Agora foi a Vodafone o alvo de mais um ataque informático. Ontem nos meios de comunicação, hoje numa operadora. E quando for num hospital? Dados e dados de doentes? Aparelhos e maquinetas dependentes de uma rede?.Quando estas falhas digitais tiverem impacto na nossa saúde e no nosso bem-estar poderá ser tarde. O peso digital instalou-se de tal forma que já não é possível removê-lo das nossas vidas. Esta dicotomia entre o dispensável e o necessário, entre a recreação e a condição humana, acaba por me fazer olhar, de forma quase filosófica, para a existência humana e para a vida que levamos. Ou melhor, para a vida que realmente precisamos de levar. Em forma metafórica quase que podemos esticar a ideia do regime autoritário checo dos anos 1960, retratada no livro de Milan Kundera, e teletransportá-la para os dias de hoje, onde nós também vivemos numa sociedade autoritária que é, neste caso e a meu ver, dominada pelo ser digital. Seja no telefone, seja no email, seja no que for. Até nas redes sociais, claro! Veja-se que 76% da população usa as redes sociais. Nada contra. Mas não partilhar uma fotografia no Instagram, para alguns, é caso de vida ou de morte. Eu cá não me queixo, antes pelo contrário... um dia sem "rede" significa menos chamadas para atender, menos mensagens para responder e menos problemas para resolver. Se bem que, infelizmente, mesmo sem resposta eles não desaparecem..O livro fala também da "eterna recorrência", conceito sugerido por Friedrich Nietzsche, em que o universo se repete em acontecimentos que em determinada altura são replicações constantes de um passado futuro. São vivências que já foram e sabemos que voltarão a ser. Ou que queremos que voltem a ser! Na verdade, é isso que fazemos nas nossas vidas, vivemos, registamos e queremos repetir. A patologia do momento é a forma que encontrámos para "viver". Vivemos nas redes sociais, criamos avatares perfeitos, personagens idílicas que acreditamos que um dia as possamos vir a encarnar. E o que é que o ataque informático à Vodafone nos trouxe: realidade! Sem rede não há redes..Sei que estou a relativizar porque a dependência do ser digital é de tal forma, que muito negócio ficou comprometido, muito trabalho ficou parado. A minha esperança é que estes ataques não impactem na vida do ser humano como impactaria se fosse num hospital..Mas convenhamos que um dia sem rede é um dia muito mais leve. Não?.Designer e diretor do IADE - Faculdade de Design, Tecnologia e Comunicação da Universidade Europeia