Portugal, 1992. Mário Soares é presidente da República e Aníbal Cavaco Silva primeiro-ministro. Um ano antes, em 6 de outubro de 1991, o Partido Social Democrata ganhava as eleições legislativas com maioria absoluta, como tinha acontecido quatro anos antes. Tomislav Ivic treina o Benfica, campeão na época 1991/92, o brasileiro Carlos Alberto Silva é técnico do FC Porto e aos comandos do Sporting está, no início da época, o canarinho Marinho Peres, que será depois substituído por António Dominguez. A taxa de inflação situa-se em 8,9% e o nível de desemprego estaciona em 4,1%, o valor mais baixo que o país conheceu de então para cá. O álbum Palavras ao Vento, dos Resistência, é o mais vendido do ano e os adolescentes portugueses vibram com Nevermind, dos Nirvana. Uma desconhecida (e morena) Marisa Cruz ganhava o título de Miss Portugal. Do outro lado do Atlântico, George Bush (pai), no segundo mandato como presidente dos EUA, recandidata-se ao cargo, mas é derrotado, em novembro, pelo democrata Bill Clinton. Os telemóveis ainda são uma miragem para a maioria da população, embora já existam duas operadoras no mercado: Telecel (atual Vodafone) e TMN. Os CD começam, pouco a pouco a destronar as cassetes de áudio e o VHS é rei e senhor. O zapping, atividade intuitiva nos dias que correm, não é mais do que um saltitar binário... um, dois, um, dois, um, dois. Até 6 de outubro.."Era outubro e despertei...".Os cabelos negros, o rosto moreno e a voz grave de uma desconhecida jornalista de 24 anos são os primeiros sinais de vida humana vindos dos lados de Carnaxide. Alberta Marques Fernandes conduz o primeiro Primeiro Jornal, é a escolhida para dar a cara pela revolução que mudará para sempre a televisão em Portugal. Felisbela Lopes destaca a notícia de abertura do primeiro noticiário da SIC como um dos momentos-chave de duas décadas de televisão não estatal, pela carga simbólica que encerrava. "Numa altura em que se falava do aumento de propinas, a SIC abriu a emissão com um noticiário que valorizava o lado dos estudantes. A SIC era a força não das fontes oficiais mas das fontes que contestavam as fontes oficiais. É a partir daí que tudo muda na informação televisiva", considera a pró-reitora da Universidade do Minho e investigadora na área do jornalismo televisivo. Miguel Sousa Tavares estava em Carnaxide em 1992 e ressalta a grande transformação na maneira de fazer jornalismo televisivo. "Não há qualquer dúvida para ninguém que a SIC e a TVI não são domesticáveis pelo poder político", diz o comentador da SIC..A Sociedade Independente de Comunicação, de Francisco Pinto Balsemão, a Televisão Independente da Igreja Católica e a Rede Independente, liderada por Daniel Proença de Carvalho, eram as três candidaturas que se apresentaram a concurso para a atribuição das licenças para o terceiro e quarto canais de televisão, os primeiros privados em Portugal. O processo, que arrancou em dezembro de 1990 após resolução do Conselho de Ministros, culmina 14 meses depois, quando são divulgados o resultados do concurso. A SIC e a TVI são os embriões dos primeiros canais de televisão privada, a Rede Independente de Proença de Carvalho fica pelo caminho..Uma decisão que, 20 anos depois, não é consensual. "Aquele projeto chamado televisão da Igreja foi um enorme equívoco. Não estava minimamente sedimentado, nem do ponto de vista financeiro nem até de experiência da própria administração, que não sabia bem o que se queria fazer. O projeto correu mal, como foi inevitável que assim acontecesse", reconhece Luís Marinho..O atual diretor-geral da RTP, que fazia parte da primeira redação da TVI, em 1993, considera que à luz dos nossos dias "era possível" que a Rede Independente tivesse levado a melhor no processo de atribuição de licenças. "Depois de perceber melhor que projeto era, parecia mais sólido. Mas eu não conhecia o projeto a nível financeiro", explica Marinho. Opinião mais assertiva tem Emídio Rangel, que considera que as candidaturas apresentadas em 1992 pela SIC e pela TVI eram "projetos indigentes". "Aquilo que apresentaram a concurso público em termos de informação e programação eram duas folhas de papel A4, com uma estação sem capacidade e sem qualidade", conta o homem que em 1992 assumiu o cargo de diretor-geral da SIC. "Curiosamente, o melhor projeto a concurso era o do Dr. Proença de Carvalho e esse não passou. Era um projeto feito de uma ponta à outra, bem elaborado, com uma filosofia bem determinada, com as grelhas de programação e informação bem estabelecidas", diz o consultor de comunicação..O sociólogo António Barreto, que à data era deputado independente pelo PS, considera que "a atribuição das licenças podia ter sido mais rápida" e que "a transparência sofreu com esses atrasos todos". "Houve muita conspiração, muita intriga durante dois ou três anos e o facto de uma das licenças ter sido dada diretamente à Igreja Católica, que fez um grande disparate..A Igreja pecou por orgulho, por ambição, e quis ter uma televisão. Mas, obviamente, a televisão que se fazia em Portugal era incompatível com a missão apostólica da Igreja. E teve de ficar sem ela. Ou mudava a Igreja, ou mudava a televisão", diz Barreto. Mudou a televisão..Em 1997, quatro anos depois do arranque da TVI, com a entrada da Media Capital na empresa e com Miguel Paes do Amaral a assumir os comandos administrativos da TVI. António Barreto aponta o dedo ao Partido Socialista pela demora na mudança das leis que permitiram abrir caminho à televisão privada. "O PSD e o CDS, sobretudo o PSD, foram favoráveis muito mais cedo e, se bem me lembro, o grande responsável pelo atraso foi o PS. O PS, desde 1975, começou com umas linhas políticas muito intransigentes, muito próximas do marxismo, do comunismo, muito estatal, muito diretivo, muito dirigista, e depois foi mudando de opinião, em muitos casos para bem. Simplesmente demorou muito tempo", conta o sociólogo..A decisão de atribuição das licenças acontece depois das eleições legislativas de 1991, um timing que, como explica Felisbela Lopes, não foi inocente. "O governo de Cavaco Silva não quis tomar a decisão antes das eleições de 1991. Os candidatos eram difíceis. Havia a TVI, a SIC e a Rede Independente de Proença de Carvalho, tudo projetos de direita. Aquilo era um problema para o governo de Cavaco", conta a professora, que explica ainda que "a reunião do Conselho de Ministros foi polémica". "A decisão dividiu o Conselho. O projeto da SIC era incontestável. Os outros dividiram os ministros. Houve os que achavam que era o de Proença de Carvalho que devia ganhar e outros que achavam que devia ser a Igreja. E foi a Igreja que ganhou", acrescenta Felisbela Lopes. Miguel Sousa Tavares, por seu turno, considera que Cavaco Silva tomou "uma decisão política escandalosa": "como já estava a pensar na reeleição, quis conquistar os votos da Igreja e entregou a TVI a quem manifestamente não estava preparado para fazer uma televisão. O nascimento da TVI foi uma coisa simplesmente anedótica para o patriarcado e para a Igreja", diz o comentador da SIC. A NTV tentou, até ao fecho desta edição, obter o testemunho de Daniel Proença de Carvalho, mas o advogado esteve sempre incontactável..Televisão e política: de mãos dadas mesmo de costas voltadas.O nascimento da SIC, em 1992, e da TVI, em 1993, tiveram um efeito megafone. O país, que no início da década atingia os 10 milhões, via-se ao espelho na informação produzida pela estação, ouvia-se em programas como Praça Pública, que abriam espaço à revelação de um pequeno país, que mais tarde veio a verificar-se pouco sabia de si próprio. "Hoje, temos informação muito melhor do que quando só tínhamos um canal. O Telejornal era um bocado a voz do dono. A partir do momento em que o pluralismo é uma realidade, temos muito mais gente, muito mais informada, a ver programas de informação. Veja-se o sucesso da SIC Notícias que é, na minha opinião, o canal mais feliz da SIC", afirma Tozé Brito..A opinião do vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Autores é partilhada por António Barreto, que explica como o país descobriu pessoas, assuntos e problemáticas que até então ficavam excluídos dos blocos noticiosos. "Há uma série de temas a que o canal público chegava pouco, certos aspetos mais delicados da vida portuguesa, como o crime, as paixões, a doença, a querela, a marginalidade, o sexo. Os canais privados, que fizeram um grande exercício nessas áreas, umas vezes bem, outras vezes, mal, obrigaram os portugueses a ver aspetos da sua vida que conheciam pouco e obrigaram também os canais públicos, eles próprios, a mudar", explica o sociólogo..Da música ao futebol, passando pelas artes, eruditas ou populares, o alargamento do espetro mediático permitiu dar voz a outros intervenientes. Mas a grande mudança, a mais visível, e da qual faz todo o sentido falar numa altura de crise, aconteceu na vida política. Habituados a terem espaço apenas na RTP, os políticos tiveram de se adaptar a ser requisitados mais vezes, a dar mais explicações, a falar para outras câmaras, a participar para serem ouvidos pelos eleitores..Luís Marques Mendes, que em 1992 era ministro adjunto do primeiro-ministro (e detinha a tutela da comunicação social), explica que o aumento dos diretos contribuiu para essa aceleração na forma de fazer política. "No tempo em que a RTP estava sozinha no mercado, haver um direto de uma conferência de imprensa, de uma deslocação de um primeiro-ministro era uma exceção. Hoje os diretos estão relativamente banalizados", explica o antigo ministro..Marques Mendes observa também que "os políticos em geral, e os governantes em particular tiveram de ajustar as suas agendas à disponibilidade e aos horários dos serviços informativos". "O surgimento das televisões privadas obrigou os políticos a serem muito mais exigentes consigo próprios, a serem muito mais profissionais e até a ajustarem as suas agendas em relação à agenda mediática. Os canais privados obrigaram o político a ser muito mais profissional, muito mais cuidadoso. Foi uma lufada de ar fresco", reconhece o atual comentador político da TVI24..No entanto, António Barreto aponta a consequência nefasta do surgimento dos dois canais privados nos homens e mulheres que representam os portugueses. "Há qualquer coisa no político artificial, de plasticina, que basta dizer duas palavras bem esgalhadas que é quanto baste. Basta repetir ideias sem substância e isto é um bocadinho o que se faz na televisão muito comercial, muito a correr, muito mal feita, a televisão dos concursos e das telenovelas", reconhece o sociólogo. Barreto estabelece um paralelismo entre a produção de ficção nacional e os políticos que surgiram nestas duas décadas: "As telenovelas em Portugal, e devo tirar o meu chapéu à TVI, criaram uma escola dramática. Uma escola de atores e de encenação. E na política não. Não foi criada uma escola de novos políticos. Pelo contrário, estamos cada vez mais com políticos de plástico.".Seja de que material passassem a ser feitos os governantes, o facto é que nem eles nem os portugueses passavam sem os comícios em direto, sem a noite das legislativas com direito a reportagem em cima da moto (estratégia usada pela primeira vez pela SIC), sem os pormenores à margem dos discursos oficiais que até então se encontravam escondidos no nevoeiro. Para a posteridade ficam momentos como a gaffe de Valentim Loureiro que, em pleno comício social--democrata de apoio à candidatura de Fernando Nogueira, gritou "Guterres! Guterres!", emendando, já sem ir a tempo, para "Gondomar! Gondomar!", as reportagens em direto da Ponte 25 de Abril do protesto dos camionistas, conhecido para a posteridade como "buzinão", que serviu de catalisador para o fim de uma década de cavaquismo, que dá lugar, em 1995, ao guterrismo da Expo 98, do diálogo, da "razão e coração"..Emídio Rangel explica que "os políticos estranharam e depois não tiveram outro remédio senão adaptarem-se". "Na altura, uma notícia de segunda-feira era guardada para sair no sábado no Expresso. Eram os políticos que faziam uma gestão da informação deste tipo. Isso nunca mais aconteceu", explica o consultor de comunicação. E, tal como relembra o antigo diretor geral da estação de Carnaxide, se o repórter era rápido nas perguntas, o político teve, necessariamente, de apanhar o mesmo comboio... sob pena de ficar apeado na estação. "Nós chegávamos ao pé de um político e dizíamos 'hoje rebentou uma bomba atómica na Síria. Queríamos uma reação do senhor deputado'. Ele dizia 'ok, venham daqui a cinco dias'. Eles viviam nesta apatia completa e perceberam que houve uma aceleração do ritmo da informação e que, se eles não estivessem nesse ritmo, perdiam o lugar", conta Rangel..RTP, a outra face do espelho.O aparecimento da SIC e da TVI geraram uma verdadeira convulsão na estação pública de televisão. A RTP teve que aprender a dividir o seu público dois players independentes da tutela. "A reação da RTP foi muito má. Na altura, era diretor de programas o Artur Albarran, que se gabava de comprar programas para a gaveta, para que as privadas não chegassem lá. Foi uma reação de menino mimado que tinha o monopólio nas mãos e que não queria enfrentar a concorrência", relembra Miguel Sousa Tavares, que classifica como "escandaloso" o dinheiro gasto pela estação pública "para fazer frente às privadas". "Hoje em dia, quando se fala tanto em esbanjamento de dinheiros públicos, devia recordar-se essa história, feita por pessoas que estavam na RTP e depois foram para as privadas", diz o jornalista e comentador da SIC. Luís Marinho considera que a estação pública de televisão, em última estância, beneficiou com o surgimento das estações privadas, mas que o caminho constituiu uma "aprendizagem dolorosa". "Quando se fala hoje de contenção de dinheiros públicos, muita gente que nessa época esteve envolvida e parece hoje muito preocupada... as pessoas deviam fazer uma espécie de exame de consciência e rever que papel tiveram nessa época", diz o diretor geral da RTP, alertando: "tudo isso já se passou há algum tempo, mas é bom que as pessoas se lembrem da diferença e do rigor que existe hoje do ponto de vista da gestão da RTP".."É inacreditável que a RTP tenha sido a primeira estação em Portugal a fazer contra-programação. O facto de se ter comportado como uma concorrente privada no campo da publicidade e das audiências criou vícios terríveis na estrutura da RTP", atira Manuel Falcão. O diretor geral da agência de meios Nova Expressão foi diretor da RTP2 (a 2: de Nuno Morais Sarmento, que entregou a produção do segundo canal à sociedade civil) e lamenta ainda que pouco reste do projeto que se criou para o segundo canal. "Os objetivos foram interrompidos quando o projeto foi quebrado pelo ministro [Augusto] Santos Silva [ministro dos Assuntos Parlamentares], que a primeira coisa que disse quando chegou ao governo de José Sócrates foi 'vamos acabar com aquilo'. E acabou. O que existiu a partir daí foi uma coisa que tinha muito pouco a ver com o projeto original da 2:", explica Manuel Falcão..Emídio Rangel afirma que, em 1992, a RTP "quis reduzir as privadas à expressão mais simples". "Essa foi a aposta de Moniz, uma aposta falhada porque, ainda não tinham passado três anos, já a RTP tinha sido ultrapassada e ele abandonou a RTP na semana em que nós a ultrapassámos", recorda o primeiro diretor geral de Carnaxide. A NTV tentou insistentemente obter um depoimento de José Eduardo Moniz, mas o vice-presidente da Ongoing Media mostrou-se sempre indisponível. Também na informação, diz Rangel, as diferenças entre privadas e a estação pública eram notórias. "Nós fazíamos uma informação dinâmica, em direto, eles faziam uma informação como no tempo do fascismo: primeiro a noticia do presidente do conselho de ministros, depois a do primeiro-ministro, ainda que o Chiado estivesse todo a arder! E depois as pessoas que não eram conhecidas não entravam na RTP. Só entravam pessoas das elites e bem escolhidas. Era uma coisa bastante diferente", explica Emídio Rangel. Miguel Sousa Tavares, que passou da redação da RTP para a SIC no início da década de 90, conta como sentiu a mudança na forma de fazer jornalismo. "Eu saí quase de um gulag para um imenso paraíso de liberdade, criatividade e profissionalismo", confessa o jornalista.."E o povo, pá?".Show é palavra que melhor poderá resumir duas décadas de entretenimento no pequeno ecrã. Big Show SIC, realityshow, talent show. Espectáculo. O espectáculo chegou aos ecrãs dos portugueses com a cor dos cenários de Não Se Esqueça da Sua Escova de Dentes, com a dança histriónica da TV em movimento de Ediberto Lima e, em 2000, com o Big Brother. O povo, essa designação abstrata, passou do espírito à carne sob a forma de um grupo de jovens fechados numa casa. Amado e odiado, o pai de todos os reality shows chegou a Portugal pelas mãos dadas de Moniz e Piet Hein Bakker e haveria de transformar para sempre o que até então se entendia por entretenimento. Mas nem só de Big Brothers viveram estes 20 anos, como reflete Manuel Falcão. "Eu assinalaria como marcos o maior investimento na ficção nacional e, claro, um acesso a formatos e a programas que não eram habituais em Portugal, entre os quais os reality shows replicando, aliás, o que acontecia no resto do mundo", afirma o diretor geral da agência de meios Nova Expressão..Felisbela Lopes frisa que "a subida da novela Jardins Proibidos à liderança das audiências" marca um ponto de viragem na luta pelo primeiro lugar, entre SIC e TVI. " Obviamente muito por culpa de uma coisa que José Eduardo Moniz diz ter sido a locomotiva da TVI, o Big Brother, mas eu não acho que seja um grande momento. Esse foi um momento mau da televisão. Foi a locomotiva mas, como não gosto do formato, não acho que tenha sido um momento bom", diz a professora da Universidade do Minho..Muitas caras nasceram e permaneceram graças à SIC e à TVI. Produziram-se fenómenos de maior ou menor duração mas, segundo Tozé Brito, os canais generalistas falharam em toda a linha num aspeto fundamental: "as três estações nunca tiveram um programa musical digno. Nunca ninguém conseguiu tirar partido da mais-valia que a música pode dar a uma estação de televisão", lamenta o vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Autores..Tozé Brito faz questão de destacar o Big Show SIC como um dos programas que, nestas duas décadas, mais artistas deu a conhecer ao país. "Venderam-se muitos discos e veio provar que um programa musical não só atrai audiências como também gera negócio, não só para a indústria mas também para a televisão. O Big Show SIC deu muito dinheiro à estação. Só gostava que, amanhã, alguém inventasse um novo Big Show SIC ou um Big Show TVI", diz..Nuno Santos destaca o talent showChuva de Estrelas (SIC) como um dos momentos mais marcantes da televisão privada, "porque criou uma linha de entretenimento familiar, transversal, dirigido a todos e com enorme êxito". "Na TVI, acho muito marcante a máquina de ficção nacional que se construiu, a coragem e o dinheiro que foram precisos para por em Portugal o Big Brother e, do ponto de vista da informação, algum atrevimento e ousadia que o canal teve entre 2000, 2001, quando Moniz reposicionou a informação, ajustando-a ao target da estação. O último é o Jornal Nacional da Manuela Moura Guedes", aponta o diretor de informação da RTP.Chegados a 2001, e apenas meses depois da explosão dos reality shows, outro momento-chave na televisão portuguesa muda a forma dos portugueses encararem a caixa mágica. A televisão por cabo, ganha adeptos com o nascimento da SIC Notícias. "A maneira clássica, até então, de olhar para os noticiários era, basicamente, um à uma da tarde e outro às oito da noite. E com um canal de notícias 24 horas, foi preciso passar a ter uma visão panorâmica sobre a atualidade do dia", explica Nuno Santos. O atual diretor de informação da RTP era, em 2001, o homem que estava à frente da direção do primeiro canal de notícias português e conta como a SIC Notícias alterou a forma dos consumidores olharem para além dos quatro canais. "Foi o canal âncora da oferta do cabo. Foi a partir do momento que apareceu que o cabo deixou de ser residual e passou a ser alternativa à televisão generalista", explica..2012 pode ser um ano de viragem. No prime time semanal, as novelas da SIC, com destaque para Gabriela e Dancin' Days, têm batido os produtos de ficção da TVI, algo que até há uns anos, seria impensável. Francisco Pinto Balsemão explica que o arranque da produção de ficção de Carnaxide "não foi fácil". "Gostava de termos conseguido começar a fazer a nossa ficção mais cedo. Foi mais tarde, agora realmente estamos em pleno", diz o chairman do grupo Impresa. Emídio Rangel, que estava na SIC quando esta ganhou pela primeira vez a guerra das audiências, batendo a RTP, contesta esta afirmação. "Isso não é verdade. É natural que ele tenha perdido memória, já tem muitos anos. A SIC começou a fazer ficção há bastante tempo e em todas as áreas. Começou a transmitir as séries Médico de Família eJornalistas. Isso era uma presença diária na grelha", diz Rangel, relembrando um dos produtos de ficção de maior sucesso da estação de Carnaxide. " Criei a SIC Filmes, que não gastou um euro à SIC. Ainda hoje, o filme Amo-te Teresa é o mais visto da televisão portuguesa, considerando o universo de filmes de todo o mundo. Teve à volta de 60% de share", relembra..O futuro da RTP: que consequências para o mercado televisivo?.Desde a vitória da coligação PSD/CDS, em junho de 2010, que a RTP tem estado no olho do furacão. 'Privatização' ou 'concessão', o término do serviço público como o conhecemos hoje é, cada vez mais, uma certeza. Embora os contornos a serem seguidos pelo governo de Passos Coelho neste processo de transformação da empresa pública de rádio e televisão ainda não sejam claros, é certo que qualquer decisão irá ter consequências, seja para o serviço público seja para o restante mercado televisivo. "O que se define hoje como serviço público é levar a televisão aos pobres, às aldeias, às regiões autónomas, garantir que as minorias falam... uma série de coisas que são mais ou menos cumpridas. O serviço público inclui o futebol, os concursos, as novelas, inclui tudo. E, portanto, poder-se-á dizer, sim senhora, a RTP está a cumprir o serviço público como a mandam fazer. Eu acho que o problema não é da RTP mas da definição de serviço público", alerta António Barreto..O sociólogo vai mais longe e diz que "o governo, e em particular o dr. Relvas, estão a fazer isto por estrita teimosia". "São uma espécie de marialvas 'nós somos assim e é assim que vamos continuar'. Correm o risco de fazer mal, de gastar ainda mais dinheiro, de fazer ainda piores programas, de dar cabo do panorama televisivo atual".."Na prática, o serviço público de televisão tem-se resumido a uma coisa, que é receber ordens do ministro da tutela. E não há serviço público que resista a isso. A RTP, até hoje, nunca teve um estatuto independente editorial como devia ter tido. Por isso é que nós vemos pessoas totalmente ignorantes sobre a RTP, como o Miguel Relvas e o António Borges, a darem bitaites sobre o que é que deve ser o serviço público", acusa Miguel Sousa Tavares. O jornalista que, em 2002 fez parte do grupo de trabalho que produziu o relatório sobre o serviço público de televisão, é apologista da manutenção de um canal público generalista, da RTP Internacional e defende o fecho dos restantes canais RTP. "Não entendo que haja um país com um canal destinado, não a fazer a promoção de Portugal em África, mas o contrário, fazer a promoção dos regimes africanos cá, como foi agora com a tomada de posse de José Eduardo dos Santos em Angola", e vaticina: "a privatização da RTP é uma batota, porque não há ninguém em Portugal que tenha capacidade financeira para por de pé um canal privado", prevê Miguel Sousa Tavares, acrescentando: "a privatização da RTP vai obrigar os outros canais, incluindo o que nascer sobre os escombros da RTP, a degradarem-se, porque vão querer ter programas cada vez mais alienantes para atrair mais público. A guerra não vai ser pela qualidade, vai ser pelas receitas. E isso é terrível", diz Miguel Sousa Tavares..Que cenário teremos quando, a cumprir-se o plano estabelecido para a RTP? Francisco Pinto Balsemão explica que a entrada de mais um canal no mercado televisivo vai afetar não só os restantes players, mas também todo o mercado de media. "Sou a favor da concorrência, mas acho que, com os mercados como estão, é complicado neste momento aparecer mais um canal que viva da publicidade. Há um risco enorme de não só afetar os outros canais, mas os jornais, as rádios, a Internet e a qualidade da programação".