Partindo dos quinhentos anos do nascimento de Fernão Mendes Pinto, escritor português autor da obra "Peregrinação", o museu municipal olha para a diversidade de culturas que ao longo dos últimos séculos ajudaram a dar forma à cidade..Pelas paredes dos dois pisos da exposição percebe-se Almada como espaço central de um fluxo migratório continuado no tempo e dividido em três momentos: O crescimento industrial como elemento de atração migratória (1870-1970), a Revolução e pós-descolonização (1974-1992), e a diáspora e movimento (1993-2010)..É pelos olhos da fotógrafa britânica Camilla Watson que as histórias das dezasseis famílias que preenchem a exposição mostram o seu quotidiano ao visitante: família, casa, trabalho..Manuel Barros, perto da fotografia tirada na escada do prédio em que vive, no Laranjeiro, diz à Lusa que conta "mais anos de português do que de santomense". Saiu para trabalhar no navio Moçambique tinha 33 anos, hoje tem 76. Pelo caminho fez nove filhos e viu acontecer uma revolução. .Alexandrina Barros, filha, 50 anos, veio para Almada em 1973. Recorda-se de o sítio onde agora está este museu ser uma quinta e lembra que "essa conversa de integração e diversidade não se usava naquele tempo".."Portugal e África tinham a mesma bandeira, o mesmo Governo. E os africanos eram reis, as pessoas vinham à janela para ver os pretos passar", contou..Hoje, diz, a família "sente-se portuguesa sem nunca deixar de ser africana"..Ao longo do corredor, em frente a uma ampla fotografia tirada no parque Júlio Ferraz, no centro da cidade, está, a ver-se, a família Moskovchuk, que veio da Ucrânia para Portugal em 2000..Maya, a mãe, conta à Lusa que, a par da normal vontade de encontrar melhores condições de vida, a família saiu de Chernovtsy para estar mais perto de quem tinha vindo antes dela: "O irmão do meu marido estava, o meu marido quis tê-lo mais perto, viemos para ter a família junta", disse..Escolheram Almada por acaso mas não pretendem partir: "Vamos a Chernovtsy de férias e visitar a família mas ficamos por aqui. Almada tem tudo, é uma cidade boa e simples: rios e mar perto, a capital perto, transportes e pessoas abertas", afirmou..Nenhum dos dois dois tem a mesma profissão que tinha na Ucrânia. Maya era professora de canto e o marido, Oleg, era professor de música. Hoje ela cuida de crianças, ele é motorista de autocarro..Em casa, dizem, é na mesa que as culturas se misturam mais. Embora se fale sobretudo em ucraniano e em russo, e apenas o filho, de 18 anos, Serhiy, use de vez em quando algumas palavras em português, a comida tira "um pouco de cada país"..A exposição "Gentes de Almada" está patente no Museu da Cidade até Outubro, de terça a sábado, entre as 10:00 às 18:00.