Mãos calejadas, mas cuidadosas, vão colocando, pacientemente, sobre o molde de cera os vários elementos do rendilhado em alto relevo que ficará gravado na decoração do sino que, dentro de dias, virá a ser fundido. Estamos na Fundição de Sinos de Braga, praticamente a única de dimensão a dedicar-se a esta arte. Ao lado, o local da fundição é preparado meticulosamente, com a terra a ser compactada com martelos eléctricos. "Um sino de 40 quilogramas de peso exerce uma pressão correspondente a 400 quilogramas enquanto o bronze, a 1140 graus, é vertido nas formas", explica diz Arlindo Jerónimo, sócio-gerente da empresa. Mas é no restauro que a Fundição Jerónimo se tem destacado. A sua obra mais emblemática foi a recuperação dos 12 sinos da Basílica da Estrela, que datam de 1788. "Foi soberba", diz Arlindo Jerónimo. "Pediram-nos uma réplica dos sinos, mas propusemos o restauro, garantindo a qualidade, o aspecto e som original. Ficou mais caro, mas a Basílica tem hoje os sinos primitivos.".Um trabalho que se prolongou ao longo de um ano, atendendo ao estado de grande degradação em que se encontravam alguns deles, com fracturas, fendas e deformações várias. "O restauro é uma coisa linda, dar vida ao que está morto... E a Basílica da Estrela renasceu, quando ninguém acreditava que os sinos partidos ficassem a tocar bem", diz, visivelmente orgulhoso. É mesmo a afinar um sino que Arlindo Jerónimo se deixa levar e 'perde' a noção do que o rodeia. "O sino tem cinco notas parciais para afinar e sempre que mexo numa tenho de ajustar as outras", explica. Uma arte de grande precisão, que poucos dominam, garante..Fundada em 1932, por Serafim da Silva Jerónimo, a Serafim da Silva Jerónimo & Filhos, Lda, mais conhecida como a Fundição de Sinos de Braga é hoje gerida pelo filho, que é, na verdade, a terceira geração a a dedicar-se à actividade. E tem um filho com uma pequena empresa concorrente. Ser líder ibérico é a meta de Arlindo Jerónimo, o que espera conseguir graças à certificação da empresa, desafio que tem em curso. "Queremos 10% do mercado espanhol em três anos. A partir de Espanha é fácil dar o salto para a Venezuela e outros países da América do Sul", diz o gestor. Os EUA são também um objectivo, porque "é um mercado enorme", bem como o Brasil, embora seja "complicado" em termos fiscais. "Podemos exportar só os relógios", refere..A empresa, que em 2008 facturou dois milhões de euros e este ano espera encerrar o exercício com "um ligeiro crescimento", já vende os seus artigos para Espanha, França, Suíça, Andorra, Canadá e países de língua oficial portuguesa, entre outros. Crise Arlindo Jerónimo ainda não sentiu... a não ser nos pagamentos. "Pagamos tudo a pronto, e o cliente paga a seis meses, um ano, dois, com cheques pré-datados... Não me lembro que há um ano fosse assim", lamenta.