Besma Kraiem vive em Portugal porque se apaixonou por um português. Mas mal viu o mar do país do marido também se apaixonou por Portugal. "Nasci em Gabès, no Sul da Tunísia. Lá o mar é tão azul, tão azul. E reencontrei essa beleza do mar aqui em Cascais. O mar faz parte da minha vida", diz esta tunisina de 46 anos, engenheira de telecomunicações, que já viveu na Alemanha e no Japão e que fala um excelente português, mesmo que por vezes lhe saia uma palavra ou outra em inglês. "Fiz questão de aprender português. Paguei lições e lições. Sabia que com as línguas que já dominava podia trabalhar aqui na filial de alguma multinacional, mas essas cá eram pequenas comparadas com as grandes empresas portuguesas. E eu queria trabalhar na maior de todas", explica, sem qualquer arrogância, só com a confiança de quem é um caso de sucesso profissional desde que aos 18 anos trocou a Tunísia pela Alemanha, Gabès por Nuremberga, graças a uma bolsa de estudos..Foi na Portugal Telecom, nos tempos áureos da gestão de Zeinal Bava, que Besma começou a trabalhar em 2010. Hoje, tem a sua própria empresa de consultoria em desenvolvimento de projetos de negócio internacional na área das tecnologias, com especial atenção ao triângulo Alemanha, Áustria e Suíça, no fundo a Europa germânica, e ao Norte de África e Médio Oriente, região em que o árabe que Besma tem como língua materna é um trunfo óbvio. Ao todo, fala "cinco línguas e meia", diz a brincar, para logo explicar que o japonês só chega para conversas mais básicas. Além de ser empresária, Besma também dá aulas na Porto Business School..Paixão no aeroporto de Tóquio.Foi no Japão que a tunisina conheceu o marido, Luís Aranha, então presidente da marca Nina Ricci naquele país do Oriente. "Encontrámo-nos por acaso no aeroporto de Tóquio e foi amor à primeira vista", conta Besma. Ela, que se formou na Universidade de Nuremberga e tirou um mestrado na Holanda, trabalhava para a Sony na Alemanha, o que a levava a viajar muitas vezes para o Japão, onde estava a sede da empresa. A diferença de idade para o marido - 16 anos mais velho - não afetou nada a relação, conta Besma, tal como também nunca se preocuparam com as diferenças culturais e religiosas. Como quase todos os tunisinos, Besma é muçulmana. "Não faço as orações, mas sinto-me muçulmana. E tenho orgulho no islão, uma religião que defende os mesmos valores de humanismo que todas as outras grandes religiões. Fico triste quando os jornais e as televisões só mostram o islão quando um bastard se faz explodir e mata inocentes", comenta. Pergunto-lhe como quer que traduza bastard. "Pode pôr f.d.p.", responde..Basta olhar para Besma, uma mulher alta e elegante, com um vestido colado ao corpo, para se perceber que é um exemplo da emancipação feminina que Habib Burguiba, fundador da Tunísia moderna, sempre defendeu. A sua saída da Tunísia aos 18 anos coincidiu com a chegada ao poder de Ben Ali, que afastou um Burguiba velho e já pouco lúcido, mas nada teve que ver com a mudança política. Afirma mesmo que no início o ditador até foi acolhido com expectativa e que na verdade nunca se opôs aos direitos das mulheres. Mas desde o derrube de Ben Ali em inícios de 2011 a situação feminina parece por vezes ameaçada, sobretudo porque a democracia deu muita força ao partido religioso Ennahda. "Depois da revolução, houve alguns problemas, mas as tunisinas souberam defender os seus direitos. E estou otimista com o meu país, mas não descansada. Temos de ser vigilantes", sublinha Besma, sentada na esplanada do Hotel Baía, enquanto olha para este mar português que tanto se parece, insiste uma vez mais, com o da sua Gabès natal..Contra o terrorismo em nome do islão.Revoltada com o terrorismo feito em nome da sua religião, e que já causou vítimas na própria Tunísia, Besma assume-se como "uma embaixadora do islão, uma mulher muçulmana moderna" e alguém que quer desafiar os preconceitos. "Não uso véu, nunca usei. Na Tunísia muitas mulheres não usam, outras sim. Há liberdade para se ser o que se quiser. O islão pode ser vivido de muitas formas. Mas os extremistas recusam isso.".Francisco, também chamado Iheb.Em 2006, Besma e Luís, hoje presidente da Mike Davis, instalaram-se na Alemanha. O casamento foi também nesse ano na Tunísia, "uma grande festa, que durou sete dias". Em 2007 nasceu o filho de ambos, Francisco, que também tem o nome árabe de Iheb. E desde 2009 a família vive em Cascais..E como tem sido a educação de Francisco? "Quero passar ao Francisco os valores universais que há na religião muçulmana. Tem de saber que o profeta Maomé era uma pessoa boa. Quero sobretudo que o meu filho, quando crescer, seja uma pessoa boa", responde a empresária. Ambiciona também que Francisco seja cosmopolita, um cidadão do mundo como os pais. "Ele anda na Escola Alemã e já fala quatro línguas", acrescenta a mãe orgulhosa. A escolha da escola faz sentido para uma mulher que gosta de dizer que é "tunisina de hardware e alemã de software"..PARA ENTENDER A TUNÍSIA.Muçulmanos."A nossa tradição é a de um islão tolerante e progressista.".Cartago ."Somos os herdeiros da grande Cartago, que fez frente a Roma.".Gastronomia."Temos as melhores tâmaras do mundo.".Mulheres."As tunisinas farão tudo para defender os seus direitos. Somos um país de mulheres fortes.".Povo ."Os tunisinos são muito amigáveis."