Folheio o catálogo da exposição Histórias de uma Coleção, patente na Galeria Principal da Fundação Calouste Gulbenkian (até 18 de setembro). A coleção é a do Centro de Arte Moderna (CAM), a comemorar 40 anos, numa altura em que a sua inserção na cidade é também objeto de uma metódica reconversão - como refere Guilherme d"Oliveira Martins no texto de abertura, procura-se "uma nova inserção do CAM na zona importante da cidade de Lisboa entre São Sebastião da Pedreira e a Praça de Espanha, com um novo protagonismo artístico, mercê de um rico diálogo entre Arte e Natureza"..O mínimo que se pode dizer será, por certo, uma repetição, mas necessária: estamos perante um acervo admirável. Nele encontramos, por exemplo, preciosidades como o Retrato de Grimau (c. 1964-1965), de Paula Rego, produto de uma pintura que Leonor Nazaré define como "incómoda, mesmo quando atrativa", envolvendo "sofrimento, mordacidade e ousadia em níveis nem sempre compatíveis com a complacência visual mais corrente". Ou a Renaissance Head (1963), de David Hockney, indissociável de um labor com raízes nas matérias literárias, como refere Ana Vasconcelos, sublinhando a importância da ligação "entre desenho e textos, frequentemente poemas, que o inspiravam.".Daí que a amostragem destas obras escape a qualquer inércia histórica, e de história da arte. Na apresentação da exposição, Benjamin Weil, diretor do CAM, lembra mesmo que se trata de superar as facilidades de um entendimento "linear" da história, afinal "uma idealização com pouca utilidade" - importa ter em conta "as inúmeras maneiras de narrar a história, numa perspetiva cada vez mais urgente nos dias de hoje"..Reencontro, assim, uma imagem assinada por Jorge Molder, guardada, algures, num recanto pacífico da minha memória. Pertence a uma série de fotografias intitulada O Pequeno Mundo (2000) em que podemos detetar o impulso "autobiográfico" que circula pela produção de Molder. Impulso ambíguo, bem entendido, já que o facto de se assumir como personagem das suas imagens não decorre tanto de uma lógica de autorretrato, como de um singular desafio cénico e cenográfico: sou "eu" a fingir que sou assim, não deixando de o ser..Ora, justamente, mais de duas décadas depois da sua criação, esta fotografia em particular terá reforçado a sua resistência ao pobre naturalismo, televisivo ou virtual (muitas vezes televisivo e virtual), em que somos convocados para contemplar milhões de imagens... e nada ver. Aliás, creio que, na origem, o fantasma do fotógrafo a tocar uma superfície fosca não seria estranho ao desejo primitivo, eminentemente cinematográfico, de tocar a imagem projetada num ecrã - recordo o assombramento de tal questão em alguns títulos emblemáticos da década de 60, por exemplo de Jean-Luc Godard (Os Carabineiros, 1963) ou Ingmar Bergman (Persona, 1966)..Que aconteceu, então? Nas últimas décadas, os ecrãs deixaram de ser "quadros", talvez reminiscentes da pintura, em que contemplávamos alguma representação do mundo. A sua proliferação e, sobretudo, o papel autoritário que lhes foi outorgado, mudou o paradigma: dos ecrãs que davam a ver o mundo migrámos para um mundo feito de ecrãs. No limite mais trágico de tudo isto, passámos a atribuir valor apenas ao que nos chega através de algum ecrã - a tão falada desmaterialização da comunicação vai consolidando um universo de infinitos circuitos globais em que a comunicação deixou de ser uma troca humana para passar a existir como um "gadget" de celebração da tecnologia..Numa canção de 1992, 57 Channels (And Nothin" On), Bruce Springsteen identificava já essa perda cultural - ou o triunfo de uma cultura de esvaziamento do passado. Dizia ele, literalmente, que comprou uma casa "nas colinas de Hollywood", veio um homem "ligar a televisão por cabo" e que, depois de uma noite de pesquisa, chegou à conclusão de que tinha "57 canais e nada para ver". O álbum chamava-se Human Touch (à letra: "Toque humano")..O narcisismo inerente à pose de Molder não tem, por isso, nada de ostensivo, muito menos agressivo. A mão que se aproxima da superfície que faz desvanecer a sua presença - reforçando-a como imagem - envolve uma interrogação vital: que gesto posso fazer para continuar a existir? A sua parábola filosófica tornou-se também um retrato realista da nossa solidão virtual..Jornalista