Acabar o ano a olhar para o que temos de bom

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Uma entrevista no DN e dois trabalhos televisivos deram-me o argumento para esta crónica de final de ano. Doze meses passados em que muito se ouviu falar das dificuldades que as pessoas enfrentaram num ano duro, em que as questões financeiras potenciadas pelo aumento das taxas de juro, e não só, afetaram milhares de portugueses -- por exemplo em novembro atingiu-se um máximo histórico de trabalhadores em lay-off.

Mas não vamos centrar esta crónica nos lamentos sobre o mau funcionamento do Serviço Nacional de Saúde, da escola pública ou da gestão que se pratica em alguns setores. Não, vamos despedir-nos de 2023 com uma visão otimista de Portugal e dos portugueses.

Regressemos assim ao início do texto: a entrevista ao cirurgião Manuel de Jesus Antunes. Já fora do Serviço Nacional de Saúde, o homem que, pelas suas contas, participou em cerca de 45 mil operações ao coração, e em 35 mil delas esteve mesmo com corações nas mãos, é um dos mais notáveis médicos nacionais. Teve uma carreira ímpar, recebeu condecorações, mas poucas pessoas fora da sua área terão ouvido falar dele e da sua contribuição para a medicina nacional.

O mesmo acontece com o trompetista Luís Martelo. Um trabalho da CNN Portugal deu a conhecer este músico que vive em Inglaterra, para onde foi depois de em Portugal até ter sido um sem-abrigo. Luís falou, na reportagem, do amor que o terá ajudado a mudar de vida e da distinção que recebeu da então Rainha Isabel II pelo trabalho que fez durante a pandemia. E que trabalho foi esse: estar junto de lares e hospitais a tocar para os idosos e doentes que não recebiam visitas durante esse período.

Emociona-se a tocar Somewhere Over the Rainbow, canção que apela à coragem e à esperança e que ganhou destaque pela voz do compositor e cantor havaiano Israel Kamakawiwo"le, mas que surgiu pela primeira no filme O Feiticeiro de Oz e cantado por Judy Garland.

O terceiro destaque vai para Jorge Chaminé. Provavelmente muitos dos leitores não sabem quem é. Pois fiquem a saber que é um barítono português com lugar garantido a nível mundial na sua profissão. Atua como solista em inúmeras orquestras em vários países e é grande a lista de maestros e cantores de ópera com quem contracenou.

Recebeu a Medalha dos Direitos Humanos da UNESCO pelo trabalho em prol de crianças abandonadas, foi nomeado embaixador da Boa Vontade por parte da organização Music in ME (Music in Middle East), tudo isto numa longa lista de nomeações e prémios, entre os quais se destaca ainda o Prémio Europeu Helena Vaz da Silva para a Divulgação do Património Cultural, já este ano.

São três exemplos de portugueses que mostram o que de melhor tem o país, como os cientistas que integram equipas em vários institutos mundiais (incluindo a NASA e na Agência Espacial Europeia), músicos que brilham fora das nossas fronteiras, gestores que lideram equipas em empresas mundiais, escritores reconhecidos mundialmente, artistas e realizadores com o seu trabalho reconhecido, etc. E, claro, no desporto onde se fala muito de Cristiano Ronaldo (e bem), mas onde o nome de Portugal é conhecido em várias modalidades, sendo o futebol apenas a mais mediática.

Não sendo tão otimista como o primeiro-ministro cessante, António Costa - acontecimentos recentes retiraram-me alguma dessa boa vontade -, prefiro, mesmo assim, olhar para o lado meio cheio do copo e ver como exemplo aqueles que fazem com que Portugal seja conhecido pelo mundo pelas melhores razões. E desejar que no próximo ano mais portugueses possam surgir com destaque nas notícias mundiais.

Um Bom 2024.

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