Ainda à espera de Biden na Ásia Central

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Historiador da Ásia Central e membro do American Foreign Policy Council, S. Frederick Starr relembra num artigo que desde a independência do Cazaquistão, em 1991, nenhum presidente americano visitou o país, nem nenhum dos outros quatro da região, isto mesmo que se fale agora da hipótese de uma Cimeira EUA+5 em Nova Iorque, em setembro, aproveitando a sessão anual da Assembleia-Geral da ONU.

Num momento em que os EUA procuram consolidar alianças mundo fora, para contrariar a expansão da Rússia e conter a ascensão da China, é, de facto, bizarra esta ausência e que soma já George Bush, Bill Clinton, George W. Bush, Barack Obama, Donald Trump e Joe Biden. Este último, que ainda este ano fez uma visita-surpresa a Kiev, tem a atenuante de ter enviado a Astana, já após a invasão da Ucrânia pela Rússia, o secretário de Estado Antony Blinken, que fez declarações de apoio à integridade territorial do Cazaquistão, o nono maior país do mundo, com uma maioria de dois terços de cazaques étnicos, mas muitas outras comunidades, incluindo de origem russa e ucraniana, que somam milhões.

Numa visita recente a Astana, tive oportunidade de conversar um pouco com Nouriel Roubini, economista americano que é um dos autores de The New Kazakhstan: steering the steppe amid a global storm, que se pode traduzir como O Novo Cazaquistão: conduzindo a estepe no meio de uma tempestade global. Já tinha entrevistado Roubini a propósito do seu Mega-Ameaças, livro editado este ano em português pela Planeta. O título dessa entrevista foi O problema nuclear atualmente é que o risco pode ser maior entre grandes potências, mas também entre potências menores, o que é irónico, visto do Cazaquistão, país que no momento da independência se desfez do arsenal herdado da União Soviética.

Voltando à conversa com Roubini em Astana, autorizou-me que gravasse a sua opinião sobre qual o envolvimento geopolítico que os EUA devem ter no Cazaquistão, país situado entre a Rússia e a China, mas que pratica uma diplomacia multivetorial que inclui boas relações com a América e a Europa.

"Os EUA estão certamente muito interessados no Cazaquistão, porque o país é uma daquelas médias potências que são Estados decisivos, cruciais, e que querem diversificar as amizades políticas, geopolíticas e económicas com uma variedade de potências globais. Historicamente, os seus laços são maiores com a Rússia e esse laços tornaram-se, em certos aspetos, um constrangimento. É claro que a China é um novo mercado, mas historicamente o maior parceiro comercial do Cazaquistão era a Europa. O facto de os EUA estarem interessados na estabilidade da Ásia Central, leva-os a interessaram-se também pelo Cazaquistão, não só pelos seus recursos naturais, seja o petróleo, o urânio ou outros, mas também por uma variedade de serviços e indústrias. Portanto, evidentemente que as pessoas em Washington estão interessadas no Cazaquistão e os EUA vão ser um parceiro importante deste país a nível económico-financeiro e comercial", declarou Roubini, hoje cidadão americano, mas com curiosas ligações pessoais ao mundo túrquico e, de certo modo, quase centro-asiático, pois nasceu em Istambul, numa família de judeus do Irão.

Mesmo numa era em que viaja pouco, Vladimir Putin esteve no ano passado em Astana e deverá voltar em breve. E Xi Jinping visitou igualmente a capital cazaque no ano passado, naquela que foi a primeira saída ao estrangeiro depois da pandemia. Se a isto se somar os momentos em que os presidentes russo e chinês estiveram em cimeiras várias com o presidente Kassym-Jomart Tokayev nos últimos tempos, percebe-se como as grandes potências regionais dão atenção ao Cazaquistão e como é fácil para o Ocidente perder terreno num país estratégico - e contra a vontade desse país. É verdade que os investimentos americanos contam, como conta o facto de a UE ser o maior parceiro comercial do Cazaquistão, mas a questão das visitas ao mais alto nível não pode ser desprezada nas relações entre países.

Isto do simbolismo das visitas vale muito no que diz respeito aos EUA, mas também à UE. Durante o Fórum Internacional de Astana, em junho, vi como José Manuel Durão Barroso era popular entre os cazaques. Assinou acordos importantes no seu tempo em Bruxelas, é certo. Mas o mais relevante é que foi até agora o único presidente da Comissão Europeia a visitar o Cazaquistão. Não é só Biden que está em falta, também Ursula von der Leyen, mesmo que, tal como Blinken, Josep Borrell, responsável pela diplomacia europeia, tenha ido no ano passado a Astana, assim como Charles Michel, presidente do Conselho Europeu.

Um exemplo a seguir por Biden? O presidente alemão, Frank-Walter Steinmeier, que esteve em meados de junho em Astana, reconhecendo o papel de relevo do Cazaquistão no cenário geopolítico atual, que a par da guerra na Ucrânia, inclui o desafio da segurança energética, nomeadamente para uma Alemanha que apostara demasiado no gás russo. "Recentemente, o Cazaquistão contribuiu para a segurança energética da Alemanha. O fornecimento de petróleo cazaque manteve as refinarias a funcionar na Alemanha", declarou Steinmeier, com Tokayev ao seu lado.

Diretor adjunto do Diário de Notícias

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