Algarvio Ricardo Mestre venceu em Fafe e veste amarela

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Ricardo Mestre foi, ontem, o abono de família da modesta equipa do Duja-Tavira, a mais antiga dos pelotões nacional e internacional. O moço nascido em Cortelha, e que é já uma referência como um dos valores seguros para um futuro próximo (tal como Manuel Cardoso, do Boavista, que também já andou de amarelo), arrecadou 3345 euros pela vitória e mais 50 por vestir a camisola amarela. Uma verba simpática a juntar a outra garantida em Viseu pelo argentino Martin Garrido, vencedor da terceira tirada.

Mas o dinheiro não deverá ter sido o motivo principal de Ricardo Mestre para ter feito a corrida que fez. Apostamos mais na autoestima e profissionalismo. O algarvio impressionou pelo ritmo que impôs, por ter conseguido guardar forças para atacar a concorrência quando entendeu ser o momento certo e pela inteligência com que geriu a escapada até Fafe, onde chegou isolado. E nem um engano à primeira passagem pela meta - que Mestre pensou ser a última pedalada, esquecendo-se que havia mais 7900 metros - o fez perder o ritmo.

"Não me lembrava que tinha de dar mais uma volta", disse Mestre, no final, lembrando que "depois daquele esforço todo as forças começaram a faltar". Ofegante, à espera de subir para a consagração diária, Ricardo Mestre, no dia em que "concretizou um sonho", dedicou a vitória à família e "aos companheiros" e disse querer levar a amarela até Castelo Branco.

O ciclismo é um desporto ambivalente. Umas vezes é colectivo, outras individual. Nunca é definido como o futebol, em que um só jogador pode fazer a diferença, mas no fim quem triunfa é a equipa. No ciclismo, pode haver jogo de equipa, mas no fim só vence um. Por isso é que o prémio ganho por um acaba (quase) sempre distribuido por todos.

O Tavira é uma equipa "remediada", anda quase sempre a lutar por garantir um patrocínio que a mantenha na estrada, mas quando o consegue não engana quem aposta no esforço dos ciclistas para publicitar os seus produtos. É uma filosofia desportiva transmitida dos mais velhos aos mais novos. Daí que o treinador seja, quase sempre, um antigo ciclista da equipa. Foi assim com José Marques, o antigo treinador, continua agora com Vidal Fitas.

Por isso é que logo que uma fuga se inicia, é certo e sabido que lá está - pelo menos - um homem do Tavira. Ontem, na fuga do dia, que começou com 18 elementos a sair do pelotão aos 10 km, lá estavam dois tavirenses: Ricardo Mestre e o holandês Paul Sneeboer. De todos, apesar da dureza do percurso, do calor, do fumo dos fogos (uma constante) o único que resistiu 140 km sem ser apanhado foi Ricardo Mestre.

A seu lado quase até ao final esteve o boavisteiro Tiago Machado, que resistiu igualmente a tudo, menos ao último fôlego de Ricardo Mestre.

"Não foi pensado, mas foi tentado. Pusemos dois homens na fuga e adquirimos vantagem. Depois, senti-me bem e dei o máximo. Ele (Tiago Machado) quebrou um bocado no fim e eu não podia esperar. Combinámos que ele (Tiago Machado) ganhava a etapa e eu vestia a amarela, mas se tivesse ficado com ele corria o risco de perder a oportunidade" RICARDO MESTRE (VENCEDOR DA ETAPA E NOVO CAMISOLA AMARELA)

"Correu de forma positiva, por um lado, mas por outro foi negativa. Eu já não tinha a mínima hipótese. Ele (Ricardo Mestre) disse que me deixava ganhar, mas eu quebrei aqui à chegada (1ª passagem na meta) ele fez muito bem em ganhar a etapa. Vai ficar com a amarela e, como é um jovem da minha geração, fico muito orgulhoso". TIAGO MACHADO (2.º NA ETAPA)

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