A Ucrânia no labirinto do tempo

Trabalhando a ficção a partir do documentário, Sergei Loznitsa propõe-nos uma visão subtil e contundente dos cenários ucranianos: <em>Donbass </em>foi premiado no Festival de Cannes de 2018.
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Se é verdade que o século XXI gerou novas formas de coexistência e contaminação de "documentário" e "ficção", então não há dúvida que a obra do cineasta ucraniano Sergei Loznitsa (nascido em 1964, em Baranovichi, ex-URSS, hoje Bielorússia) é um dos mais significativos exemplos de tal dinâmica. A estreia do seu filme Donbass - prémio de realização na secção "Un Certain Regard" do Festival de Cannes de 2018 - aí está para confirmar a vitalidade, subtil e contundente, do seu trabalho.

Face às informações que todos os dias recebemos da guerra na Ucrânia, o facto de Donbass ter sido concluído há quatro anos parece diluir-se no labirinto do tempo. Não que Loznitsa procure qualquer efeito "profético". O certo é que a sua abordagem dos territórios ocupados do Donbass, onde as diferenças entre tropas russas e grupos de separatistas armados nem sempre são nítidas, nos leva inevitavelmente (entenda-se: historicamente) a sentir o filme como uma espécie de capítulo zero da tragédia do presente.

O trabalho ficcional depende mesmo de uma metódica intensidade documental. Na prática, Loznitsa foi recolhendo informações sobre acontecimentos reais vividos em 2014-15. Da demagogia dos chefes à manipulação populista dos cidadãos, passando pela presença ambígua das câmaras de televisão (entre reportagem e indução dos acontecimentos), Donbass evolui, assim, através de um perturbante paradoxo: o filme possui todo o requinte e complexidade de uma perspetiva ficcional altamente elaborada - em particular, os movimentos de câmara de Loznitsa são admiráveis de precisão; ao mesmo tempo, nada disso exclui, antes potencia, um surpreendente efeito físico de verdade, numa palavra, documental.

Há em alguns momentos de Donbass qualquer coisa de comédia do absurdo. Dir-se-ia que o quase burlesco das situações é filtrado pelo próprio olhar do cinema, levando-nos a descobrir a verdade intrínseca dos acontecimentos através da sua dimensão surreal. Escusado será dizer que essa ambivalência interior de qualquer imagem envolve uma demarcação, de uma só vez ética e estética, em relação ao espontaneísmo que marca muitos modelos contemporâneos de (des)informação.

Como contraponto, vale a pena referir que, depois de Donbass, entre os vários títulos que Loznitsa assinou se inclui Funeral de Estado (2019), que também teve estreia no circuito português (editado em DVD e disponível na plataforma Filmin). Aí, tratava-se de recuperar os materiais de arquivo sobre o funeral de Estaline, em 1953, expondo e desmontando o modo como a propaganda comunista se alicerçava numa santificação do líder, capaz de contaminar todos os níveis do trabalho e das relações sociais. Agora, a descoberta de Donbass permite-nos confirmar que Loznitsa é um dos cineastas contemporâneos mais empenhados em encarar, questionar e discutir o efeito de verdade das imagens - neste caso, permitindo-nos reavaliar o contexto ucraniano para lá da aceleração mediática do quotidiano.

dnot@dn.pt

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