A questão da separação de poderes é crucial nas sociedades ocidentais. Não há modelos perfeitos, mas é com este que vivemos para ter a certeza de que não há nem anarquia nem despotismo. Esta separação de poderes é acompanhada de uma exigência de escrutínio e de uma liberdade responsável que permite a crítica. A Justiça portuguesa tem sido, aliás, objeto de muitas críticas, quer por incompetência quer por usar a violação do segredo de justiça para condenar na praça pública. Pior, ela continua a ser diferente para ricos e para pobres. Mas, mesmo que as condições de defesa não sejam iguais para toda a gente, no fim, a justiça prevalece. Não é dona da verdade, mas mesmo quando temos dúvidas, temos de acreditar que a melhor forma de a aplicar é dando-lhe independência..Na mesma medida em que a Justiça, ao acusar um dos seus, não está a generalizar e a pôr-se em causa a si própria, também não está a acusar Angola quando acusa um dos seus dirigentes. O que temos de pedir ao Estado e aos cidadãos angolanos é que percebam o nosso ponto de vista, do mesmo modo que temos de fazer um esforço para perceber a desconfiança dos angolanos. É o número dois do regime de Luanda que é posto em causa pelo Ministério Público português. Não serve de nada apontar o dedo a Angola pela reação. A coisa não seria muito diferente se a Justiça portuguesa estivesse a acusar o número dois de outro país. A vida é o que é, um caso destes não facilita em nada a relação entre dois Estados..Esteve bem o primeiro-ministro português ao lembrar que o andamento de um processo judicial não está nas mãos de nenhum responsável político, acrescentando a vontade de continuar a trabalhar para melhorar as relações com Angola. O primeiro passo para que isso aconteça é começarmos por fazer o que pedimos aos outros. Não vale de nada estarmos a dizer aos angolanos que têm de perceber que isto por cá funciona assim se não formos capazes de parar, um minuto que seja, para nos lembrarmos de como funciona lá. Ninguém é dono da verdade.