Foi a 17 de julho de 1996 que Portugal, Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe criaram oficialmente a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), à qual se juntou em 2002, após conquistar a independência, Timor-Leste. Doze anos depois, a Guiné Equatorial tornou-se no nono membro desta organização, um processo não isento de polémica..Olhando para estes 26 anos, parece ser consensual que a CPLP tem vindo a mostrar a sua importância, começando logo pela originalidade da sua formação. "É uma organização única e insubstituível que congrega países geograficamente dispersos unidos por uma língua comum, unidos pela ideia de que na diversidade podemos contribuir decisivamente para um mundo mais justo e solidário", diz Zacarias da Costa, secretário executivo da CPLP, numa mensagem a propósito deste aniversário. "Não há à escala planetária nenhuma outra instituição que traduza esta realidade. Se verificar, a Commonwealth, que é uma organização com uma grande expressão alargada de países que utilizam a língua inglesa, desde logo não inclui os Estados Unidos da América, e isso não é uma questão de somenos importância. A própria francofonia é uma realidade, que embora do ponto de vista orgânico seja completamente diferente da que esteve na génese da CPLP, também não inclui todos os países de língua oficial francesa", reforça Vítor Ramalho, secretário-geral da União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa (UCCLA)..Para este responsável, a CPLP distingue-se ainda pelo facto de todos os seus Estados-membros fazerem fronteira com o mar, "uma questão que não é menor, numa altura em que as Nações Unidas têm sobre a mesa a proposta do alargamento da plataforma continental dos países que têm o mar como fronteira. O que significa que todos esses países, os nossos países, a ser adotada esta orientação, reforçarão essa plataforma continental"..Vítor Ramalho refere ainda a realidade de a língua portuguesa ser uma das línguas mais faladas do mundo - dados deste ano mostram que é a sexta com mais falantes nativos - e a primeira do Atlântico Sul. Hoje é falada por 260 milhões de pessoas, com um crescimento estimado até aos 500 milhões no final do século. "É útil nós sublinharmos esta vertente por uma razão: a língua hoje é um instrumento decisivo para a economia. E em função da singularidade dos países de língua oficial portuguesa integrados na CPLP, sucede também que, todos fazendo fronteira com o mar, têm no mar potencialidades económicas incomensuráveis e até potencialidades de contribuírem para a segurança do Atlântico Sul, considerando a importância que nesse Atlântico Sul tem o continente africano", diz ao DN o secretário-geral da UCCLA..Esta importância da economia para a CPLP foi reconhecida entretanto no seio da organização, com os Estados-membros a realizarem a primeira reunião ministerial tripartida - Economia, Comércio e Finanças -, onde "aprovaram a Agenda Estratégica para a Cooperação Económica 2022-2027, a par da criação do Fórum das Agências de Promoção do Comércio e do Investimento", conforme sublinha Zacarias da Costa. "Estes enormes avanços permitirão estabelecer um ambiente de negócios que estimulará as trocas comerciais e os investimentos no espaço da CPLP", acrescenta..A questão da mobilidade está também em cima da mesa como uma aposta para o futuro. Nesse sentido, a CPLP criou o chamado Acordo de Mobilidade, adotado há um ano na Cimeira de Luanda e que neste momento só ainda não foi ratificado pela Guiné Equatorial. "Este acordo permitirá uma maior circulação do conhecimento e da inovação, dos bens e serviços culturais, uma maior circulação no intercâmbio académico, no turismo e na cooperação económica e empresarial", enumera o timorense..Na opinião de Vítor Ramalho, a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa tem de estar atenta também à nova realidade geoestratégica mundial que se está a abrir por efeito da guerra na Ucrânia, referindo que as nações lusófonas têm condições para aprofundar este novo quadro. "A Europa está enfraquecida, está envelhecida, se bem que seja a região com maior potencialidade do ponto de vista comercial, não é menos certo que não tem aprofundado relações triangulares com África e a América Latina. Ora, Portugal tem condições, à mercê do Brasil e da presença da língua portuguesa e das relações de interesse e afetivas em África, de ser aqui um instrumento absolutamente determinante para a própria União Europeia no reforço que ela tem que fazer pela afirmação da sua própria importância à escala planetária"..Uma ideia que parece ser partilhada por Zacarias da Costa. "O atual contexto em que vivemos veio reforçar a importância do multilateralismo como forma de promover a partilha de conhecimento e a troca de experiências e assim proporcionar parcerias e respostas conjuntas para fazermos face aos vários desafios que o mundo enfrenta", sublinha o secretário executivo da CPLP. "Neste aniversário, a ideia que levou à criação da CPLP há 26 anos permanece válida e atual", remata..ana.meireles@dn.pt