Manuel Freitas já passou um pouco de tudo. Como ourives, viu armas serem-lhe apontadas, como professor ajudou os mais jovens até se "fartar" da escola, como pai perdeu os seus dois filhos. Pelo meio, confessa, casou-se com a mulher mais bonita de Viana do Castelo. Ele que até era um "parolo" de uma aldeia de Aveiro. "Parolo, sim. Levei muita pancada na escola, dos colegas, porque vinha da aldeia. Sofri muito nessa altura", confessa ao DN gente aquele que hoje é um dos mais conhecidos ourives do País..Esta semana, voltou a ser o centro das atenções ao doar ao município de Viana do Castelo toda a sua colecção, de cerca de 650 peças, de ouro popular e tradicional. "Aquele simples, mas que tanto vale para a alma do nosso povo. Como os brinquinhos que se colocavam nas meninas ao sétimo dia de vida", explica. Formado em Economia pela Faculdade do Porto, Manuel Freitas assumiu em 1969 o negócio do tio Joaquim, homem rico que em 1920 fundou em Viana do Castelo a Ourivesaria Freitas. O tio ficou doente e o então inspector bancário passou a gerir a empresa, ao mesmo tempo que leccionava Economia e Contabilidade na antiga Escola Comercial de Viana do Castelo..O pequeno Manuel, que na juventude passaria a ser tratado pelos amigos como "treitas", habitou-se desde novo a lidar com o ouro. "Desde os dez anos que ia passar férias com o meu tio. Mas não eram férias, ele punha-me a trabalhar na ourivesaria. Eram tempos de trabalho duro", recorda. Nascido no seio de uma família pobre, de agricultores, na pequena aldeia de Requeixo, em Aveiro, Manuel Freitas cedo aprendeu duas coisas: a trabalhar com o ouro do tio e nos campos dos pais. "Recordo que tinha de preparar o estrume. Era feito, entre outras coisas, com nenúfares. Por isso é que nunca encontrei batatas como as daquela terra noutro lugar.".Filho de mãe analfabeta, pai e irmã surdos-mudos, Manuel Freitas tinha tudo para ainda hoje trabalhar no campo. "A minha mãe fez o que podia para me ajudar, mas era muito rigorosa. Venderam muitas leiras para eu poder estudar", recorda, algo emocionado. Ainda em Aveiro, e numa altura em que na primária era "dos piores alunos", fruto da "perseguição" dos colegas, Freitas conheceu a primeira figura que lhe alterou o caminho. A professora Sara. "Mudou-me a vida. Puxou por mim e, em 15 dias, escondidos de todos, deu-me explicações de matemática. A partir daí, tornei-me sempre no melhor aluno", conta..Acabou por ser "desterrado" para Tondela, onde fez os estudos no Colégio Tomás Tibeiro. Entre Tondela e Aveiro durante o ano, as férias eram passadas na Ourivesaria Freitas, em Viana do Castelo. "Nem sonhava que um dia teria de gerir isto." Com o que Freitas provavelmente já sonharia era com a mulher, Filomena, com quem começou a namorar durante as férias que passava no Alto-Minho. "Não tenho nenhum problema em dizer que me casei com a mulher mais bonita de Viana. E ela foi a minha primeira namorada, eu o primeiro namorado dela", assume, sem rodeios. O casamento aconteceria depois dos 24 anos, após Filomena acabar o curso superior em Coimbra. .Sempre ligado aos números, e depois de falhado um velho sonho de ser engenheiro, em 1968 Manuel Freitas ingressa no então Banco Pinto Magalhães, como inspector, e mais tarde, garante, que se realizou como professor. "Sentia-me bem, os alunos gostavam de mim e eu gostava do que fazia. Ia a cantar para a escola", garante. Com a revolução de Abril, guarda o desconforto nas salas de aula. "De repente, acabou-se a disciplina, os alunos faziam o que queriam. De um dia para o outro, deixei de aparecer na escola porque não estava para aturar aquilo. Assim o fiz e não voltei mais"..Assim passou pelo menos os últimos 35 anos, como ourives, entre o negócio e a recolha de peças. "Quando me aparecem com peças antigas para vender, eu digo sempre para não o fazerem, porque é de família e deve ser estimado. Mesmo que esteja mortinho por o comprar." Foi o caso de um agricultor que há trinta anos apareceu na ourivesaria para vender um quilo de várias peças de ouro. "Era uma pipa de massa, com peças antigas. Ele disse-me que queria vender porque se deixasse as peças aos herdeiros iam pegar-se todos. Assim, preferia vender, dividir o dinheiro e deixar nas contas para quando morresse", recorda o ourives, enquanto reconhece a razão. Peças que serviram para começar a montar uma colecção que daria depois lugar ao Museu do Ouro Tradicional e que o ourives doou agora ao município da terra que o recebeu.