"A nossa música tem muitas semelhanças com o fado"

Os britânicos Lamb estão de regresso a Portugal para celebrarem duas décadas de carreira. Nesta entrevista ao DN, vocalista Lou Rhodes reconhece a "relação muito especial" do grupo com o público nacional.
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Quando surgiram, em 1996, os Lamb foram logo encaixados na prateleira do trip-hop, um movimento musical surgido anos antes em Bristol, que tinha como pontas-de-lança nomes como Massive Atack, Portishead ou Tricky. Uma concorrência de peso que nunca permitiu à dupla de Manchester o devido reconhecimento por ter conseguido criar um universo próprio, no qual as linguagens trazidas da música eletrónica pelo produtor Andy Berlow, como o dub e o drum and bass, muito populares à época, coabitavam na perfeição com um lado mais acústico e a voz angelical de Lou Rhodes. Apesar dos elogios da crítica ao primeiro álbum, homónimo, o grupo nunca deu salto para lá do estatuto de banda de culto, mas o tempo acabaria por lhes dar razão, com a pop a transformar-se em muito daquilo que faziam há 20 anos.

Há muito tempo que os Lamb já não atuavam a Portugal, onde sempre são muito bem recebidos, qual o porquê esta ausência?
É a vida [risos]. Na verdade não sei o porquê. Achava que tínhamos passado por cá na digressão do último álbum, em 2015, mas afinal foi na anterior, em 2011. É de facto muito tempo...

Os Lamb sempre foram muito populares em Portugal, porque é que acha que isso acontece?
Temos pensado muito nisso ao longo dos anos, mas não tenho uma resposta concreta para isso. Talvez isso aconteça porque, em certos aspetos, a nossa música se assemelha muito ao fado. Parece-me que o público português se sente mais à vontade com esses sentimentos melancólicos e nostálgicos, presentes nas canções dos Lamb. Em Inglaterra, por exemplo, o público tem uma atitude muito mais cool nos nossos espetáculos. Em Portugal, pelo contrário, parece que despertamos sempre qualquer coisa na alma de quem nos ouve. Especialmente quando tocamos o tema Gabriel, que foi um tremendo êxito aqui em Portugal. Foi o único país em que chegámos ao número um do top, precisamente com essa canção.

Uma vez assisti a um casamento em que a noiva entrava ao som de Gabriel, apesar de não ser propriamente uma canção de amor...
A sério [risos]? Bem, de certa forma também o é, porque é uma canção que fala do amor antes dele existir, quase como se fosse um súplica por esse amor perfeito. É uma canção inspirada num poema de Rumi, o poeta sofista persa, do século XIII, que fala do desejo de obter as asas de alguém. Sempre achei essa imagem muito bonita, porque podemos viver a vida de uma forma muito confortável, mas quando estamos apaixonados tudo é muito melhor, como se fossemos levantados no ar por uma força exterior a nós, vinda da pessoa que amamos.

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Os Lamb foram uma banda à frente do seu tempo, pelo modo como há 20 anos faziam uma pop que misturava batidas eletrónicas com uma voz angelical e letras com muito sentimento, a exemplo do que hoje fazem artistas como The XX ou James Blake?
É engraçado, esse raciocínio, porque de facto penso que existe um fio condutor entre os Lamb e esses artistas. Quando fizemos o primeiro álbum, não fazíamos ideia que caminho tomar, mas sempre nos senti um pouco à frente do resto, tanto que a maior parte das pessoas nos achava demasiado estranhos [risos]. Tínhamos canções e tínhamos umas batidas muito angulares, que supostamente não deviam estar juntas, mas foi precisamente esta alquimia que tornou os Lamb tão especiais.

Como é que vocês se juntaram?
Eu venho da música folk, mas na altura estava a surgir em Manchester um forte movimento de música eletrónica, que começava a explorar o drum n" bass de uma forma muito interessante. Dei por mim a pensar que seria muito interessante escrever canções para combinar com aquele ritmo. Tentei fazê-lo com algumas pessoas, mas não resultou, até que um dj, meu amigo, me apresentou o Andy e demo-nos logo bem. Fomos para estúdio e resultou. Não tínhamos qualquer plano, as coisas simplesmente começaram a sair.

Porque é que os Lamb acabaram, em 2004?
Porque cada um de nós estava a seguir direções diferentes. O Andy é como um irmão e sabe-se como os irmãos conseguem ser irritantes uns para os outros. Eu tive a minha primeira filha por altura do segundo álbum e isso também alterou um pouco as dinâmicas da banda, porque passei a levá-la para as digressões, enquanto o Andy ainda estava numa fase hedonística de aproveitar a vida do rock and roll. Cheguei a um ponto em que precisei de voltar a fazer a minha música acústica, até porque o meu processo criativo com o Andy era muito intenso, mais aprecia uma luta de wrestling (risos).

Foi uma separação pacífica?
O Andy não gostou muito, mas fez-nos bem aos dois. O Andy viajou muito, gravou uns quantos discos a solo e mais tarde também foi pai.

Entretanto, em 2009, os Lamb regressaram com um novo disco. Como é que se voltaram a juntar?
Foi durante os trabalhos do meu terceiro disco a solo, que gravei no estúdio do Andy. Ele ajudou-me muito e isso acabou por recuperar a nossa relação pessoal e artística. Inicialmente, o objetivo era dar apenas um ou dois concertos, só para nos divertirmos, mas mal demos por nós já estávamos a escrever músicas novas e a gravar um disco. Criativamente ainda existe a tal fricção entre nós, o que é bom, mas hoje lidamos com isso de uma forma muito mais natural ou talvez mais adulta.

E como vão ser estes concertos em Portugal?
Esta é uma digressão muito especial, porque celebra os 20 anos do nosso primeiro disco. Será um espetáculo dividido em duas partes. Na primeira vamos tocar o álbum do início ao fim, o que é um desafio interessante, pois muitas destas músicas nunca antes tinham sido interpretadas ao vivo. E na segunda vamos tocar aquelas músicas favoritas de todos, nossas e do público.

Informação útil
Coliseu do Porto
13 de novembro, segunda-feira, às 20.30
Bilhetes: entre os 26euro a 34euro
Coliseu dos Recreios, Lisboa
14 de novembro, terça-feira, às 20.30
Bilhetes: 26euro

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