Pouquíssimos nomes do cinema pornográfico podem gabar--se de ter entrado num filme que teve honras de exibição no Festival de Cannes, que é programado nas cinematecas de todo o mundo, que ganhou verdadeiro estatuto de culto, que é considerado pelos historiadores e críticos de cinema como um caso à parte no seu género, e que já teve um filme "respeitável" feito sobre a sua génese e rodagem. Marilyn Chambers, que morreu na sua casa de Santa Clarita, na Califórnia, com 56 anos, e foi, aos 20, a vedeta de Atrás da Porta Verde, de Artie e Jim Mitchell, podia..Quando conheceu os irmãos Mitchell, Marilyn Chambers era Marilyn Ann Briggs, uma jovem aspirante a actriz nascida numa família da classe média de Providence, em Rhode Island, e criada em Westport, no Connecticut, que tinha alguma experiência de modelo, feito um minúsculo papel no filme O Mocho e a Gatinha, com Barbra Streisand e George Segal, de 1970, aparecido num anúncio do sabonete Ivory e trabalhado como "dançarina exótica". A jovem tinha respondido a um anúncio de casting, mas quando se apercebeu que Atrás da Porta Verde era um filme pornográfico, decidiu ir-se embora. No entanto, os realizadores acharam-na muito parecida com Cybill Shepherd, e convenceram-na e ficar. .Apesar de ser uma desconhecida, Marilyn Chambers negociou um contrato único, recebendo 25 mil dólares pelo seu papel (o filme custou 60 mil) e mais 10 por cento dos lucros, transformando-a na actriz mais bem paga do género na época. .O atrevimento de Chambers compensou. Atrás da Porta Verde, sobre uma rapariga raptada e forçada a participar numa orgia perante uma audiência, virou fenómeno comercial e cultural e rendeu mais de 30 milhões de dólares, valendo-lhe assim um belo pé-de-meia. .Juntamente com Garganta Funda e O Diabo em Miss Jones, o filme dos Mitchell, que tinham pretensões a realizadores de "arte" e tratavam os seus intérpretes como actores legítimos, teve estreia em cinema nos EUA,contribuiu para tirar o porno da clandestinidade comercial e levá-lo para o mainstream, lançou a moda do porno chic, aplaudido e social e artisticamente endossado pela intelligentsia urbana, e até levou Vincent Canby, o influente crítico de cinema do The New York Times, a elogiar os dotes dramáticos e as particularidades da anatomia íntima de Marilyn Chambers ("Ela tem uma vagina com classe e aspecto suburbano"). .Marilyn Chambers participou depois num dos primeiros filmes de David Cronenberg, Rabid (1977), mas o lastro do cinema hardcore era pesado de mais, e não conseguiu fazer a travessia para a Hollywood institucional, apesar de ainda ter aparecido em filmes independentes. Também andou metida na política em águas libertárias, e teve problemas com a bebida e com drogas. O seu último papel foi a voz de uma cadela numa fita chamada Porndogs: The Adventures of Sadie. Como ela disse numa entrevista: "Pensei que conseguia passar para o outro lado. Mas enganei-me redondamente." Afinal, não conseguiu passar da porta verde.