A medalhada de natação que vai competir no boccia

Os Jogos Paralímpicos já não são novidade para Susana Barroso. Em quatro participações conseguiu meia dúzia de medalhas na natação e regressa este ano a Londres para competir no torneio de boccia.
Publicado a
Atualizado a

"Quando terminei os Jogos Paralímpicos Atenas 2004 decidi acabar com a minha carreira de nadadora", conta Susana Barroso.

A ex-nadadora diz que foi por por culpa de "um bichinho" que decidiu voltar à alta competição.

"Fiz um ano de descanso. Após esse ano achei que me faltava algo, faltava-me o bichinho da competição e surgiu a hipótese de começar a jogar boccia", explica a atleta, de 38 anos, que em Londres vai competir na variante de pares BC4, ao lado de Domingos Vieira.

A troca da natação, que praticou 15 anos ao mais alto nível, pelo boccia foi uma questão de opção, e não ditada pela doença Charcot-Marie-Tooth, uma neuropatia periférica hereditária que causa atrofia muscular e perda de sensibilidade e de movimentos nas extremidades dos membros.

Aliás, Susana Barroso considera que a modalidade na qual Portugal tem mais medalhas paralímpicas é bem diferente da natação, e até "mais complicada".

"O boccia exige força, direção e precisão, é um jogo de estratégia. Na natação, percorre-se uma distância, naturalmente com muita preparação", explica.

A dificuldade do jogo, aliada a outros fatores, como o de treinar "menos do que desejava" com o companheiro de competição, Domingos Vieira, "impedem-na" de perspetivar resultados.

"Vai ser um jogo de cada vez, a BC4 é uma classe muito difícil. Vou tentar chegar o mais longe possível", refere, admitindo que algumas pessoas podem ficar desiludidas com os seus resultados em Londres.

"As pessoas estão à espera de mim com expectativas, uma vez que fui sempre medalhada nos Jogos em participei. Penso que isso pode desiludi-las um pouco, porque o boccia é diferente, é um jogo mais difícil, não faço ideia o que vai acontecer, apesar de a nível nacional ter tido muito bons resultados", disse.

Tal como sucedia com a natação, Susana Barroso treina todos os dias, antes ou depois do trabalho de há mais de 10 anos, no gabinete técnico de coordenação da piscina municipal de Odivelas.

Susana Barroso aprendeu a viver com a doença desde cedo, uma vez que esta se manifestou quando começou a dar os primeiros passos, mas garante que teve uma "vida igual à dos amigos".

Começou a nadar aos 10 anos, por conselho médico, quando surgiram os primeiros sinais de perda de força e de mobilidade. Completou o 12.º ano, fez um curso de formação profissional em informática, tem carta de condução e vai diariamente de carro para o emprego.

Há algum tempo trocou definitivamente o andarilho pela cadeira de rodas. Admite que a expressão "a cadeira para mim foi uma questão de liberdade" talvez seja difícil de perceber, mas garante que é verdadeira.

Na cadeira, diz, faz coisas que não conseguia fazer, ou faria com muito menos segurança e em mais tempo com o andarilho.

No boccia, Susana Barroso conseguiu uma medalha, em 2005 no Canadá, mas diz que "não teve o sabor habitual, porque era suplente de uma equipa" e nem chegou a jogar a final.

Apesar de esperar os resultados "jogo a jogo", sabe que a primeira medalha "a sério" no boccia, para juntar às muitas da natação, pode estar em Londres.

Diário de Notícias
www.dn.pt