboa arrancou pessimamente, fazendo uma campanha absurda contra uma ciclovia - uma submissão ao eleitorado automobilista que detesta ser limitado - percebe-se que a edilidade lisboeta vai corrigir parte do erro. Coexistirem bicicletas, peões ou trotinetas vai fazer parte de um futuro onde têm de caber todos e não apenas os que votam para que nada mude. Ouvindo-se a vereadora da Urbanismo, Joana Almeida, parece haver espaço para integrar melhor toda a gente. E entretanto, a ciclovia lá vai continuando..Pelo contrário, no Porto, numa artéria com um perfil muito idêntico ao da Almirante Reis, as obras na maior avenida da cidade para instalar um autocarro com via dedicada (metrobus) obrigam a desfazer tudo - desde passeios a ciclovias. E qual vai ser a solução final? Passeios mais estreitos, quatro faixas automóveis renovadas e fim dos troços de ciclovia ao longo de cinco quilómetros. É a suprema ironia..Nos últimos dias tentei compreender o racional da decisão, quer na Metro do Porto, quer na autarquia. As respostas são surpreendentes: ambas começam por negar a ciclovia atual - facto que qualquer transeunte da artéria (que a use) sabe existir há vários anos em dois terços dos cinco quilómetros da avenida e no troço restante há uma salvadora faixa bus. Mas, ignorando este absurdo, a resposta que interessa é outra: na obra em curso, não vai haver ciclovia, nem uma via sinalizada para coexistência mais pacífica entre carros e bicicletas, nem redução da velocidade média. Nada..É um paradoxo instalar um transporte mais rápido e a hidrogénio, como o metrobus, para diminuir automóveis, e afinal excluem-se as bicicletas. "Atendendo a que é uma via estruturante de entrada e saída na cidade, o que está previsto é que se aplique o Código de Estrada" - foi a resposta que obtive na Câmara..Aqui chegados, e ao contrário do que defendem a maior parte das associações cívicas de apoio aos ciclistas, creio que temos de evoluir para outra escala. Refazer as cidades para garantir ciclovias que sistematicamente desembocam em lugar nenhum, não é a solução. Se acreditarmos mesmo que a única maneira deste planeta não arder de febre connosco cá dentro é mudar de hábitos, precisamos de muitos a adotar soluções de mobilidade leve. E a única saída é garantir uma coexistência altamente sinalizada, mais pacífica, e com reduções de velocidade nas grandes artérias, de forma que todos (incluindo jovens e crianças) possam usar um espaço público como uma rua ou avenida..Aliás, é significativo que não queiramos mexer na velocidade da Avenida da Boavista, mas instalemos as paragens de acesso ao metrobus na faixa central - obrigando os peões a sistemáticos atravessamentos de duplas faixas automóveis, sempre estimuladoras de altas velocidades. Sobretudo à noite, como se viu há dias nas 8 (!) ensurdecedoras noites da Queima das Fitas, onde até os autocarros da STCP, repletos de estudantes, circulavam a mais de 80 km/h no último troço da avenida..Concluo: Rui Moreira sabe que os tempos mudaram. Não se percebe uma decisão destas. É tão anacrónica hoje quanto a de Rui Rio há 15 anos, quando gastou 10 milhões na Avenida da Boavista e ruas próximas, para delirar com os seus ralis em redor do Parque da Cidade. Tal como na altura, a questão hoje é a mesma: mandam apenas os senhores da cidade que não largam os automóveis?. Jornalista