De que falamos quando falamos de cinema japonês? De uma "coisa" distante, sem dúvida. Falamos, sobretudo, de uma paisagem criativa cuja presença no mercado português foi enfraquecendo, a ponto de podermos reconhecer uma evidência banalmente sociológica: no nosso país, para o espectador médio, o cinema japonês não existe..E, no entanto, com sofrida regularidade, os filmes japoneses vão circulando por aí, porventura continuando a mobilizar algumas pessoas para as suas singularidades temáticas e estéticas. Podemos até dizer que, apesar de tudo, o nome de Hirokazu Kore-eda (nascido em Tóquio, em 1962) emerge como uma radiosa exceção. Através de dramas centrados nas tensões do espaço familiar - Ninguém Sabe (2004), Andando (2008), O Meu Maior Desejo (2011), Tal Pai, Tal Filho (2013) -, Kore-eda impôs-se como sábio retratista de situações particulares capazes de ecoar temas universais. Daí o misto de surpresa e fascínio com que acedemos ao seu mais recente filme, O Terceiro Assassinato (em exibição), um thriller centrado na investigação de um crime..Dir-se-ia que descobrimos uma nova filiação para o trabalho de Kore-eda. Através dos seus filmes anteriores, era inevitável vermos nele um legítimo herdeiro do mestre Yasujiro Ozu (1903-1963): do rigor da composição do espaço à importância dos mais discretos detalhes emocionais, Kore-eda retomava a lição de Ozu, agora observando as famílias do Japão contemporâneo..Face a O Terceiro Assassinato, somos levados a evocar outro nome e uma diferente inspiração: Nagisa Oshima (1932-2013) e, em particular, a sua obsessiva desmontagem dos mecanismos que cruzam a lei e a atribuição da culpa com a aplicação das leis do Estado. Pensamos, talvez, no incontornável Feliz Natal, Mr. Lawrence (1983). Mas vale a pena evocar o prodigioso O Enforcamento (1968), crónica sobre a pena de morte que oscilava entre um realismo muito cru e uma perturbante dimensão fantástica. Num metódico ziguezague entre as leis do coletivo e os enigmas do individual, Oshima formulava uma interrogação que, embora num contexto totalmente diferente, surge agora retomada por Kore-eda: até que ponto a definição da culpa nos aproxima da verdade dos factos?.Onde está a verdade?.As peripécias que fazem mover a história de O Terceiro Assassinato são sugestivas. Por um lado, há um crime: logo na cena de abertura, vemos Misumi (interpretado pelo veterano Koji Yakusho, um dos mais populares atores japoneses) a matar o patrão; por outro lado, acompanhamos a saga do advogado de defesa Tomoaki Shigemori (Masaharu Fukuyama), apostado em conseguir que Misumi seja castigado com uma pena tão leve quanto possível..Dir-se-ia que estamos perante um típico policial que desemboca no modelo clássico do filme de tribunal. É verdade que assim acontece. Mas não é menos verdade que, à medida que a história avança, somos tocados pela perturbação que assalta Shigemori. Por que é que Misumi começa por se assumir como culpado sem atenuantes? E que motivos, legítimos ou obscuros, o levam a ir alterando a sua história cada vez que recebe a visita de Shigemori na prisão?.Entramos no filme pela via tradicional do enigma policial: "Quem, como, onde?" O certo é que, a pouco e pouco, a ambiguidade de Misumi vai contaminando todos os pontos de vista (incluindo o do espectador). De tal modo que o advogado se descobre protagonista da mais primitiva inquietação: onde está a verdade? Mais do que isso: quem tem conhecimento ou legitimidade para enunciar uma verdade em que todos se reconheçam?.Na sua condição de obra em aberto, o filme possui um apelo realmente universal que não terá passado despercebido aos membros da Academia Japonesa de Cinema: O Terceiro Assassinato recebeu seis prémios referentes à produção de 2017, incluindo melhor realização e melhor argumento (ambos para Kore-eda), melhor ator (Koji Yakusho) e melhor filme do ano.