Ao autorizar que os membros do gabinete de Teori Zavascki, juiz do Supremo Tribunal Federal (STF), falecido na semana passada em acidente aéreo, retomassem os trabalhos sobre as delações premiadas de executivos da Odebrecht, um dos pilares da Operação Lava-Jato, a presidente do STF, Cármen Lúcia, foi a protagonista do noticiário de ontem no Brasil. Nada de novo: vem sendo assim desde o início do ano e é provável que assim continue ao longo de 2017..Antes da morte de Zavascki, a novela que alimentava os jornais que cobrem os corredores de Brasília já era o ciúme que Michel Temer, presidente da República, vinha sentindo de Cármen Lúcia Antunes Rocha, nascida em Montes Claros, Minas Gerais, há 62 anos. A juíza, que substituiu Ricardo Lewandowski na direção da Suprema Corte logo após o processo de impeachment de Dilma Rousseff, tornando-se a segunda mulher a ocupar o cargo na história brasileira, havia conduzido a crise das prisões que matou até agora 134 detidos. Enquanto Temer hesitava, Cármen Lúcia foi a Manaus, no estado do Amazonas, local da primeira chacina, logo no dia seguinte ao acontecimento e reuniu-se duas vezes com o ministro da Justiça e com o diretor-geral da Polícia Federal..Em paralelo, interveio na sensível área económica ao desbloquear verbas federais para o calamitoso estado do Rio de Janeiro, contrariando a determinação do ministro das Finanças e embaraçando, mais uma vez, o governo Temer..Pelo meio, teve ainda tempo para presidir a reuniões com membros de todos os tribunais de justiça dos 26 estados do Brasil. E solicitou encontro com o ministro das Comunicações.."É uma rotina estonteante que deriva de dois fatores", avalia Eliane Cantanhêde, colunista do jornal O Estado de S. Paulo. "Um é a personalidade dessa mulher que foi interna num colégio de freiras, acordando de madrugada, estudando dia e noite, forjando uma rotina e uma personalidade espartanas, apesar do ótimo humor; outro é que o STF vem assumindo um protagonismo proporcional ao tamanho da crise, ou das crises" que o país vem enfrentando..Num meio - o de Brasília - em que são notícia os luxos, regalias e honras dos titulares de cargos públicos, Cármen Lúcia diz que tem "uma madre superiora" dentro dela. Solteira, vive sozinha, dispensa o motorista oficial - vai para o tribunal ao volante do seu Opel Astra - e a segurança privada pessoal - é vigiada apenas por duas agentes da polícia - a que tinha direito pelo cargo que ocupa. Em viagens oficiais, abdica das diárias e, ao contrário dos antecessores, criticou as "extravagâncias" dos magistrados, como o privilégio do "auxílio-moradia". Não gosta de usar a palavra "corte", para definir o STF, por achar demasiado pomposa, e evita o termo "excelência" quando se dirige a um advogado porque, diz ela, "eles podem acreditar que são mesmo excelências"..Este estilo vem justificando elogios, nomeadamente por parte da imprensa brasileira. Mas também muitas críticas, que vêm sobretudo dos seus pares e também da classe política: acusam-na à boca pequena de, embora tentando dar a impressão do contrário, procurar as luzes da ribalta. E de abusar das frases de efeito, como quando na tomada de posse contrariou o protocolo e se dirigiu primeiro "a sua excelência, o povo" antes de nomear as autoridades presentes na cerimónia..Na ocasião, disse também preferir ser chamada de presidente e não de "presidenta", numa farpa à ex-presidente da República Dilma Rousseff, com quem, porém, mantinha ótima relação pessoal. "Fui estudante e sou amante da língua portuguesa, acho que é presidente, não é não?", disse a primeira mulher a usar blazer e calças compridas no plenário do STF..Fã do compositor clássico francês Saint-Saëns, elege Crime e Castigo, de Dostoiévski, A Divina Comédia, de Dante, e Grande Sertão - Veredas, de Guimarães Rosa, como as obras literárias preferidas. Obras de fôlego, como de fôlego parece ser a carreira da juíza com 40 anos de magistratura e membro do STF desde 2006, nomeada pelo então presidente brasileiro Lula da Silva (do PT)..Na crise das prisões, na relação económica do governo federal com os estados e na gestão corrente dos primeiros dias após a morte de Zavascki, Cármen Lúcia tem sido a protagonista do Brasil em 2017. E vai continuar a sê-lo: compete-lhe escolher, ou determinar como será feita a escolha, do juiz que vai substituir o magistrado falecido, como relator do caso. Ou seja, definir quem vai julgar centenas de políticos envolvidos no esquema de corrupção da Odebrecht..Em São Paulo