Três das medidas assinadas por Trump no próprio dia da tomada de posse são sintomáticas de que é preciso levá-lo a sério. Primeira: a travagem a fundo do Obamacare, que vai lançar entre 15 e 20 milhões de norte-americanos pobres, mais uma vez, para a indigência em matéria de serviços de saúde. A "alternativa" prometida pelo secretário da Saúde, Tom Price, ainda não passa de "palavras vazias" (para citar o discurso do novo presidente). Segunda: a revogação das medidas destinadas a limitar a exploração de combustíveis fósseis mais poluentes. O analfabetismo científico do Partido Republicano não começou com Trump, mas irá tornar-se política oficial com ele. Terceira: a abolição das "zonas livres de armas", nas escolas e noutros espaços públicos, impondo a agenda do poderoso lóbi do armamento, e desprezando os esforços para reduzir os já habituais massacres de estudantes. Por outro lado, o mais tosco discurso inaugural proferido na história presidencial dos EUA estava cheio de promessas de guerra, para já no plano comercial, como se as desastradas consequências das medidas protecionistas, que o Congresso tomou em 1930 (e que conduziram, na verdade, à paralisia do comércio mundial e ao descalabro económico e social da Grande Depressão), não constituíssem uma sólida advertência histórica para não se repetirem erros ("mesmas causas, mesmos efeitos", reza o princípio da causalidade)..Trump é uma ameaça real e em curso. Contudo, é altura de pensar na dimensão de oportunidade que todos os perigos trazem em si. "De onde vem o perigo, vem a salvação", usando uma tradução livre de Hölderlin. Trump é apenas a consequência mais visível de um longo processo de decadência da democracia representativa nos EUA. Quando ele ameaçou os políticos de Washington por só estarem preocupados com o seu conforto, o novo presidente limitou-se a espelhar a baixíssima popularidade do Congresso, que conta apenas 9% (!) de aprovação nas sondagens. Nos anos 1990, já o sóbrio filósofo John Rawls, insuspeito de populismo, denunciava um Congresso que se havia transformado "numa câmara de negociação onde as leis são compradas e vendidas", sendo mesmo a legislação "escrita por lobistas", e não pelos eleitos, sejam eles representantes ou senadores. Confesso não seguir aqueles que antecipam um rápido impeachment do presidente. Isso implica não perceber a complexidade do processo e ainda menos subestimar o génio de Trump como manipulador político. Ele vai tentar neutralizar o Congresso, com ameaças, chantagens e promessas a figuras--chave de ambos os partidos. Não tenho a certeza de que nos próximos anos se ergam no poder legislativo norte-americano figuras com carácter e sentido do bem público que possam engrossar a lista de legisladores heroicos imortalizados por John F. Kennedy no seu livro de 1956, Retratos de Coragem, que mereceu um Prémio Pulitzer..Trump constitui um toque a rebate para a poderosa democracia constitucional e a sociedade civil norte-americanas. As marchas pacíficas de milhões de cidadãos (que não se confundem com algumas dezenas de vândalos partindo montras) lutando pelos direitos conquistados e a reação dos Estados em face de um presidente que parece ignorar que o federalismo implica uma cooperação constante entre diferentes sistemas de governo mostram o caminho da reforma inadiável. A maior dúvida consiste em saber se o duche frio da presidência Trump será suficientemente álgico para despertar a velha Europa do sinistro torpor em que há tantos anos vegeta.