À procura da idade de ouro

Billy Crystal reaparece a interpretar e realizar <em>Aqui, </em><em>Hoje!</em>, uma aposta na recuperação de um modelo de comédia & drama típico do período clássico de Hollywood como se prova, não é fácil...
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Nestes tempos de muitos heróis juvenis, mais ou menos abençoados por algum super-poder, convenhamos que Aqui, Hoje! (NOS Videoclube, a partir de sábado) nos revela uma personagem invulgar, plena de emoções contagiantes: Charlie Burnz é um veterano escritor de comédias para televisão que, perante os colegas mais novos, possui a aura de um genuíno símbolo histórico e artístico.

Numa cena breve, mas fulcral, vemos Burnz a ser entrevistado por Bob Costas, personalidade lendária da televisão dos EUA, ao lado de três figuras emblemáticas das últimas décadas de Hollywood: os atores Kevin Kline e Sharon Stone, e o realizador Barry Levinson. Mas algo de perturbante contamina o diálogo: Burnz não se recorda dos nomes dos outros, já que tem vindo a manifestar os primeiros sinais de demência... Num misto de humor e drama, a cena é tanto mais eficaz quanto há nela um perverso efeito realista: Costas, Kline, Stone e Levinson interpretam os seus próprios papéis.

Compreende-se que um ator como Billy Crystal (74 anos, celebrados a 14 de março) se tenha interessado pela personagem de Burnz, a ponto de, apenas pela terceira vez na sua longa e prestigiada carreira, apostar em assumir as funções de ator e realizador - sendo também responsável pelo argumento, em colaboração com Alan Zweibel, autor do conto que serve de base ao filme.

Burnz pertence ao mundo fascinante da comédia e do entertainment - o mesmo mundo que fez de Crystal uma estrela eminentemente popular. Recordemos que interpretou vários títulos de grande sucesso, com inevitável destaque para o revivalismo romântico de Um Amor Inevitável (1989), de Rob Reiner, contracenando com Meg Ryan; sem esquecer que terá sido o último ator que, na senda de Bob Hope e Johnny Carson, soube criar um estilo simples e imaginativo na apresentação da cerimónia dos Óscares, função que assumiu nove vezes (Hope, com 19, é o recordista).

Há em tudo isto um reverso da medalha, algo amargo. Acontece que Aqui, Hoje! pertence a um modelo narrativo que os grandes estúdios americanos têm vindo a menosprezar, preferindo investir em aventuras saturadas de rotineiros efeitos especiais (com exceções, claro, como o recente The Batman). De tal modo que, por vezes, através da sua construção algo atabalhoada, pontuada por alguns flashbacks francamente infelizes, Aqui, Hoje! parece menos um filme e mais um inventário de tiques que nos "pergunta" se nos lembramos como este modelo de cinema teve uma idade de ouro...

Lembramo-nos, claro - quem pode esquecer a delicadeza emocional das obras de George Cukor ou Vincente Minnelli? Mas tudo isso acontecia num outro sistema (de estúdios, justamente) que, além do mais, colocava tais filmes na linha da frente das suas estratégias de produção e difusão. Ainda assim, resta a verve de Crystal e também a exuberância de Tiffany Haddish, atriz que, como se prova, tem mais talento do que aquele que tem exibido em diversas comédias... juvenis.

dnot@dn.pt

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